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Por que pagamos antecipado

Brasil entrega US$ 15,5 bilhões ao Fundo para melhorar o seu risco. Conseguirá?

Por adriana nicacio

F de fome, M de miséria e I de inflação. Foi dessa forma, e por duas décadas, que Luiz Inácio Lula da Silva se referiu ao Fundo Monetário Internacional. Na manhã da última terça-feira 13, contudo, Lula mandou anunciar que decidiu quitar a dívida do País com o FMI.

Numa tacada, US$ 15,5 bilhões, e dois anos antes do prazo combinado. Havia quatro parcelas trimestrais que venceriam ao longo de 2006, US$ 7 bilhões no total, com juros de 4,5% ao ano. Outros quatro pagamentos, pendurados para 2007, somavam US$ 8,4 bilhões. Com o Banco Central de posse de US$ 67,1 bilhões em reservas internacionais, toda a dívida será paga nesta semana. Com isso, o País economizará cerca de US$ 900 milhões em juros. “Foi uma decisão bem-vinda”, festejou em Washington o diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato. O próprio Lula veio a público explicar. “Não precisávamos do dinheiro”, disse. “É melhor devolver o dinheiro que o governo anterior pegou emprestado”, alfinetou, omitindo o fato de que, em 2003, ele renovou o acordo deixado por FHC.

A decisão de Lula foi inédita numa história de 51 anos do Brasil com a instituição. Nesse tempo, o País já assinou 17 acordos com o FMI – 14 descumpridos. O ex-ministro Delfim Netto, sozinho, assinou 11 cartas de intenções para o governo do general João Figueiredo, nenhuma delas cumprida. O ex-presidente José Sarney, decretou moratória. Soa surpreendente que justamente o governo do PT tenha sido responsável pela guinada e pelo exemplo de bom-mocismo. O plano de antecipar o pagamento ao FMI vinha sendo acalentado há cinco meses por Antônio Palocci, da Fazenda, e Henrique Meirelles, do Banco Central. Para isso, o BC vinha comprando grandes quantidades de dólares para reforçar as reservas, que chegaram a quase US$ 70 bilhões. Analistas de mercado não conseguiam explicar em que, afinal, o BC iria aplicar tanto dinheiro. A resposta veio no início da tarde de terça-feira. A decisão surpreendeu até mesmo os assessores mais próximos de Meirelles. Às vésperas da campanha eleitoral, Lula
anda se contorcendo para produzir fatos de impacto. Agora, pode-se dizer que o Brasil finalmente se livrou do FMI. “É oba-lê-lê para tirar fotografia”, diz
Paulo Rabelo de Castro, da PUC-Rio. Outra intenção é conseguir uma melhora na classificação de risco-país.

No mercado financeiro, o anúncio surtiu efeito. A Bovespa subiu 1,36% e o risco recuou para 311 pontos, o menor nível desde 1994. Ainda estamos abaixo do Chipre e de Botswana. Mas o representante do FMI no Brasil, Max Alier, acenou com a possibilidade de o mercado premiar o Brasil com a classificação de investment grade. “É menos uma coisa que as agências de risco vão falar”, disse Alier. “O Brasil tem posição externa confortável; tínhamos que aproveitar a liquidez”, diz Rubens Cysne, da FGV. É óbvio que poucos são contra o pagamento da dívida. Mas entre os economistas que têm o pé na economia real, há ressalvas contra a antecipação. “Foi uma escolha política, deram prioridade a um pagamento que não precisava ser feito”, disse o professor Carlos Pio, da Universidade de Brasília. “Paga-se o FMI a custo de uma recessão interna”, faz coro Júlio Gomes de Almeida, secretário-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI. “O cenário externo não é favorável; esse pagamento é uma ousadia. Gostaria de ver essa mesma ousadia na redução de juros, que só caíram meio ponto”.