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Quase poupança

Por Angelo Pavini

Quando a festa dos juros estava a todo vapor, na casa dos 19% ao ano, ninguém dava muita importância para a taxa de administração cobrada pelos bancos nos fundos renda fixa e DI. Agora, com juros na faixa dos 15,75%, o impacto de taxas de 3%, 4% e até 5,5% ao ano na rentabilidade começa a incomodar. Alguns fundos de varejo já registram neste mês retorno abaixo ou bem próximo ao da própria caderneta de poupança. É um sinal de que pode estar na hora de os bancos reduzirem as taxas, uma vez que muitos calibram o custo dos fundos de renda fixa e DI de varejo para que rendam um pouco mais do que as cadernetas.

As taxas de administração são fonte importante de receita para os bancos. No ano passado, elas engordaram em R$ 8 bilhões os resultados das instituições, um valor equivalente a 1% do total de ativos do setor de fundos, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Boa parte desse valor vem do varejo, onde estão as taxas mais altas e onde o investidor discute menos e tem menos opções.

Olhando para o mercado futuro, onde o DI de abril de 2007 já projeta uma taxa de juros de 14,65% ao ano, o fundo DI ou renda fixa que cobrar uma taxa de administração de 4% ao ano ficará com mais de 30% do ganho bruto da aplicação, explica Bolivar Godinho de Oliveira Filho, professor da Brazilian Business School (BBS). Para o investidor, restariam 70%, ou 10,24% brutos que, descontando o imposto de renda, de 20% por exemplo, resultariam em 8,19% líquidos. Hoje, com o juro a 15,75%, essa taxa de administração representa 28% da taxa básica, ficando para o investidor 72% da Selic, ou 11,30% brutos e 9% líquidos. “O aplicador vai perdendo rentabilidade em relação à taxa básica a cada redução de juros”, explica.

Para manter o ganho de 72% da Selic de hoje, por exemplo, a taxa de administração teria de recuar para 3,74%, diz o professor. E, para manter os 75,89% da Selic que o investidor recebia quando os juros eram de 19% ao ano, a taxa do fundo deveria ser de 2,76%. “Os administradores estão conscientes disso, mas demoram para fazer o ajuste porque perdem receita”, diz ele, acrescentando que cabe ao investidor questionar a taxa de administração que está pagando e escolher fundos mais em conta. Mantida a queda dos juros, fundos com custo de administração de 4% ao ano devem se aproximar cada vez mais do ganho das cadernetas.

O fundo BB Renda Fixa Longo Prazo do Banco do Brasil é um exemplo. Sua taxa de administração é de 5,5% ao ano, o que fez sua rentabilidade líquida nos 30 dias encerrados em 27 de abril fechar em 0,62%, abaixo dos 0,64% da caderneta, usando o critério de tributação de 20%. Trata-se, porém, de um fundo que aceita aplicações a partir de R$ 100,00 e que tem, portanto, um custo operacional mais alto, explica a assessoria de imprensa da BB DTVM. Outro com retorno abaixo da caderneta é o UBB DI Referenciado, do Unibanco, com 0,63%. O ganho pode ser maior se for considerado uma aplicação mais longa, que teria alíquotas de imposto menores, de 17,5% no caso de um a dois anos e 15% acima de dois anos.

Os bancos terão de reduzir suas taxas de administração nos produtos mais simples, diz Alfredo Setubal, presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) . “Fundos mais caros, que no varejo cobram 3% ou 4%, com uma taxa de juros de 13% ao ano, devem reduzir esses percentuais para 2%, 1,8% ao ano”. Hoje esse ajuste já começou a ser feito pelo próprio investidor, que não aplica mais nos fundos de taxas de administração altas, só resgata, diz.

A queda das taxas de administração já vem ocorrendo, diz Marcelo Giufrida, vice-presidente da Anbid. “Há vários fundos de varejo com taxas mais baixas”, diz o executivo, referindo-se às carteiras destinadas ao varejo de alta renda nos segmentos Personnalité do Itaú, Prime do Bradesco, Uniclass do Unibanco, Van Gogh do Real e Estilo do Banco do Brasil.

Giufrida diz que é preciso cuidado para não comparar os fundos só pela taxa de administração. As carteiras de varejo, por exemplo, precisam processar dados, operações e calcular a tributação de cada um dos milhares e até milhões de investidores e oferecer essas informações online para todos, permitindo ainda resgates na hora dos valores aplicados ou automaticamente quando a conta fica vermelha. “É diferente de um fundo exclusivo de um investidor private ou um fundo de previdência”, diz.

Há ainda despesas com extratos mensais, balanços, prospectos e avisos de assembléias, sem contar o treinamento das equipes de gerentes de atendimento que ajudam a encarecer a gestão do fundo. “Há ainda uma imprevisibilidade grande sobre quando esses investidores vão resgatar os recursos, por isso é preciso ter uma provisão alta para garantir os saques”. Outro fator que eleva o custo dos fundos de varejo é que a taxa de administração inclui custos como custódia e administração, que em outros países são cobradas separadamente. “O investidor não pode olhar só a taxa de administração, precisa ver os serviços oferecidos e o ganho que o gestor obtém”, diz.