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O futuro tem cara de presente

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Henrique Malvar, o brasileiro que chefia a pesquisa da Microsoft, aposta que o Windows vai sobreviver ao assalto da internet

Ivan Martins

O carioca Henrique Malvar conseguiu seu emprego atual com um e-mail. Foi assim: no domingo, ele escreveu ao chefe de pesquisas da Microsoft sugerindo uma nova linha de investigação sobre processamento de sinais, essencial à transmissão de sons e imagens pela internet. Na segunda-feira foi convidado a assumir a direção de um novo grupo de pesquisa sobre o tema que propusera. Desde então lá se vão dez anos. Hoje, ele ocupa o posto que era de seu interlocutor em 1997. É o diretor-geral da Microsoft Research, braço de pesquisa encarregado de desenvolver as tecnologias que levarão a empresa de Bill Gates ao futuro. O MSR é considerado o laboratório de pesquisas mais influente do mundo na área de ciência e tecnologia da computação. Sob a autoridade suave desse engenheiro de 49 anos, reúnem-se na cidade de Redmond, próximo a Seattle, 340 pesquisadores divididos em 26 grupos de trabalho. É metade da força de investigação mundial da companhia. Malvar, ou Rico, como os americanos o chamam, não é o brasileiro mais graduado da Microsoft. Esse título pertence a Emílio Umeoka, vice-presidente que comanda a operação asiática da companhia. Mas é possível argumentar que Malvar tem uma posição mais estratégica. Cabe a ele e sua equipe produzirem as inovações capazes de assegurar a liderança da Microsoft no futuro. Logo, ele é um homem-chave em uma empresa-chave do capitalismo global. Antes de chegar a essa posição, Malvar fez uma longa lista de contribuições à companhia, materializada na forma de 68 patentes registradas pela empresa. Nos dias que correm, sua principal tarefa é estimular a criação de novos sistemas de busca e organização de informação na internet. Aí parece residir o futuro e o Google, aparentemente, apoderou-se dele. A Microsoft tem visto sua participação na internet encolher e cabe a Malvar iniciar a reação. Como a entrevista a seguir deixa claro, não se trata de coisa simples. A maior empresa de software do mundo, a Microsoft olha o futuro na internet mas tem os pés (e o faturamento) fincados no passado pré-rede. Leia o que Malvar pretende fazer sobre isso

Quem é Henrique Malvar

Idade: 49 anos Onde nasceu: Rio de Janeiro, capital Formação: engenheiro eletrônico pela Universidade de Brasília, mestrado em engenharia elétrica pela UFRJ e doutorado em engenharia elétrica e ciência da computação pelo Massachusetts Institute of Technology Família: casado, com dois filhos Carreira: antes da Microsoft, foi vice-presidente da Picture Tel, empresa americana de videoconferências Coisas de que se orgulha: ter fundado o Grupo de Pesquisa em Processamento de Sinal da UnB. Ter voltado a lecionar no Brasil depois de concluir o doutorado nos EUA ("foi a minha forma de retornar o investimento feito em mim pelo Estado brasileiro"). Ter recebido o Technical Achievement Award, do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos ("apenas uma ou duas pessoas recebem esse prêmio por ano") Passatempos: fazer as longas trilhas ao redor de Redmond a pé ou de bicicleta. Ver corridas de automóvel, em todas as categorias Sonho: que as pesquisas produzam formas mais fáceis e baratas de acesso à informação digital, para que a maior parte das pessoas possa se beneficiar

Qual é o impacto de Bill Gates no trabalho de vocês?

Vamos três ou quatro vezes por ano ao Bill contar o que estamos fazendo. A conversa é boa porque ele é muito esperto e entende tudo muito rápido. Bill aponta conexões entre o nosso trabalho e o de outros grupos dentro da empresa – ou então remove barreiras, por exemplo, deslocando recursos para um grupo que não tinha como seguir no trabalho. De várias maneiras ele tem nos ajudado bastante. É triste que vá sair no ano que vem. Ele é espetacular e vai ser difícil substituí-lo.

Você tem liberdade para criar um produto que torne o Windows obsoleto?

Teria, se eu conseguisse de fato fazê-lo obsoleto. O difícil seria convencer o vice-presidente sênior de Windows que eu tornei o produto dele obsoleto. Mas se eu conseguir, nada me impede. Eu não tenho de pedir autorização para pesquisar. Todo ano digo quanto vai custar a pesquisa e pergunto: posso gastar? Acabou. Eu não digo a ninguém o que vou fazer com a verba. Faço o que eu quiser.

Ninguém pergunta em que você vai gastar?

Eles perguntam quais são as idéias. Eu explico que a nossa idéia central é apostar na diversidade, na multiplicidade de pesquisas. Isso dá certo porque a gente faz coisas que funcionam.

Em que a Microsoft está concentrando esforços de pesquisa? Quais são as tecnologias vitais?

São 55. As 700 pessoas de pesquisa da Microsoft no mundo todo estão divididas em 55 grupos. Em vez de ter grandes apostas envolvendo todo mundo, a idéia é ter pequenas apostas em várias áreas.

"A gente tem inovação, sim, mas fica escondida no sistema operacional. talvez a gente não faça tanto alarde quanto deveria"

Enquanto você trabalha com muitas idéias, a Apple tem tido melhores resultados de inovação concentrando a pesquisa em meia dúzia de projetos… Agora você está me provocando. A gente tem, sim, inovação, mas muita coisa fica escondida dentro do sistema operacional. Talvez a gente não faça tanto alarde dessas coisas como deveria. Às vezes a novidade que tem um componente visual ou de design muito grande leva à percepção maior de inovação. Mas o que a gente quer é fazer com que as pessoas sejam mais produtivas, então não podemos pensar apenas em design. Temos de olhar para as ferramentas.

Você e sua equipe não se sentem presos à necessidade de melhorar o Windows quando todo mundo já está pensando em coisas mais avançadas?

A pergunta é válida, mas eu não me sinto preso. Veja: um pessoal meu está desenhando um sistema operacional totalmente novo, chamado Singularity. A gente pode fazer isso. Hoje em dia nós já trabalhamos pensando em sistemas operacionais para o ciberespaço. Nosso desafio é fazer um sistema operacional que congregue milhares de computadores interligados, para centros de dados com enorme capacidade de armazenamento de informações.

Mas vocês ainda ficam presos ao antigo, enquanto as pequenas empresas de internet estão voltadas para coisas novas como o o peer to peer…Mas você vai precisar dos dois. Você precisa de centros de informação locais, pessoais. Além do mais, eu também posso fazer processamento de texto no telefone celular ou na televisão. Não estou preso ao formato do Windows tradicional.

Empresas como o Google estão oferecendo de graça aplicativos pela internet e vocês não podem competir nesse terreno, porque isso canibalizaria o principal negócio da companhia. As pessoas nos Estados Unidos já estão usando computadores com 1 terabyte de disco rígido. Quem vai estruturar essa bagunça?

 Isso tem de ser feito localmente, porque não há banda larga que resolva. É muita informação. As coisas não podem ser feitas apenas na rede. Tem de haver uma combinação de processamento de informação local com resgate de informação remota.

Novamente, se você pensar no garoto da pequena empresa de internet, ele não precisa fazer combinação alguma, não tem de proteger a galinha dos ovos de ouro…Eu tenho certeza de que as pessoas desejam combinar as duas coisas, processamento local e uso da internet. De qualquer forma, não sei qual vai ser a galinha dos ovos de ouro em cinco ou dez anos. Tenho de investir em coisas diferentes.

Por que os sistemas de busca de informação tornaram-se tão importantes para a Microsoft?

 Porque, quando você está trabalhando, sabe que lá fora, na internet, há muita coisa que pode ser útil. Então é preciso que eu mostre isso a você de uma forma rápida, eficiente e precisa.

Isso não tem relação direta com a força do Google? Não é uma tentativa de entrar nesse mercado?

Esse é um mercado no qual a gente já está, com o Life Search. Mas a nossa idéia é trazer as coisas que estão na rede da empresa e também trazer as informações que estão dentro de seu computador, relacionando-as.

A participação da Microsoft no mercado de buscas com o Life Search caiu. Vocês estão preparando algum pulo-do-gato nessa área?

Nossa tese central é a de que a forma como você busca informação hoje em dia tem muito que evoluir. Não será necessariamente do mesmo jeito daqui a dez anos. No futuro, a busca de informação para o trabalho e o lazer vai ser muito diferente do que se faz hoje em dia. A interface vai ser outra.

Anos atrás alguém criou esse conceito de engenho de busca, que está por trás do Google, e teve enorme impacto. Você se inquieta pensando em qual será o próximo conceito revolucionário na internet?

Não só me inquieto, e bastante, como a gente na Microsoft trabalha duro para listar idéias do que pode vir a ser a próxima grande coisa na rede. Eu não posso comentar com você, mas estamos acompanhando várias idéias.

Como vocês organizam a pesquisa dentro da Microsoft?

Quando vou entrevistar um candidato, sempre explico o seguinte: você trabalha no que quiser, desde que seja a coisa certa.

E quem decide a coisa certa?

Essa é sempre a próxima pergunta deles. Querem saber se eu vou decidir por eles e a minha resposta é: de jeito nenhum ! E eu paro por aí. Não digo mais nada. Eles têm de descobrir sozinhos qual é a coisa certa. Então, na Microsoft, o sistema é de baixo para cima. Eu não tenho de dizer o que as pessoas vão pesquisar. Eu escuto os pesquisadores e acho uma forma de priorizar investimentos. O contrário raramente acontece, a gente dizer o que eles têm de pesquisar. Com exceções: na área de busca e recuperação de informações, por exemplo, decidimos abrir vagas. Se alguém quiser pesquisar nessa área, vai poder contratar mais cinco pessoas. Mas eu faço muito pouco disso, porque as pessoas nos surpreendem muito. A cada hora vem uma idéia que a gente não tinha tido antes.

O fato de ser brasileiro já atrapalhou a sua carreira na Microsoft?

Nunca atrapalhou. Em alguma instância ajudou, por trazer uma perspectiva diferente. A Microsoft é uma meritocracia. Nunca ninguém questionou minha capacidade por ser brasileiro ou por ter um sotaque esquisito.

O que vem por aí, segundo a Microsoft

Tradução de texto

A empresa está testando uma nova abordagem, baseada em análise de blocos de informação. Diante de uma expressão em inglês, o programa procura a frase correspondente em português. É mais eficiente do que a tradução palavra por palavra que se faz hoje em dia.

Correção de estilo

Se você escrever uma coisa meio esquisita, o programa vai advertir. O objetivo não é corrigir quem já escreve bem, mas, sim, ajudar, por exemplo, as pessoas que escrevem em inglês ou português como segunda língua.

Reconhecimento de lugares

Você está em uma cidade nova e vê um restaurante interessante. Se fizer uma foto da fachada com o celular, o sistema pode informar que restaurante é aquele, que tipo de comida serve e até mesmo se há outro restaurante melhor, na mesma área, da mesma especialidade.

Sugestão de música

Em breve o computador poderá fazer uma análise das músicas de sua coleção para descobrir padrões sonoros parecidos e indicar coisas semelhantes. Poderá fazer o mesmo com filmes, oferecendo imagens parecidas.