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Onda de investimentos brasileiros já motiva insatisfação no Uruguai

Valor Online

Janes Rocha

Um imenso painel do Banco Itaú é a novidade na paisagem da Rambla Gran Bretaña, em Montevidéu, uma grande avenida que margeia o Rio da Prata, um dos cartões postais da capital uruguaia. O painel foi colocado ali no fim de março, quando o Itaú trocou todas as fachadas do BankBoston pela sua marca nas cores azul e laranja, um ano depois de ter comprado as operações do banco americano no Brasil, no Uruguai e no Chile.

Não é um fato isolado. O surgimento da marca do banco por todo lado em Montevidéu (são 14 agências na capital e uma em Punta del Este), coincide com um inédito desembarque de várias empresas brasileiras que já começa a assustar os uruguaios. Eles gostaram quando a Petrobras e a AmBev chegaram entre 2003 e 2004 e se juntaram ao grupo Gerdau, que já estava no país desde o fim dos anos 90. Era mais um sinal de recuperação da economia depois da crise de 2002, uma das piores da história do país.
Mas os uruguaios começaram a ficar preocupados quando os frigoríficos brasileiros Marfrig e Bertin, que chegaram há cerca de dois anos, compraram, no último ano e meio, quatro frigoríficos locais e passaram a dominar um terço do abate e comercialização do carro-chefe da economia uruguaia, a carne bovina.
Quando, no fim de agosto, foi anunciado que a arrozeira brasileira Camil estava comprando a Saman, criou-se um clima de comoção nacional. A Saman é a maior indústria de beneficiamento de arroz do país, responsável por 45% da produção e exportações deste produto que é o segundo principal produto da pauta de exportações do Uruguai.
A imprensa local tem expressado quase que diariamente opiniões de empresários, analistas e funcionários públicos preocupados com o que chamam de "desnacionalização" da indústria uruguaia. No último dia 5, o subsecretário de pecuária do Ministério da Agricultura, Ernesto Agazzi, afirmou ao jornal "El Observador" que a estrangeirização de empresas agroindustriais tem um aspecto "perigoso": "Nossa produção, em determinados elos da cadeia, pode ficar refém de decisões que são tomadas fora do país", disse.
No mesmo dia, a Comissão Nacional de Fomento Rural (CNFR), entidade que representa centenas de pequenos e médios agricultores do país, divulgou uma nota enviada ao Ministério da Agricultura, à Câmara dos Deputados e ao Senado, pedindo que se reverta o processo de concentração e estrangeirização da propriedade da terra e das cadeias agroindustriais.
Na semana passada, o embaixador do Brasil em Montevidéu, José Eduardo Felício, foi convidado por uma rádio local para uma entrevista em que deveria responder à seguinte questão: até onde vão os brasileiros comprando áreas estratégicas no Uruguai?
Para o embaixador, essa reação tem uma "carga emocional" por razões históricas, vindas do Século XIX, quando o Uruguai foi invadido e anexado ao Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarve, até conseguir sua independência, em 1828. "Meu esforço é desfazer essa impressão, de que o Brasil estaria tentando de novo dominar o Uruguai, dessa vez por outra via", afirmou.
"Dou entrevistas, explico, digo que queremos aumentar a base industrial do país", disse o embaixador Felício ao Valor. Na opinião dele, no fundo os uruguaios querem apenas se assegurar de que não aconteça uma simples troca de controle nas empresas, mas que elas realmente invistam no aumento da produção e dos empregos.
O investimento brasileiro no Uruguai deu um salto nos últimos três anos, saindo de US$ 12 milhões em 2004 para US$ 20 milhões em 2005 e aproximadamente US$ 320 milhões em 2006, estima o economista Marcel Vaillant, chefe do Departamento de Economia da Universidade da República do Uruguai. Outras duas empresas brasileiras já manifestaram intenção de se instalar no país, o grupo de construção e infra-estrutura Odebrecht e a montadora de ônibus Marcopolo.
O embaixador José Felício explica que o movimento das companhias privadas é apoiada e estimulada pelo governo brasileiro, que autorizou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a abrir uma linha de crédito ilimitada para financiar as operações de empresas brasileiras no Mercosul, especialmente nos pequenos Uruguai e Paraguai.
Com uma visão mais racional, Marcel Vaillant acredita que os investimentos brasileiros no Uruguai estão relacionados com o aspecto positivo do Mercosul, que é a abertura de caminhos para integração entre os países do bloco, e com um "ordenamento macroeconômico da região". "É um fenômeno de mercado, de decisões de regionalização das empresas. É uma boa notícia porque significa uma outra maneira de abrir mercados para nosso país", disse o economista.
Outros que vêem como positivo não só o investimento brasileiro, mas o aporte estrangeiro em geral, são Daniel Beleratti, diretor-executivo da Câmara da Indústria Frigorífica (CIF) uruguaia, e Carlos Viera, presidente da Uruguay XXI, uma agência oficial de promoção de exportações. Para eles, é uma maneira de ampliar as exportações do país.
Especificamente sobre os frigoríficos, Beleratti acredita que o movimento de capitais no setor faz todo sentido. Por sua estrutura pecuária, disse o executivo, o Uruguai sempre será exportador líquido de carne porque a produção supera em 70% o consumo interno. "Além disso, a maioria das vendas vão para Estados Unidos, México e Canadá, mercados aos quais o Uruguai tem acesso enquanto Brasil e Argentina não tem", afirmou.