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Sem crédito, brasileiro volta a procurar consórcios

PORTAL EXAME

Custo mais baixo e menor burocracia atrai consumidores

 

Francine De Lorenzo

Portal EXAME   A dificuldade de se conseguir crédito nas agências bancárias fez com que os brasileiros voltassem a procurar os consórcios para a compra de eletrodomésticos, carros, motos, caminhões e imóveis. Em outubro, no auge da crise financeira, houve recorde de vendas, com a comercialização de 168,7 mil cotas – 8% a mais que no mês anterior.

Somente as motos foram responsáveis pelas vendas de mais de 100 mil cotas. O número é o maior já alcançado pelo segmento e representa um aumento de 10% sobre as vendas de setembro e de 21% em relação a outubro do ano passado. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), Rodolfo Montosa, o comércio de motocicletas foi um dos mais atingidos pela falta de financiamentos e, por isso, a procura pelos consórcios cresceu tanto.

Atualmente, 3,6 milhões de pessoas participam de grupos de consórcios no Brasil, segundo dados do Banco Central. O custo mais baixo e a menor burocracia, na avaliação de Montosa, são os principais pontos que chamam a atenção dos consumidores.

Nos consórcios, diferentemente dos financiamentos, não há a cobrança de juros. Os consorciados arcam apenas com uma taxa de administração, que varia de 1,5% a 2,4% ano. O percentual é muito inferior ao das linhas de crédito, que chega a ultrapassar os 60% ao ano.

Na composição da parcela, entretanto, inclui-se também um valor que se destina à formação de um fundo de reserva. Esse fundo tem por objetivo garantir as cartas de crédito em caso de qualquer eventualidade. Se não utilizado, ao final do plano, o dinheiro é devolvido aos participantes.

Para saber quanto terá de pagar por mês, o consorciado pode fazer uma conta simples: somar o percentual da taxa de administração ao do fundo de reserva, aplicar o percentual resultante sobre o valor da carta de crédito e, então, dividir o total pela quantidade de prestações. Numa carta de crédito de 23 mil reais, por exemplo, com prazo de 72 meses, taxa de administração de 12% no período e 3% de fundo de reserva, o consorciado pagará:

12% (taxa de administração) + 3% (fundo de reserva) = 15% (percentual total)

R$ 23.000 (valor da carta de crédito) x 15% = R$ 3.450 (custo do consórcio)

R$ 3.450 + R$ 23.000 = R$ 26.450 (valor total do consórcio)

R$ 26.450 / 72 (número de prestações) = R$ 367,36 (valor da prestação)

Durante o plano, as prestações são corrigidas pelo valor do bem, seguindo a tabela de preços do fabricante. No caso de imóveis, o indicador mais utilizado é o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC).

A desvantagem dos consórcios está em não dispor do bem imediatamente. Como a contemplação é feita por sorteio, os menos sortudos poderão levar meses ou até mesmo anos para receber o bem. Os planos de imóveis, os mais longos do mercado, chegam a ter prazo de 180 meses. Nos de automóveis, o prazo mais comum é de 72 meses, enquanto nos de motos é de 60 meses.

Quem possui uma boa reserva em dinheiro, entretanto, pode tentar antecipar o recebimento do bem dando um lance. Cada plano estabelece um valor mínimo para as propostas. No Bradesco, maior administrador de consórcios do país, o lance mínimo para veículos equivale a 10% da carta de crédito e, no de imóveis, 20%. O consorciado pode tentar a contemplação por lance quantas vezes quiser e, no caso de imóveis, é possível utilizar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

Inadimplência

De acordo com dados do Banco Central, o índice de inadimplência nos consórcios gira em torno de 7%. Nos planos de imóveis, entretanto, o índice é bem menor: por volta de 3%.

Para o presidente da Abac, os consumidores não têm motivos para se preocupar com a inadimplência nos consórcios. "O sistema tem mecanismos que não permitem que os outros participantes sejam prejudicados pela falta de pagamento de um consorciado", diz.

Montosa explica que, antes de ser devedor, o consorciado é um credor. Ele só passa a ter uma dívida quando é contemplado com a carta de crédito. "E, normalmente, a dívida é bem menor que o valor do bem, já que grande parte do valor já havia sido pago antes da contemplação", diz.

Se houver inadimplência após a contemplação, o bem é tomado e levado a leilão para pagamento da dívida. Já se a falta de pagamento se der antes da contemplação, o participante terá três meses para regularizar sua situação. Caso isso não seja feito, ele é excluído do grupo e receberá de volta os valores pagos apenas ao término do plano.

Algumas administradoras oferecem em seus planos seguro de garantia de crédito, que têm os custos inclusos no fundo de reserva.

Crescendo com a crise

Enquanto o arrocho no crédito perdurar, a expectativa do setor é de crescimento nas vendas, com projeção de 10% de expansão em 2009. O Bradesco, porém, acredita que ficará acima dessa média e estima 15% de crescimento no próximo ano. "O consórcio é um produto que atinge todas as camadas sociais. É muito comum pais comprarem cotas para presentear os filhos e recém-formados planejarem a aquisição de uma sala comercial por meio dos consórcios", diz Idevalter Borba, diretor da Bradesco Consórcio.

* até outubro
Fonte: Banco Central