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Stédile quer biocombustível nacionalizado e para mercado interno

Por Natuza Nery

BRASÍLIA (Reuters) – João Pedro Stédile, o principal porta-voz do MST, maior movimento social do Brasil, defendeu pela primeira vez na noite de quinta-feira a produção de biocombustível no país e reivindicou a nacionalização do setor, como a Bolívia fez com o petróleo.

O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no entanto, atacou a exploração de fontes renováveis de energia para abastecer os carros do que classificou de predatória classe média norte-americana.

"Nós somos a favor da agroenergia, mas somos contra a forma de produzi-la. Tem que ser pela policultura, sob controle dos camponeses, intermediada pelo Estado e voltada para o mercado interno", disse ele à Reuters.

Para Stédile, há dois problemas estruturais da produção do etanol financiada pelo capitalismo. O primeiro é o avanço sobre terras férteis e a substituição de culturas, aumentando a fome. O segundo, "ainda mais perverso", é a taxa média do lucro da agricultura.

"Apoiado pelos Estados Unidos, a taxa de lucro será mais alta, todo mundo vai querer produzir cana. É a própria lógica do capital. Temos que produzir isso para a sociedade, não para os carros da classe média norte-americana, que não quer abandonar seu modo de vida predatório", acrescentou.

Durante visita ao Brasil, em março deste ano, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciaram acordo de cooperação tecnológica entre os dois países para a produção de etanol. O objetivo é transformar o biocombustível em uma commodity internacional, iniciativa prontamente condenada por Cuba e pela Venezuela.

Sob a bandeira do uso social do combustível, João Pedro Stédile criticou a Petrobras e exaltou a Bolívia ao brigar por seu petróleo. Num recado a Lula, o líder sem-terra apresentou uma nova demanda ao tradicional aliado político.

"Faremos uma reivindicação ao Lula. Ele precisa ter coragem de começar desapropriando agora as propriedades de empresas estrangeiras e dar o mesmo exemplo que a Bolívia. O petróleo da Bolívia pertence ao povo boliviano e não à Petrobras. Viva o povo boliviano, que teve coragem de botar o dedo na Petrobras", proclamou ele durante o lançamento do V Congresso Nacional do MST.

As declarações de Stédile ilustram divergências não só com a estatal, mas também com o governo. Insatisfeito com as ações do Executivo para a reforma agrária, o movimento está em pé-de-guerra com o ministro da área, Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário).

"Nossa posição é sempre de autonomia a qualquer governo, não importa se é governo (José) Serra, Fernando Henrique ou Lula. Evidente que toda nossa base votou no Lula, mas isso não significa que viramos puxa saco dele. O que o governo fizer em benefício do povo, a gente aplaude. O que fizer contra o povo, a gente desce o pau", alfinetou.