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Política econômica muda e já tem a cara de Mantega

Maior vitória do ministro foi a declaração de Lula a favor de manter meta de inflação de 4,5% em 2009

Fernando Dantas

Rio – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ganhou a disputa sobre os rumos da política econômica, conseguindo impor a sua visão contrária à ortodoxia que prevaleceu durante a gestão do seu antecessor, Antônio Palocci, que saiu em março de 2006.

Decidido desde o início a dar uma guinada na economia, Mantega atuou com habilidade e discrição nos bastidores e hoje exerce plenamente o papel antes desempenhado por Palocci, de influenciar de forma decisiva a visão econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nas últimas semanas, surgiram sinais de que mesmo o Banco Central (BC), comandado por Henrique Meirelles – visto como o último baluarte da ortodoxia no governo -, está caminhando na direção de uma posição menos conservadora e mais alinhada com a visão de Guido Mantega.

Mas a maior vitória recente do ministro da Fazenda foi a declaração de Lula de que está pendendo para a decisão de manter a meta de inflação em 4,5% em 2009. Essa é exatamente a posição de Mantega, enquanto o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, defendeu publicamente a meta de 4%. E, embora Meirelles não tenha se pronunciado de forma definitiva sobre o assunto, a percepção geral é a de que se alinha com Bernardo.

Mantega nunca escondeu do seu círculo íntimo que, no que dependesse dele, a maioria dos diretores mais ortodoxos não teria vida longa no Banco Central. Desde que ele se tornou ministro da Fazenda, três dos “falcões” (conservadores) deixaram a diretoria do BC: Alexandre Schwartsman, Afonso Bevilaqua e Rodrigo Azevedo. De outro lado, Mario Mesquita, que tem perfil ortodoxo, assumiu a diretoria de Política Econômica.

É difícil, na verdade, identificar as digitais de Mantega nessas mudanças. Meirelles é muito cioso da sua autoridade sobre um BC operacionalmente autônomo (na prática, mas não em lei) para que aceitasse uma ingerência direta do ministro da Fazenda. Mas, dada a crescente influência desse último junto a Lula, não é implausível pensar que o presidente do BC tenha, pelo menos, levado em conta a oposição de Mantega à montagem de novo um Comitê de Política Monetária (Copom) dominado por conservadores.

“Tenho ouvido que é um Banco Central diferente”, diz Schwartsman, que hoje é economista-chefe do ABN Amro para a América Latina, frisando que acha a mudança natural, com todas as alterações feitas na diretoria.

Segundo Gino Olivares, economista-chefe do Opportunity Asset Management, “há uma percepção – não uma conclusão definitiva – de que o Banco Central está querendo tomar um pouco mais de risco, o que não é atribuição dele”.

Na atual formação do Copom, segundo a percepção do mercado – e ao contrário do que ocorreu durante quase todo o governo Lula -, os macroeconomistas menos conservadores são maioria em relação ao time dos falcões, que hoje se limita a Mesquita.

Do outro lado estão Paulo Vieira da Cunha, diretor de Assuntos Internacionais, e Alexandre Tombini, diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro. Os macroeconomistas são os participantes mais influentes no Copom (além de Meirelles, é claro). As inclinações de Mário Torós, novo diretor de Política Monetária, ainda são objeto de especulações.

VIRADA

Houve uma virada numa direção menos conservadora nas duas últimas reuniões do Copom. Na de abril, o corte foi de apenas 0,25 ponto porcentual, com um placar de quatro votos a três a favor de 0,50. Em junho, o corte de 0,50 venceu por cinco votos a dois a favor de 0,25. No mercado, a visão é de que a mudança do voto de Meirelles (que teria sido de 0,25 em abril e de 0,50 em junho) teria sido decisiva em ambas as situações e a posição de Mesquita prevaleceu na primeira reunião e foi derrotada na segunda.

O dilema de política monetária é que a valorização do real parece garantir o bom comportamento dos preços (visão dos menos ortodoxos), mas o forte aquecimento da economia poderia reacender a inflação (posição dos conservadores).

Em relação à manutenção da meta de inflação em 4,5% em 2009 (o assunto ainda não foi formalmente decidido e no mercado há quem ainda alimente esperança de uma surpresa), um incômodo particular para os ortodoxos é o argumento de Mantega e Lula de que não se deve sacrificar o crescimento por um combate excessivamente rigoroso à inflação.

Márcio Garcia, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, observa que os altos juros praticados pelo Copom em 2004 e 2005 foram necessários, entre outros fatores, porque o mercado acreditava que a inflação seria mais alta que os 5,1% anunciados pelo BC.

Ele nota que o BC conquistou credibilidade e as atuais expectativas de médio prazo da inflação estão abaixo de 4%. Garcia acha que as declarações de Lula e Mantega podem elevar as expectativas de inflação e impedir que o BC reduza tanto os juros quanto seria possível se elas permanecessem onde estão. “É um belo tiro no pé”, critica.

Na corrente oposta, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Universidade de Campinas, e próximo a Mantega, diz que “a idéia de se mexer na meta da inflação é sem sentido para um País que está crescendo tão pouco”.

Já Alexandre Póvoa, diretor do Modal Asset Management, tem uma visão intermediária. Prefere que a meta de 2009 seja fixada em 4,25%, com uma redução da margem de tolerância de 2,5 para 1,5 ponto porcentual.

Além da questão da meta, o comportamento do BC é outra fonte de preocupação para os ortodoxos. Economistas como Schwartsman e Olivares identificam na última decisão do Copom uma espécie de aposta na continuidade e até na intensificação de um cenário internacional extremamente positivo para o Brasil – uma atitude que julgam arriscada demais para o Banco Central.

Olivares vai além e indaga se uma visão que associa a Mantega, de que um pouco mais de inflação possa trazer um pouco mais de crescimento, tenha se infiltrado no BC. “Eu sabia que o Mantega pensava assim, mas achava que essa visão não tinha espaço no BC”, ele observa. “Ainda não sei se ele tem espaço no BC, mas passei a ter dúvidas, e isso não é bom”, acrescenta Olivares.