Notícias


Programas sociais fazem Nordeste ter boom de consumo

Segundo IBGE, vendas no varejo crescem mais do que no resto do País

Tiago Décimo

Sorriso no rosto e sacolas nas mãos, a empregada doméstica Cleusa Patrícia Cruz, de 41 anos, sai de uma loja na Avenida Sete de Setembro, importante centro comercial de Salvador (BA). “Uma sacola é presente para minha filha: um alisador de cabelo, que vou dar de aniversário”, diz. “A outra é para mim mesma, um ventilador novo.”

Para fazer as compras, Cleusa usou o dinheiro extra conseguido durante o verão, limpando casas de turistas – os trabalhos foram oferecidos aos visitantes pela principal empregadora dela, uma corretora de imóveis de veraneio. Como Cleusa, uma legião de consumidores já começa a aproveitar os lucros da alta estação para gastar no comércio.

“Os nordestinos são, no geral, mais imediatistas que os consumidores de outras partes do País, não se preocupam muito em poupar”, afirma a gerente de Marketing das Lojas Maia, Anelisa Maia. A rede é a segunda maior do Nordeste na venda de móveis e eletrodomésticos. O faturamento da empresa cresceu 25% no ano passado. “Projetamos um crescimento tão forte quanto o de 2006 para este ano”, afirma Anelisa.

O conteúdo das sacolas que Cleusa levava dá uma idéia dos produtos consumidos na região. “A chapinha (prancha alisadora para cabelo) já é o segundo item que mais vendemos, atrás apenas dos celulares”, afirma o gerente de loja Ricardo Santos. “Ano passado, o crescimento de venda desse produto foi de mais de 40%.”

O presidente da Federação do Comércio do Estado da Bahia (Fecomercio-BA), Carlos Amaral, explica que o crescimento da renda está levando as pessoas a comprar itens antes considerados supérfluos.

De acordo com ele, os programas assistenciais do governo são o principal motivo para o comércio no Nordeste ter crescido mais do que a média do País em 2006. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas no varejo tiveram expansão de 6,2% no País. Em Estados nordestinos, o desempenho foi superior à média. Em Alagoas, por exemplo, a alta foi de 18,7%. Anelisa concorda. “Os programas de transferência de renda são decisivos – basta dizer que 59% dos beneficiários do Bolsa-Família estão no Nordeste.” Amaral pondera, porém, que o crescimento ainda é pontual e se reflete, sobretudo, nas datas comerciais, como Natal.

INVESTIMENTOS

O aumento do poder de compra na região tem atraído investimentos. A Wal-Mart, por exemplo, inaugurou no Nordeste, no ano passado, sete de suas novas 14 lojas no Brasil. Os investimentos na região chegaram a R$ 200 milhões em 2006 – e a rede anuncia que, este ano, injetará outros R$ 300 milhões na construção de novas lojas e em reformas das já existentes.

Os investimentos terão como foco a criação e consolidação das lojas Todo Dia, voltadas para as classes C, D e E – segundo o IBGE, cerca de 80% dos nordestinos estão nessas faixas.

Indústrias também estão investindo no Nordeste, como forma de se aproximar do emergente público consumidor. A subsidiária brasileira da suíça Nestlé, por exemplo, inaugurou, há duas semanas, uma fábrica em Feira de Santana. O investimento foi de R$ 100 milhões. “A produção será toda destinada ao Norte e Nordeste do País, de acordo com os hábitos de consumo e o poder aquisitivo da população das regiões”, afirma o presidente da Nestlé Brasil, Ivan Zurita.