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O que Lula quer da África

Presidente volta ao continente e deixa
a dúvida: a diplomacia terceiro-mundista faz sentido?

Por Gustavo Gantois

Os arredores de Bir Mourad Raïs, logo à entrada da capital Argel, estavam repletos de cartazes com a foto oficial do presidente Lula. Uma a cada dois postes, intercaladas com as do presidente argelino Abdelaziz Bouteflika. Lula gostou e, diante da recepção calorosa, mais uma vez pediu apoio da Argélia em sua pretensão ao assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, muito embora nenhuma reforma esteja sendo discutida a sério nas Nações Unidas. Sobre negócios? Poucos progressos. Lula apenas disse que pretende se sileira à sua entrada na Organização Mundial do Comércio. Sobre negócios? De novo, o Brasil pediu mais. Lula quer diminuir o déficit comercial com países africanos, que ultrapassou a casa dos US$ 2 bilhões no ano passado. “Nosso comércio, por mais expressivo que seja, é desequilibrado e nossos empresários ainda se conhecem mal”, admitiu Lula. “Os negócios são pontuais”.

Mas porque o governo brasileiro insiste na aproximação com países relativamente pequenos no jogo do comércio global? Há duas razões. Uma delas é o petróleo. Lula quer diminuir a dependência brasileira do óleo árabe. A outra é estratégica, pois há um deslocamento nas tradicionais correntes de comércio. No ano passado, os Estados Unidos anunciaram que, pela primeira vez na história, mais da metade de suas importações veio de países em desenvolvimento – e que era necessário fechar o rombo. Se até os americanos buscam novos mercados, diz Lula, nada mais natural que o Brasil se antecipe à mudança. Lula já reabriu nove embaixadas que estavam sem representação diplomática na África. Com as viagens, Lula aumentou sua popularidade com os presidentes do continente e mais que dobrou a balança comercial Brasil-África, que passou de US$ 4,5 bilhões em 2002 para US$ 11 bilhões em 2005. Porém, esse comércio continua estagnado em produtos como açúcar, carne, soja e arroz. “É a velha história do salto a partir de uma base pequena”, disse à DINHEIRO James Fisher-Thompson, analista de África do Departamento de Estado americano. “A hora é de diversificar a pauta”.

O custo para manter a estrutura brasileira em território africano não é de se jogar fora. Apesar de os dados sobre despesas do Itamaraty não constarem no Sistema de Gastos do Governo, o Siafi, diplomatas afirmam que a “Operação África”, como é chamada internamente, consuma algo como US$ 250 mil por mês. Ao longo do ano, portanto, a conta fecha em US$ 3 milhões. É um valor considerável, em se tratando de uma base deficitária para o comércio brasileiro. Além disso, o governo brasileiro já perdoou dívidas de US$ 468,4 milhões de nove países africanos. “O país que pretende ter expressão internacional deve contar com uma eficiente diplomacia”, prega o experiente embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Lula aposta que a prioridade dada aos países emergentes renderá frutos.