Notícias


Pesos pesados no IFRS

Fibria passa de prejuízo a lucro com novo padrão contábil. Petrobras, Vale e AmBev também adotam regras.

Por Fernando Torres, de São Paulo

Desaparece um prejuízo de R$ 5,8 milhões. Surge um lucro de R$ 1,26 bilhão. Esse foi o efeito no resultado do primeiro trimestre de 2009 da Fibria, maior fabricante de celulose de eucalipto do mundo, com a adoção do novo padrão de contabilidade.

O exemplo da empresa ilustra bem como o novo sistema contábil brasileiro, que tem como base o padrão internacional IFRS, pode alterar os números dos balanços. O patrimônio líquido da Fibria ao final de dezembro saltou de R$ 9,9 bilhões para R$ 15,1 bilhões com a utilização das novas práticas.

"Foi uma mudança impressionante", resume Paul Sutcliffe, sócio de auditoria da Ernst & Young, que participou do processo de transição para o IFRS na Europa.

Conforme a regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as companhias abertas só serão obrigadas a divulgar o balanço fechado de 2010 pelo novo padrão contábil. Mas algumas anteciparam as mudanças.

Um estudo feito pela E&Y com as cem maiores empresas do país, em conjunto com um levantamento realizado pelo Valor, mostra que, ao lado da Fibria, pelo menos outras 20 companhias abertas já adotaram antecipadamente o novo receituário da contabilidade.

O grupo é formado, em sua maioria, por grandes empresas. Formam a lista Petrobras, Vale, Gerdau, Metalúrgica Gerdau, AmBev, Souza Cruz, JBS, TAM, Gol, Telesp, Vivo, Net, Natura, Lojas Renner, Copasa, Cielo, Totvs, BR Malls, Grendene e Indústrias Romi.

O valor de mercado somado dessas empresas é de R$ 777,8 bilhões, o que representa quase 40% do total da Bovespa, cerca de R$ 2 trilhões.

Na Petrobras, o lucro líquido do primeiro trimestre do ano passado subiu de R$ 6,2 bilhões para R$ 6,7 bilhões. O patrimônio líquido de dezembro de 2009, por sua vez, subiu R$ 4,7 bilhões, para R$ 164,2 bilhões.

A Vale teve o mesmo ajuste no patrimônio, que também aumentou R$ 4,7 bilhões, só que para R$ 103,3 bilhões. Já em termos de resultado, quase não houve diferença. O lucro do primeiro trimestre de 2009 caiu de R$ 3,15 bilhões para R$ 3,04 bilhões.

Conforme esperado, nem todas tiveram um impacto tão grande no lucro e no patrimônio líquido. No caso da Cielo, por exemplo, Sutcliffe menciona que não houve nenhuma mudança com a adoção das novas normas.

De acordo com o especialista da Ernst & Young, a regra que gerou mais mudanças entre as companhias foi o pronunciamento CPC 15, que trata do que os contabilistas chamam de "combinação de negócios", o que inclui fusões, aquisições, cisões e incorporações de empresas.

Foi o CPC 15 que gerou a principal diferença no resultado da Fibria. Pelo novo critério, a empresa reconheceu a valor de mercado a participação de 12,5% que possuía no capital da Aracruz antes da incorporação. Esse ajuste representou um ganho contábil de quase R$ 1,4 bilhão no lucro da empresa no primeiro trimestre de 2009.

Esse efeito também se repetiu no patrimônio da Fibria, que foi turbinado pelo registro de um ganho de R$ 1,8 bilhão decorrente da troca de ativos feita com a International Paper. Ao avaliar os ativos recebidos a valor justo, a empresa percebeu essa diferença e reconheceu isso como uma compra vantajosa (deságio).

Segundo a Fibria, o aumento do lucro e patrimônio líquido decorrente da mudança contábil não tem a ver com a decisão da companhia de pagar antecipadamente a dívida restante de US$ 511 milhões relacionada às perdas com derivativos. O que permitirá o pagamento da dívida remanescente, segundo a empresa, é a emissão recente de US$ 750 milhões em bônus.

Na análise das empresas que saíram na frente no processo de mudança contábil, a expectativa de Sutcliffe é que haja maior padronização na divulgação dos efeitos dos ajustes pelas demais companhias, que devem adotar as novas ao longo dos próximos trimestres.

O Valor notou que existe uma variação importante no nível de detalhamento do impacto das mudanças apresentado em notas explicativas. A norma do IFRS diz apenas que a companhia deve apresentar a conciliação dos dados publicados no período anterior e como eles ficam com as novas regras. Mas não há uma descrição de como isso deve ser feito, o que abre espaço para maneiras mais ou menos claras de apresentar as diferenças

Até a própria adoção das normas não tem sido divulgada com muito destaque. Na maioria dos casos, somente olhando as notas explicativas dos balanços é possível saber que a empresa de fato usou as novas regras.

A adoção antecipada do IFRS no resultado trimestral é voluntária. De qualquer forma, mesmo aquelas que só deixarem a divulgação para o último momento terão que reapresentar os balanços trimestrais para comparação, inclusive com os dados referentes a 2009.

Dificuldade de comparar novos números preocupa analistas

Se nos últimos dois anos e meio foram as empresas que tiveram que correr para lidar com as mudanças trazidas pelo processo de convergência contábil que termina neste ano, agora é a vez deinvestidores e analistas de ações encararem as novidades.

Representantes do mercado garantem que houve treinamento dos especialistas – o que não é uma unanimidade -, mas consideram que pode haver algum ruído durante este "rito de passagem" do mercado de capitais brasileiro.

Enquanto cresce aos poucos a lista das empresas que adotam o novo padrão contábil brasileiro, que tem como base o modelo internacional IFRS, os investidores começam a se deparar com as dificuldades de se comparar esses dados com o histórico apresentado pela própria empresa e também com os números divulgados por outras companhias, ainda no padrão antigo.

"Há um esforço geral do mercado para se assenhorear das mudanças. Mas o grau de sofisticação teórica é muito grande e o volume de páginas também", diz Reginaldo Alexandre, presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais em São Paulo (Apimec-SP). "Os analistas estão conscientes da necessidade de aprofundamento e estão procurando se municiar [para lidar com a novidade]", afirma.

Ele menciona que há quem considere que a mudança contábil não afeta o valor das empresas, já que as novas regras não mudam o fluxo de caixa das companhias e essa é a medida mais usada para se avaliar o preço justo das ações.

No entanto, ele destaca que o novo padrão de contabilidade pode mudar o lucro líquido das empresas, o que altera a base para distribuição de dividendos, e também o patrimônio líquido, usado para calcular múltiplos de valor de mercado e também para níveis de endividamento.

Segundo Fernando Galdi, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), que tem dado cursos sobre IFRS para analistas, a principal preocupação dos especialistas é com os números antigos, os dados históricos.

"Os indicadores que eram utilizados tinham base histórica e perdem comparabilidade", diz.

Nesse caso, o professor destaca que o importante é que as companhias se esforcem para deixar claro para os analistas quais foram os impactos da mudança. "É a empresa que tem que dar o pontapé inicial. É ela que está iniciando as mudanças e é papel dela deixar tudo bastante claro."

A opinião é compartilhada por Reginaldo Alexandre, da Apimec-SP. "As companhias terão papel importante neste rito de passagem, para o mercado fazer uma análise um pouco mais precisa, a fim de se evitar distorções", afirma.

Segundo Edison Arisa, representante do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) no Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), no momento em que se decidiu pelo adiamento da adoção obrigatória das novas normas apenas para o balanço fechado de 2010, estava em pauta justamente a capacidade de as empresas apresentarem os dados trimestrais para comparação, o que era exigido pelos analistas.

Mas mesmo que as companhias consigam explicar as mudanças para os investidores e analistas, e que se faça ajustes para se tentar apagar os efeitos das novas normas contábeis, o presidente da Apimec-SP acredita que isso terá efeito apenas no curto prazo.

Com o passar dos trimestres e dos anos, o mercado começa a perder a memória da regra anterior e a trabalhar com os novos números, como se eles sempre tivessem sido mostrados daquela maneira. Isso teria acontecido, segundo ele, na época de transição dos balanços com correção monetária para o padrão atual.

Segundo Galdi, da Fipecafi, é importante que se atente também para o fato de a mudança Título em 2 linhas, 30.5pt em 2 linhascontábil ter como objetivo refletir melhor a realidade da companhia. Se no novo padrão ela parece mais endividada do dia para a noite, por exemplo, talvez seja porque ela de fato tem uma dívida maior do que parecia. (FT)