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O nó do crédito

Prazos curtos e altas taxas de juros ainda seguram a economia do país. Sinais de melhoria surgiram na área de automóveis, mas é pouco para recuperar o ritmo da atividade produtiva. Desconfiança continua alta
 

 
Karla Mendes e Luciano Pires
Da equipe do Correio

 

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Arte: Gabriel Góes/Esp. CB/D.A Press

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Quase não surtiu efeito o apelo do presidente Lula para os bancos destravarem a liberação de crédito para o consumidor. Nem mesmo a ameaça de punição às instituições financeiras. Passadas seis semanas desde o agravamento da crise financeira internacional, permanecem os nós para concessão de empréstimos e financiamentos nos bancos, no varejo, nas financeiras e até para o crédito consignado, considerado uma das modalidades mais seguras do mercado. Ou pioraram, com prazos mais curtos e juros mais altos.

O único setor que já começa a dar sinais de desestrangulamento, ainda que tímidos, é o de automóveis. Em concessionárias e revendas de veículos, há casos pontuais de queda nas taxas de juros de alguns bancos. Os percentuais ainda estão acima do patamar praticado antes da eclosão da crise, mas sinalizam um cenário distinto do deflagrado em meados de setembro, quando tabelas com novas taxas chegavam todos os dias.

Como o mercado automotivo é extremamente dependente de crédito, a escassez de dinheiro para financiamentos acertou em cheio o desempenho do setor em outubro, que fechou o mês no vermelho. As montadoras estavam tão sedentas por crédito que foram correndo ao Banco do Brasil para botar a mão nos R$ 4 bilhões liberados pelo governo para financiar as vendas de veículos. Em apenas dois dias, já foram emprestados R$ 500 milhões e o volume deve atingir R$ 1 bilhão no início da semana, segundo o BB. “O dinheiro vai ajudar os bancos das montadoras, mas temos as financeiras e os bancos independentes, além do financiamento de carros usados. É primordial que outras instituições do setor privado sigam o Banco do Brasil. Se isso acontecer, vamos ter retomada plena tanto de vendas, como de financiamentos”, afirma Luiz Montenegro, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). Segundo ele, financiamentos e leasing de veículos vinham crescendo, em média, R$ 25 bilhões ao ano. Só em setembro, foram emprestados cerca de R$ 140 bilhões para a compra de carros financiados.

Sem mudanças
Outros setores não tiveram a mesma sorte. Nas financeiras, a restrição ao crédito é quase total, segundo José Arthur Lemos de Assunção, presidente do Sindicato das Financeiras do Rio de Janeiro. “Os bancos estão falando mais do que fazendo. Não que falte cliente, mas as financeiras não têm recursos nem coragem para emprestar”, ressalta. No crédito consignado, os obstáculos permanecem. “Está muito difícil. O BMG e o Sabemi não estão emprestando. Continuamos reféns do BRB”, reclama Vilmak Oliveira, presidente da Associação de Apoio à Carreira do Policial Civil do Distrito Federal. O Sabemi confirmou que “mantém limitado o número de operações no crédito consignado”. O BMG, porém, informou que continua operando normalmente. Na Unicred Financeira, especializada em empréstimo com desconto em folha para servidores do Judiciário, o prazo de pagamento, que já havia sido reduzido de 99 para 84 meses caiu para 72 meses este mês.

Entre os bancos de varejo a desconfiança na hora de emprestar ainda é grande porque, apesar de todas as medidas anunciadas pelo governo, a captação dentro e fora do país não está totalmente destravada. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) vê uma discreta melhora no cenário, mas adverte que, devido à gravidade das turbulências nos mercados, o processo de retomada da normalidade do crédito será lento e longo. “Essas coisas melhoram aos poucos. A fase mais aguda da crise ficou para trás. Agora, temos de observar os impactos na economia”, explica Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban.

Conta-gotas
A tendência, dizem os especialistas em varejo bancário, é que o sistema retome o fôlego a conta-gotas. Mesmo que o ambiente de negócios melhore, as taxas de juros, os prazos para a quitação do empréstimo e as exigências para liberar o financiamento não serão mais os mesmos. “Tudo vai voltar à normalidade, mas provavelmente os patamares serão diferentes”, completa Sardenberg.

No comércio, as redes de supermercados e os magazines de roupas e calçados foram os primeiros a sentir os efeitos nocivos da falta de dinheiro no sistema. As pequenas empresas sofreram mais do que as grandes, mas os estragos foram generalizados. “Prazos curtos e taxas mais altas continuam. Vão continuar por mais tempo? É cedo para dizer. O certo é que há um medo muito grande de inadimplência”, resume Carlos Thadeu de Freitas, chefe do departamento econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

 
 
Há um medo muito grande de inadimplência

 

Carlos Thadeu de Freitas, Confederação Nacional do Comércio
 
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–>Os efeitos psicológicos
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Além da crise financeira, bancos, varejo e consumidores estão vivendo também uma crise psicológica, que tem efeitos substanciais na economia. O presidente Lula sabe disso, razão pela qual custou a admitir os efeitos da turbulência internacional no mercado brasileiro. “Existe uma luta psicológica de bombardeio. O governo não quer transparecer essa realidade pois, se agir com retração, o consumidor também vai se retrair”, pondera Luís Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating. “Estamos vivenciando uma situação em que o governo está agindo rápido e até com uma certa ansiedade, pois quer evitar que a economia real desbanque de vez, pois se até o fim do ano continuarem os sinais de desaceleração, aí entraremos em 2009 bem desaquecidos”, alerta.

A crise psicológica tem efeito dominó. O banco médio, que fornecia dinheiro para outros bancos, está com medo de emprestar, pois não tem fluxo de retorno garantido. “Os bancos estão olhando para o retrovisor, para o passivo deles. Eles não têm condições de dar crédito e agir com tranqüilidade, por causa da crise de confiança”, observa Luís Miguel Santacreu.

Emprego
Para o cidadão, o maior temor é a perda do emprego. Daí a resistência ao endividamento. “O consumidor viveu dois momentos. Num primeiro momento, foi ao mercado e não achou crédito. Depois, viu que a crise era mais complicada do que parecia, ficou com medo de perder o emprego e, por isso, não procurou crédito”, diz. O especialista ressalta que os números de outubro que mostrarão o desempenho da indústria e seus efeitos na economia real são importantíssimos para avaliar o impacto da crise no Brasil. “Como a distribuição de renda no Brasil é muito desigual, nos últimos anos o crescimento da economia brasileira foi ancorado em crédito ou em doações, como o programa Bolsa-Família. Se não tiver crédito, não tem sustentação”, alerta. (KM e LP)

 

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–>Em passos lentos
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Da Redação
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O governo reconhece que a restrição aos empréstimos continua sendo um problema grave. Ontem, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, admitiu que, apesar das medidas adotadas, os dados do mercado de crédito, relativos à última semana de outubro, ainda são inferiores aos de setembro. No entanto, não apresentou números. “Nossa avaliação é a de que o mercado de crédito ainda não voltará à normalidade em outubro, mas posso adiantar que há uma recuperação no correr do mês”, disse Meirelles, na Amcham.

Meirelles ressaltou, entretanto, que essa recuperação no mercado de crédito ocorre com todos os agentes ao mesmo tempo. Ele lembrou a máxima entre os economistas de que usar a média de indicadores de um mercado nem sempre corresponde à realidade porque, muitas vezes, a cabeça pode estar na geladeira e o pé no forno, o que daria uma média de temperatura amena. “No nosso caso, a situação é menos grave, pois a cabeça está no Sol e o pé no ar-condicionado”, disse Meirelles.

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, afirmou que os custos e as condições para o repasse de recursos para capital de giro a empresas devem ser anunciados na segunda-feira.Entre essas ações está a liberação de R$ 10 bilhões pelo BNDES.