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Saldo comercial da indústria tem queda de 40% este ano

Valor Online

Raquel Landim

Cacalos Garrastazu/Valor

Júlio Sérgio Gomes de Almeida: "É para quem ouve falar em desindustrialização e não acredita"

O real valorizado está provocando impacto no comércio das empresas brasileiras com o exterior. O saldo comercial da indústria da transformação recuou 40% de janeiro a setembro deste ano em relação a igual período do ano passado, cedendo de US$ 15,7 bilhões para US$ 9,3 bilhões. Esse percentual representa um ritmo superior ao da queda de 12% do superávit total do Brasil com o mundo.

A perda de fôlego das empresas nas transações com o mercado externo é decorrência do aumento das importações. Conforme dados elaborados pela Secretária de Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) as compras externas da indústria da transformação cresceram 30% de janeiro a setembro deste ano na comparação com igual intervalo em 2006, somando US$ 65,4 bilhões. No mesmo período, as exportações das empresas aumentaram 12,8%, indo para US$ 74,7 bilhões.
Dos 20 setores da economia industrial, oito aprofundaram o déficit com o mercado internacional, quatro reduziram o superávit, enquanto outros 12% conseguiram elevar o saldo, mesmo que em ritmo mais lento. Os vilões da balança comercial da indústria são os setores mecânico, material elétrico e de comunicações, químico e o farmacêutico.
O setor de material elétrico e de comunicações apurou o maior déficit: US$ 6,2 bilhões de janeiro a setembro, com aumento de 24% em relação a igual período do ano anterior. Foi seguido de perto pelo setor químico, com déficit de US$ 6 bilhões, alta de 66%. Já os fabricantes de produtos de materiais plásticos e têxteis registraram os maiores aumentos no déficit, com altas de 124% e 127%, respectivamente. No setor têxtil, o déficit subiu de US$ 259 milhões de janeiro a setembro do ano passado para US$ 589 milhões em igual período deste ano.
"É para quem ouve falar em desindustrialização e não acredita", avalia Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, ao avaliar os dados. Ele ressaltou que o comércio exterior é "o cartão de visitas da economia" e que seus resultados apontam o que pode acontecer com a base industrial no futuro.

Gomes de Almeida chamou a atenção para os diferentes vetores de aumento de exportações e importações da indústria. A quantidade importada de produtos manufaturados aumentou 23% de janeiro a outubro, enquanto os preços subiram 5%, segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Nas exportações de manufaturados, ocorre o inverso. As empresas reajustaram os preços em 13%, mas elevaram os volumes vendidos ao exterior em apenas 5% no período.
Para o economista, o atual crescimento do mercado interno apenas amenizaria o processo de enfraquecimento da indústria. "Em vez de ocorrer em três anos, pode levar dez", disse. Ele argumentou que é difícil manter um ritmo de crescimento tão forte da economia no médio prazo. A produção industrial deve aumentar 5,5% este ano – crescimento que é considerado um bom resultado.
André Nassif, economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), avaliou de uma maneira diferente os efeitos do crescimento do mercado interno. Ele ressaltou que em alguns setores as perdas no mercado externo aumentam, mas a produção física vai muito bem por conta das vendas internas.
No setor mecânico, por exemplo, o déficit aumentou 129%. No entanto, a produção física de máquinas e equipamentos (um dos principais itens desse setor) cresceu 17,5% de janeiro a agosto em relação a igual período do ano anterior, segundo o IBGE. "Ainda não vejo estrago", afirmou Nassif.
Em outros segmentos, as importações crescem, as exportações caem, o saldo diminui, e a produção física também cai. É o caso da indústria de material eletrônico, cujo déficit cresceu 24% de janeiro a outubro, enquanto a produção física, de janeiro a agosto, caiu 5,4%. "Esse efeito poderia ser menor, se o câmbio estivesse ajustado", explicou. Ele completou dizendo que alguns setores são beneficiados pela alta dos preços das commodities industriais, como a metalurgia, cujo superávit cresceu 3%.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, também creditou a redução do superávit da indústria à valorização cambial. "A indústria da transformação é a mais afetada por esse efeito cambial prolongado", diz. Segundo explicou, com o dólar barato e o crescimento da economia, é natural que as importações disparem, reduzindo o saldo comercial.
A tendência é que os resultados da indústria da transformação no mercado externo continuem piorando. Conforme estimativas da MB, o déficit dos setores de química orgânica, plásticos e borracha deve atingir US$ 8,6 bilhões este ano e US$ 10,9 bilhões em 2008. Em máquinas e equipamentos elétricos, as perdas no comércio exterior podem aumentar de US$ 15,4 bilhões em 2007 para US$ 20,9 bilhões ano que vem.