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Panamericano anuncia rombo de R$ 2,5 bi

Valor Online

Fiscalização do BC descobriu que banco vendeu carteiras de crédito e não deu baixa no ativo, inflando seus balanços.

Uma fiscalização do Banco Central (BC) descobriu uma série de erros contábeis nos balanços do Banco PanAmericano, controlado pelo Grupo Silvio Santos. O mais sério deles foi que o banco vinha vendendo um grande volume de carteiras de crédito a outras instituições e fundos nos últimos anos sem dar a baixa desses créditos em seu ativo.

Quando um banco cede sua carteira de crédito, tem que retirá-la de seu ativo. Sem fazer isso, o PanAmericano inflou seus balanços e seus resultados indevidamente com ativos que já não tinha em carteira. Isso tudo foi descoberto menos de um ano depois de a Caixa Econômica Federal ter fechado um acordo para comprar 36,6% do capital total do banco, por R$ 739 milhões. O Banco Central vai abrir uma investigação para apurar se houve fraude dos administradores do PanAmericano.

O Grupo Silvio Santos negociou com o BC uma injeção de R$ 2,5 bilhões para fechar o buraco nas contas, conforme comunicado de fato relevante divulgado ontem, cifra que equivale a mais de duas vezes o valor do banco em bolsa. Mas o dinheiro virá de um empréstimo que a holding Silvio Santos Participações tomará do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. O único acionista dessa holding é o próprio empresário. Por exigência do FGC, a holding, que era uma sociedade limitada, passará a ser uma S.A. e terá de publicar balanços e cumprir outras exigências.

Para tomar o empréstimo, o empresário terá que dar parte do seu patrimônio em garantia ao FGC. Segundo um executivo do grupo, ativos da Jequiti – unidade fabril e centro de distribuição na Rodovia Anhanguera -, além do hotel Jequitimar, são alguns dos bens que entraram no acordo. Todo o acordo de resgate do Panamericano foi desenhado ao longo dos últimos dez dias. Na manhã de ontem, Silvio Santos e Luiz Sebastião Sandoval, presidente do conselho de administração do banco, estiveram reunidos na sede do grupo.

Com a descoberta, toda a diretoria do PanAmericano foi destituída. Saíram Rafael Palladino, que estava à frente do banco no cargo de diretor superintendente e diretor de captação de recursos, Wilson Roberto de Aro, diretor financeiro e de relações com investidores, e Adalberto Savioli, diretor de crédito e administrativo. Outros cinco diretores foram afastados.

Novos executivos foram apontados com a participação do FGC, que a partir de agora passa a ter forte influência na gestão do banco, numa espécie de "intervenção branca". Encabeça o novo time o executivo Celso Antunes da Costa, que durante décadas foi do Banco Real e, mais recentemente, trabalhou como diretor de integração da Nossa Caixa com o Banco do Brasil. Haverá, ainda, mudanças no conselho de administração.

O empresário Silvio Santos cobrirá sozinho todo o rombo e, pelo acordo costurado, nem a Caixa e nem os demais acionistas serão diluídos por aumento de capital. O acordo com a instituição federal permanece em vigor. Além da Caixa, com 36,6% do capital, outros acionistas relevantes do banco são Banca Privada D’Andorra (4,4%), Legg Mason (3,2%) e Capital Research (2,6%). Outros 15,6% estão no mercado. O Grupo Silvio Santos detém 37,7% por meio da Liderança Capitalização, da Silvio Santos Participações e da BF Utilidades.

Antes de fechar a compra de mais de 30% do capital do PanAmericano, a Caixa auditou as contas do banco, com a assessoria da KPMG e do Banco Fator. Segundo uma fonte a par do processo, os problemas não foram percebidos à época.

As últimas informações contábeis do Panamericano, divulgadas em 12 de agosto, também foram apresentadas sem qualquer ressalva pela Deloitte. A empresa de auditoria informou ontem que não se manifestaria a respeito. E, em julho, por conta da entrada da Caixa no capital do banco, a agência de classificação de risco Fitch aumentou a nota do banco.

O banco vinha com uma forte política de ceder suas carteiras de crédito – principalmente de automóveis – para fundos de investimento, cujas cotas eram vendidas a investidores. Assim, conseguia recursos para novas operações de crédito. Em junho de 2010, R$ 2,9 bilhões já haviam sido repassados para cinco fundos de direitos creditórios (FIDCs). No primeiro semestre, a cessão de carteiras respondia por 14% do funding do banco. Em junho de 2010, a carteira de crédito total do banco somava R$ 5,8 bilhões.

Rumores de que o banco sofreria uma intervenção do BC circularam ontem pelo mercado, derrubando os papéis do PanAmericano na bolsa. As ações fecharam em baixa de 6,77%. No mês, a queda é de 11,5% e no ano, 34,8%. Procurado, o PanAmericano informou que a comunicação se daria apenas por meio do fato relevante. Banco Central e FGC não se pronunciaram.

(Colaboraram Adriana Mattos, Adriana Cotias e Carolina Mandl)