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Real forte valoriza ativos e incentiva remessa de lucros

Valor Online

Alex Ribeiro

A apreciação da taxa de câmbio está incentivando as empresas com capital estrangeiro a remeter volumes crescentes de lucros e dividendos para o exterior. O real forte valorizou os ativos de estrangeiros no Brasil, aumentando os lucros das filiais e abrindo espaço para enviar mais resultados às matrizes.
O estoque de investimentos estrangeiros diretos no Brasil cresceu 155% desde 2002, chegando a US$ 256,5 bilhões em março passado. A maior parte desse aumento – 56% – se deve à valorização da moeda nacional. O resto, 44%, é explicado pelos novos capitais aplicados por estrangeiros dentro do país. Além da valorização cambial, outros fatores, como os altos lucros, também contribuem para pressionar o envio de rendas ao exterior.
Quando aplicam no Brasil, os investidores compram ativos em reais. A valorização da moeda aumenta o valor dos ativos. Mais ricos, os investidores podem remeter mais rendas ao exterior. Guardadas as devidas proporções, é uma situação semelhante a de um investidor imobiliário que assiste ao apartamento que comprou se valorizar, permitindo cobrar um aluguel maior.
Desde 2002, o estoque de investimentos diretos no Brasil cresceu US$ 156,7 bilhões. Desse total, US$ 88 bilhões podem ser atribuídos exclusivamente à valorização do real. Estrangeiros que estavam aplicados em reais em 2002 haviam ganho 72% até março de 2007, graças à valorização do câmbio. O restante do aumento do estoque de investimentos diretos, US$ 68,7 bilhões, corresponde aos novos capitais aplicados por estrangeiros no país desde 2002.
As remessas de lucros e dividendos triplicaram desde o início do governo Lula, gerando questionamentos sobre a conveniência de o país ter se tornado um dos principais destinos dos investimentos diretos. As remessas anuais passaram de US$ 6 bilhões em 2002 para 19,6 bilhões no período de 12 meses encerrado em setembro de 2007. A análise dos dados mostra que as remessas não crescem apenas porque os estrangeiros investiram mais, mas também porque a moeda se valorizou e os lucros aumentaram no período.
Os impactos da valorização do câmbio não se limitam aos investimentos diretos. Também atingem os chamados investimentos em carteira, ou seja, a compra por estrangeiros de participação inferior a 10% do capital de empresas brasileiras. Nesse caso, além do câmbio, há também o efeito da valorização da Bolsa.
Desde 2002, os investimentos estrangeiros no mercado acionário se multiplicaram por sete. Passaram de US$ 27,2 bilhões para US$ 200,7 bilhões em março de 2007. Mas apenas 20% desse crescimento, ou US$ 33,9 bilhões, se deve aos novos investimentos em carteira feitos por estrangeiro no período. Os 80% restantes se devem tanto à alta da Bolsa quanto à valorização da moeda nacional . As estatísticas oficiais do Banco Central não permitem apartar o que é efeito de uma coisa e de outra. Mas sabe-se que o índice Bovespa se valorizou 465% desde 2002.
O aumento do estoque de investimentos em ações pressionou as remessas de lucros e dividendos. Considerando apenas essas participações minoritárias no capital das empresas, o envio anual de rendas ao exterior cresceu de US$ 1,1 bilhão para US$ 3,9 bilhões, entre 2002 e os 12 meses encerrados em setembro de 2007. Mas houve recuo em relação ao pico das remessas, em 2006, quando chegaram a US$ 4,9 bilhões.
As remessas de lucros e dividendos ligadas a investimentos diretos, porém, seguem tendência de expansão. Triplicaram no governo Lula e, entre 2006 e os 12 meses encerrados em setembro de 2007, passaram de US$ 11,4 bilhões para US$ 15,6 bilhões.
O estoque de investimento direto explica uma boa parte do aumento das remessas, mas a lucratividade das empresas também é importante. Em 2002, as remessas de lucros e dividendos respondiam por 4,08% do estoque de investimentos estrangeiros diretos do ano imediatamente anterior. Nos 12 meses encerrados em setembro, essa relação já era de 6,61%. Ou seja, para cada dólar investido do Brasil, as empresas remeteram 62% mais lucros e dividendos.
Os percentuais de remessas sobre investimentos do Brasil está em linha com outras economias. levantamento feito pelo BC mostra que, no Chile, esse percentual foi de 8% de 1998 a 2004; na Rússia, de 5,3% de 2001 a 2005; e, na Argentina, 5% de 2003 a 2004.