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O País nunca precisou tanto de seus contadores

Luis Fernando Klava

Desemprego em alta, flexibilização das relações de trabalho e incentivos para a abertura de pequenos empreendimentos são apenas alguns motivos que explicam o momento ímpar vivenciado pela área de contabilidade.

Provavelmente nunca antes os brasileiros precisaram (e vão precisar) tanto do exército de quase 400 mil contabilistas em atividade no País. Anualmente, em média, cerca de 500 mil negócios são constituídos e 120 mil encerrados, segundo o DNRC (Departamento Nacional de Registro do Comércio). Com a entrada em vigor do Estatuto da Micro e Pequena Empresa, a partir do dia 1º de julho próximo, por exemplo, esse número deve crescer substancialmente.

O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) estima que existem 10,3 milhões na ilegalidade e a nova legislação vai estimular a formalização de pelo menos um milhão.

Outras novidades também agitam o mundo contábil, como o surgimento de novas – e sofisticadas – áreas de trabalho. Pesquisas recentes indicam que a contabilidade é uma das atividades mais promissoras.

Com a onda verde que tomou boa parte das organizações mundiais, alguns profissionais vanguardistas já estão ganhando dinheiro atendendo demandas relaci-nadas aos mercados de crédito de carbono e de neutralização de poluentes. Sem falar das pessoas que se especializaram em balanços e auditorias ambientais.

Também saiu na frente quem resolveu estudar as normas internacionais US Gaap (norte-americana) e IFRS (européia). Com a abundante oferta de recursos de investidores estrangeiros interessados em títulos brasileiros, além do crescimento das fusões e aquisições, virou objeto de desejo (e disputa) o contabilista que domina essas técnicas. De acordo com o sócio da filial brasileira da PricewaterhouseCoopers, Valdir Coscodai, a remuneração de um profissional com essas habilidades é bastante diferenciada.

Como a oferta de pessoas capacitadas é um dos principais problemas enfrentados hoje em dia pelos empregadores, as instituições de ensino não perderam tempo e estão investindo nos mais diversos cursos de especialização. “A média salarial de quem fez um MBA de qualidade é entre 20% e 25% maior”, conta o chefe do departamento de contabilidade da PUC/SP (Pontifícia Universidade Católica), Adhemar de Caroli.

Já que educação é um dos pontos-chave da profissão, a polêmica envolvendo o ensino técnico continua em evidência. Várias correntes defendem o fim dessa modalidade, alegando falhas graves no processo de formação. Para o presidente do Sindicato dos Contabilistas de São Paulo, Sebastião Luiz Gonçalves dos Santos, se nem as universidades oferecem todo o conteúdo necessário, o que dizer das escolas técnicas.

Formação profissional, aliás, é uma das prioridades do CFC (Conselho Federal de Contabilidade), entidade presidida pela alagoana Maria Clara Cavalcante Bugarim, a primeira mulher da história a ocupar o cargo.

Outro desafio é a melhoria da remuneração, já que o contador, apesar de lidar com as finanças alheias, é um dos profissionais liberais mais desvalorizados.

A expectativa é que a tradicional mensalidade de um salário mínimo saia de cena e os escritórios se estruturem para oferecer serviços sofisticados, como consultoria de gestão empresarial. “É inconcebível que um profissional sujeito a tantas responsabilidades ganhe o mesmo ou até menos do que uma diarista que trabalha uma vez por semana”, diz o presidente do Sescon/SP (Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis), José Maria Chapina Alcazar.