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Parcelamento com cartão tem forte alta e preocupa os bancos

Alex Ribeiro De Brasília

O uso do parcelamento de cartões de crédito pelos lojistas disparou nos dois últimos anos, mas o avanço não é visto exatamente como uma boa notícia por todos os bancos associados ao sistema. Executivos vêem com preocupação o fato de, com a ajuda dos cartões, o financiamento concedido pelos comerciantes estar ocupando mercado que naturalmente seria dos bancos.

Em 2005, foram realizadas R$ 129,1 bilhões em transações com cartões de crédito, das quais 40% pela modalidade parcelado lojista, segundo dados da Associação Brasileira Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). A grande maioria dos parcelamentos foi com prazo de até três meses.

Não há estatística precisa sobre o estoque de financiamentos representado por esse conjunto de operações. O dado que chega mais próximo disso, divulgado pelo Banco Central, é sobre as faturas em aberto, que cresceram 30,92% em 2005, chegando a R$ 18,676 bilhões. Em dois anos, o volume triplicou. A avaliação do BC é que o grosso desse aumento se deve aos parcelamentos feitos por lojistas. Mas dentro dos números estão tanto as compras em uma parcela como as com prazo de até 12 meses.

O parcelamento feito diretamente pelos lojistas difere do chamado crédito rotativo. No parcelamento lojista, o crédito é concedido diretamente pelo comerciante. Mesmo que o lojista afirme ao cliente que o pagamento à vista é igual ao parcelado, sempre há uma taxa de juros embutida na operação. O financiamento é bancado por capital próprio do comerciante. O sistema é usado principalmente por comércios típicos de shopping centers. Os maiores prazos geralmente são concedidos na venda de passagens aéreas.

Já o rotativo é um crédito feito pelo banco: no vencimento da fatura mensal, o cliente tem a opção de pagar uma parte e financiar o restante até o vencimento seguinte. O estoque de crédito rotativo cresceu 32,2% em 2005, chegando a R$ 10,850 bilhões.

Executivos de bancos ouvidos pelo Valor criticaram o sistema de crédito parcelado lojista – que, no final das contas, foi criado pelos próprios bancos. Eles apontam dois problemas. Um deles é o fato de o comércio estar tomando espaço que, em condições normais, seria ocupado pelo sistema financeiro. O outro problema é que o comerciante concede o empréstimo e embute juros no preço, mas o risco recai sobre os bancos. O parcelamento do cartão se enquadra no limite de crédito do cartão concedido ao cliente pelo banco, e cabe à instituição financeira a tarefa de cobrar as prestações, assim como o risco de calote. Um dos executivos diz que, visto de hoje, foi um mau negócio a criação do sistema de parcelamento de cartões.

O diretor de marketing da Abecs, Antonio Luiz Rios, defende o sistema de parcelamento, que, segundo ele, tende a crescer. “O sistema foi criado para competir com os cheques pré-datados”, afirmou. “O crescimento do parcelamento mostra que estamos sendo bem-sucedidos.”

Ele reconhece que, no modelo atual, o comércio concede um financiamento, mas o risco recai sobre os bancos. “Às vezes ouvimos críticas sobre as taxas cobradas nas operações com cartões de crédito”, afirmou. “As taxas cobrem também a inadimplência, que é arcada pelos bancos.”

O diretor do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, disse que houve crescimento do cartão de crédito parcelado pelo lojista sobretudo no final do ano passado, em substituição ao crediário tradicional. “Mas não vejo como algo que vai crescer para sempre”, afirmou. Segundo ele, os bancos têm preferência por financiar os lojistas, com os riscos de inadimplência do consumidor sendo assumidos pelo comércio. Além disso, diz, o consumidor poderá se frustrar na hipótese de ficar inadimplente.

Solimeo concorda que, na operação, há um financiamento implícito. “O diferimento tem um preço. É o valor do amanhã”, disse, parafraseando o nome do livro mais recente do economista Eduardo Gianetti. Solimeo diz não é fácil determinar quem paga a conta. Pode ser o lojista, o fabricante ou o consumidor, ou todos eles simultaneamente.