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Previdência no Brasil tem prazo de implosão: 2019

Renato Bernhoeft

Esta mensagem é um alerta para os quarentões e cinquentões brasileiros que estão muito confiantes numa aposentadoria tranquila dentro de um período de tempo que deve se iniciar no ano de 2019. Segundo uma série de estudos e especialistas, o Brasil só vai precisar rever de forma mais profunda o seu sistema previdenciário nesta fase.

Afirma-se que é a partir desse período que as mudanças na demografia brasileira começarão a sobrecarregar demais contribuintes e beneficiários. Ou seja, fala-se de uma crise anunciada como algo que pode esperar para ser encarada, tanto por políticas públicas como privadas. E é nessa passividade e adiamento que reside o grande perigo.

Uma mensagem clara para os mais previdentes é que não dá para confiar exclusivamente no sistema previdenciário oficial. Principalmente para aqueles que têm como aspiração ou meta manter o mesmo padrão de vida. Isso se apenas estiverem levando em conta os rendimentos da aposentadoria oficial.

Também sabemos que, com os maiores índices de longevidade e melhor qualidade de vida, cada vez menos a aposentadoria deverá significar o fim de alguma atividade produtiva ou vínculo com o mercado de trabalho. Outra variável que deve interferir de forma significativa nos cálculos são os dados recentes da taxa de fecundidade do brasileiro.

As conclusões da última edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), obrigaram os estudiosos do tema a refazer todos os cálculos. As projeções populacionais foram revistas para um total de 215,3 milhões de habitantes, em 2050. A previsão anterior era de 259,8 milhões. Isso reduziu em 44,5 milhões o número de habitantes.

E, neste contingente, a parcela de pessoas com idades entre 16 e 59 anos, ou seja, os contribuintes ativos, deverá ser representada por um contingente de 120,8 milhões de indivíduos. Portanto, 25,4 milhões de contribuintes a menos para a previdência. E todo este cenário considerando um crescimento médio da economia nacional de 2,5% ao ano. Estudos da ONU sobre a América Latina (Brasil incluído) concluem que, nos primeiros 50 anos do século 21, a idade média da população vai se alterar de 72 para 79 anos.

É evidente que a abordagem do tema, bem como os encaminhamentos de soluções, depende de inúmeros componentes. Governos, entidades privadas, empresas, instituições de saúde física e mental, meios de comunicação, centros de lazer, políticas públicas e urbanas, além da própria ação de cada indivíduo, devem estar envolvidos em todas as ações, tanto de caráter preventivo como de efeito imediato.

Peter Lloyd-Sherlock, assessor do secretário-geral da ONU para o assunto, afirma que "previdência e saúde importam muito, mas há outras questões. Em particular, governos precisam dar mais atenção às relações sociais dos idosos, inclusive com apoio para cuidados no âmbito familiar."

Prossegue enfático dizendo que "muitos idosos permanecem praticamente presos em suas próprias casas, amargando isolamento, solidão, baixa autoestima e um alto grau de dependência. Muito precisa ser feito para que as pessoas tenham uma rede social quando envelhecem. Transporte público acessível, melhora na segurança e um programa de centros de convivência com atividades que poderiam ajudar."

Mas para muitos profissionais, esse tema, muitas vezes, é encarado exclusivamente sob a perspectiva econômica. Ou seja, a busca de preservação de uma reserva que lhe permita manter o padrão durante a vida considerada ativa. Eles esquecem, no entanto, as outras perdas que deverão ocorrer e que podem ser tão ou mais graves do que a queda do padrão de vida. Nos referimos às perdas de status, poder, sobrenome organizacional e autoestima. As consequências têm sido depressão, separações e até suicídios.

Portanto, esse conjunto de alertas deve ser extensivo e requerer ações, das mais diferentes camadas sociais e econômicas da população. Mas especialmente o chamado executivo precisa encará-lo de maneira muito mais abrangente. Suas perdas ultrapassam as meras questões de renda. Ao se considerarem ativos, com saúde e qualidade de vida, os seres corporativos não imaginam o que pode significar o processo de aposentadoria e suas consequências. Fica aqui o alerta.

Renato Bernhoeft é fundador e presidente da höft consultoria e integrante do "The Family Business Consulting Group International" (FBCGi) na América Latina

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