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Os donos dos impostos

Uma das maiores vitórias psicológicas que a ideologia esquerdista impôs à opinião pública foi confundir, pelo discurso incessante, o que é a esfera pública e o que é a esfera privada. Essa confusão deliberada serve para camuflar os abusos que o Estado tem praticado contra as pessoas, mas também serve para revelar o desejo mais secreto e mesquinho da maioria: o anseio por tornar-se funcionário público. Esse anseio é legítimo, pois entrar numa carreira de Estado virou o atalho para se obter fortuna.

Só é sua propriedade, meu caro leitor, aquilo que lhe pertence e o que sobra na conta corrente depois de pagos todos os impostos, taxas e óbolos inventados pelas três esferas de governo. Elas que nos roubam sem dó e nem piedade.

O ponto central é com relação à propriedade dos impostos arrecadados. É verdade que uma parte deles retorna enquanto serviços públicos à sociedade, sem os quais a vida cotidiana ficaria inviável. Um deles é o serviço de Justiça e outro o de segurança pública. Outro ainda, o de infra-estrutura viária, hoje cada vez mais privatizada.

Mesmo aqui, a propriedade e a decisão sobre a destinação final do dinheiro arrecadado de impostos é do Estado, personificado nos agentes políticos e na burocracia profissional.

Espanta-me quando as pessoas dizem que o dinheiro arrecadado pelo governo é “nosso”. Uma ova. Entrou na conta do Tesouro o dinheiro é “deles”, dos burocratas e dos políticos.

A burocracia estatal tem a vantagem de ter o seu garantido por cláusula pétrea e pela obtenção de “vantagens”, como viajar à custa do contribuinte, com diárias de valor indecente, fazer cursos caríssimos à custo do Tesouro, ter sistema de saúde privado, já que não usam o SUS, que é coisa de pagador de impostos pobre. E agora têm os cartões corporativos.

A classe política, por sua vez, está preocupada com os grandes fluxos, com a definição orçamentária dos investimentos, com a execução dos rendosos contratos de serviços, mais das vezes feito por agentes dos clãs políticos. Por isso que indicar o decisor estratégico de cada área do governo é fundamental para a classe política.

A propriedade do dinheiro dos impostos é “deles” no exato sentido da expressão, pois têm o poder de usá-lo em seu favor e de lhe dar destino final.

Veja, caro leitor, que não se trata de separar o que é do príncipe do que é público. O príncipe agora é esse coletivo anônimo amalgamado pela burocracia e pela classe política e os recursos dos impostos são, mais das vezes, privatizados diretamente, carimbados, como é o caso dos salários, das aposentadorias e dos juros da dívida pública, seguramente as três rubricas que, somadas, abocanham mais de dois terços da verba orçamentária. Mas como a verba total dos impostos é gigantesca, o que sobra é grande o suficiente para ser objeto de disputas.

O problema dos marajás é que nas sociedades abertas, como a nossa, os gastos ditos públicos (má expressão, pois como vimos são “privatizados”) vão para o Diário Oficial e estão sujeitos a Tribunais de Contas e a outras instâncias de controle, como o Congresso Nacional.

O pior para eles: tudo pode ser livremente informado, comentado e denunciado pela imprensa.

A vida dos marajás não tem privacidade, por isso o governo Lula, um governo de neomarajás, vive um escândalo a cada mês. Não podem usar em paz, na surdina, seus amados cartões corporativos. Não me dá pena, dá-me asco.

Nivaldo Cordeiro é economista http://www.nivaldocordeiro.net