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Sanguessugas: PF já tem lista de prefeituras

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CUIABÁ – Além de declarar à Polícia Federal que 170 parlamentares estão envolvidos no esquema de venda de ambulâncias superfaturadas, desbaratado pela Operação Sanguessuga, a ex-assessora do Ministério da Saúde Maria da Penha Lino também entregou aos policiais um disquete contendo a listagem de todas as prefeituras que compraram ambulâncias com dinheiro de emendas do Orçamento operadas pelos donos da Planam nos últimos anos.

A listagem traz a especificação da ambulância, o valor da compra, a prefeitura compradora e a emenda orçamentária que a financiou. O cruzamento dos dados do disquete com a relação das emendas apresentadas pelos deputados ajudará a Polícia Federal a qualificar o envolvimento dos parlamentares citados por Penha no esquema.

A ex-assessora também afirmou possuir uma cópia, igualmente em disquete, de todas as operações que a Planam mantinha em seus computadores na data em que ela deixou a empresa, em março de 2005. Esse disquete, no entanto, ainda não foi entregue à PF. Segundo o advogado de Penha, Eduardo Mahon, o disquete está sendo localizado.

Durante seu depoimento, a ex-assessora, que tenta obter o benefício da delação premiada, conseguiu identificar em uma lista 83 dos 170 parlamentares que ela afirma integrarem o esquema de subscrição de emendas para ambulâncias em troca de propina. Mas Penha assegurou que, com a listagem de emendas, ambulâncias e projetos apresentados pelas prefeituras, será capaz de se recordar dos demais nomes.

No depoimento, Penha desceu a detalhes sobre a forma de operação de alguns parlamentares específicos, em especial os de Mato Grosso, onde morava antes de se mudar para Brasília.Entre eles, está o pepista Pedro Henry. Nos grampos da PF, há um diálogo entre a ex-assessora e um colega no qual os dois comentam que, dos parlamentares que conheciam, Henry seria o mais merecedor de “ajuda” pelo fato de tê-los ajudado no passado.

Em novembro do ano passado, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) encaminhou ao Ministério Público Federal um relatório comunicando movimentações financeiras suspeitas feitas pelas empresas do grupo montado por Darci Vedoim, o empresário que chefiava o esquema. As operações, relatadas por dois grandes bancos, somavam mais de R$ 20 milhões.

O Ministério da Justiça já tem a informação preliminar, no entanto, de que nos últimos meses foram comunicadas apenas dois saques em espécie acima de R$ 100 mil feitos pelo esquema de Darci Vedoin no Banco Itaú. Penha apontou a agência do Setor Comercial Sul do banco, localizada na área central de Brasília, como a mais utilizada pelos empresários para os saques de dinheiro em espécie destinados ao pagamento de propinas a deputados e assessores. Mas é possível que existam saques numerosos inferiores a R$ 100 mil. Um levantamento mais detalhado será necessário. O limite é imposto pela legislação de combate à lavagem de dinheiro. Qualquer retirada em dinheiro vivo superior a R$ 100 mil deve ser comunicada automaticamente pelos bancos ao Coaf.

Ontem, o superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso e o delegado Tardelli Boaventura, responsável pela investigação da Operação Sanguessuga, divulgaram uma nota oficial em reação às críticas do presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP), para quem a PF misturou nomes de parlamentares sem participação no esquema com outros, seriamente envolvidos, na listagem dos parlamentares.

“É com surpresa que observamos determinadas pessoas, algumas inclusive conhecedoras da lei, tentando macular o trabalho da Polícia Federal, ao atribuir à instituição a responsabilidade por eventual mistura de joio com trigo, no que tange aos parlamentares mencionados no curso da operação”, diz a nota, sem citar nomes.

Na nota, a PF informa que, nos seus relatórios enviados a autoridades federais, como o procurador-geral da República e os presidentes da Câmara e do Senado, advertia que os nomes foram simplesmente mencionados, fato que não implicaria necessariamente “formação de culpa ou indícios criminais”.

Mulas
O dinheiro para remuneração aos sanguessugas, sacado na agência do Banco Itaú pelos donos da Planam, era levado em espécie aos gabinetes dos parlamentares pelos próprios donos e por empregados da empresa ou outros emissários de confiança, usados como mulas.

O motorista Fernando Felipe Freitas, residente na cidade satélite de Ceilândia, no Distrito Federal, era uma das principais mulas usadas para levar dinheiro aos parlamentares. Penha disse ter presenciado várias entregas feitas por Freitas. Em tom jocoso, ela contou que o movimento de entregas era tamanho que o motorista, em certas ocasiões, tinha de dar mais de uma viagem “para recarregar”.

Mulas como Freitas pegavam o dinheiro no escritório da Planam em Brasília e o levavam para os gabinetes dos parlamentares. O dinheiro era distribuído nos bolsos, cuecas, meias e outras partes das vestes do transportador, em pastas de couro ou mesmo camuflado dentro de objetos pessoais.

Às vezes, o pagamento da propina era feito mediante depósito bancário. O deputado Reginaldo Germano (PP-BA), apontado por Penha como sanguessuga, é um dos que receberam o dinheiro em conta corrente, conforme revelaram escutas telefônicas feitas pela PF com autorização judicial.

Ao citá-lo como um dos membros ativos da folha de pagamento da Planam, Penha descreveu Germano como um boquirroto. “Ele é grosso como uma porta”, disse. Ela narrou que, certa vez, Germano dirigiu-se aos berros a uma assessora, Suelene, com uma cobrança curiosa: “Cadê o ladrão do Darci que não pagou o meu dinheiro?”

Penha citou a deputada licenciada Elaine Costa (PTB-RJ) entre os sanguessugas mais envolvidos com a máfia. “Ela (Elaine) está envolvida até o pescoço no esquema”, afirmou. A deputada, segundo Penha, usava um assessor chamado Marquinhos como seu operador no esquema para não se comprometer diretamente.

Ela descreveu o ex-deputado Ronivon Santiago, cassado por corrupção no mandato anterior, como “um caçador de retorno financeiro” que farejava oportunidades de desviar dinheiro público em toda parte. Ela disse que, mesmo sendo do Acre, Ronivon aprovou uma emenda para o Hospital Bom Samaritano, de Governador Valadares (MG), de olho na gorda comissão que receberia.

O advogado de Penha aguarda uma posição dos procuradores em relação à proposta de acordo para delação premiada. Mahon deseja que ela seja totalmente liberada das acusações que pesam sobre sua cliente, entre elas as de formação de quadrilha e corrupção passiva.

Como demonstração da segurança das informações prestadas por Penha, Mahon já apresentou um pedido de acareação entre ela e o empresário Darci Vedoin, chefe do esquema. O advogado afirma que sua cliente não teria participação no esquema de superfaturamento de licitações ou de entrega de propina a deputados, embora o conhecesse.

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