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Nova lei esquenta negócios na Trevisan

Graziella Valenti e Nelson Niero

Antoninho Marmo Trevisan está tão animado com a aprovação da nova lei contábil brasileira que, aos 58 anos, decidiu adiar sua aposentaria. "Depois dessa lei, eu me reprogramei para mais 30 anos de contabilidade. É fantástica, é tudo que sonhei." Os negócios de sua empresa vão esquentar com as mudanças trazidas pela lei e a previsão dele é que o faturamento cresça 40% neste ano, alcançando cerca de R$ 160 milhões em 2008. No ano passado, a expansão foi de 28%, para R$ 110 milhões.

 

Contador de formação e com 37 anos de experiência no ramo, Trevisan é hoje dono de um grupo que leva seu nome e atua em auditoria, consultoria, terceirização e ensino. Com tal capilaridade, o ano promete, dada a quantidade de polêmicas que o novo ambiente contábil brasileiro está envolvido.

 

A nova lei, a 11.638, foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 28 de dezembro, entre os feriados de Natal e Réveillon de 2007. A publicação no Diário Oficial ocorreu numa edição extra do dia 31 de dezembro e pegou de surpresa todos os envolvidos no projeto – com a exceção de Trevisan.

 

"Estávamos acompanhando toda a tramitação no Congresso", afirma, em entrevista ao Valor na sede da empresa. "Quando a lei foi assinada saímos com seminários e um guia."

 

Embora muito pouco para quem aguardou por sete anos o trâmite da lei no Congresso, esse único dia trouxe uma grande diferença prática: a vigência da legislação. Se a 11.638 tivesse sido aprovada no começo de 2008, os primeiros balanços ajustados à mudança seriam os de 2009, com publicação em 2010 – dois anos de adaptação. A realidade, porém, ficou bastante diferente. Os primeiros balanços de acordo com a nova lei serão os de 2008, com publicação no ano que vem, já que a aprovação ocorreu ainda em 2007.

 

A lei foi sancionada sem que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tivesse emitido as normas necessárias para aplicação das diretrizes dadas pela nova legislação. A Receita Federal também não havia preparado o terreno e até hoje permanece a dúvida que mais assombra as companhias: a despeito do combinado sobre a neutralidade fiscal da lei, ainda não houve um pronunciamento do Fisco garantindo a ausência de impactos tributários.

 

O resultado é um ambiente de dúvidas, por parte das empresas, e corrida por opiniões e assistência de gente especializada – auditores e consultores. Por isso, a despeito de todo o crescimento com as aberturas de capital do ano passado – a BDO Trevisan assumiu a auditoria independente de 30% das novatas que foram à bolsa até janeiro deste ano – o fundador do negócio acredita que 2008 será ainda melhor.

 

A BDO Trevisan, carro-chefe do grupo, responsável por 75% da receita total, tem como clientes por volta de 10% das companhias abertas brasileiras. O grosso do mercado, 60%, está nas mãos das chamadas "big four": Deloitte, Ernst & Young, KPMG e PricewaterhouseCoopers

 

Não por acaso Trevisan está trabalhando forte para avançar sobre as empresas fechadas que, com a lei, têm que preparar e auditar um balanço de acordo com as regras seguidas pelas sociedades anônimas. Prospectou, inicialmente, 400 potenciais clientes. O número agora subiu para 800, com 30 contratos já fechados. "Mesmo as empresas abertas são quase todas controladas por holdings, que são fechadas." Nada mal, ainda mais considerando-se que auditores recebem por hora de serviço prestado e que parte substancial das fechadas nunca sequer organizou sua contabilidade.

 

Diante do rápido avanço da lei no fim do ano passado, ele suspendeu o descanso de fim de ano dos principais funcionários, para planejar a expansão. Os contratos fechados são frutos da agenda lotada de Trevisan, que visita grandes potenciais clientes pessoalmente, e do esforço de divulgação. No primeiro trimestre, o grupo deve acumular mais de 100 seminários sobre o tema.

 

Trevisan ressalta que é mais comum do que se imagina um grupo econômico no Brasil ter ativos superiores a R$ 240 milhões ou faturamento a partir de R$ 300 milhões por ano, os pisos estabelecidos na lei "É fácil assim ó", diz ele, estalando os dedos. "Está cheio de empresa que fatura na casa de bilhão e que nem eu e nem você conhecemos", diz, destacando que houve forte crescimento diversos setores, como o de alimentos, que ainda não foi percebido. "A lei tem relação com o momento econômico brasileiro."

 

Embora digam que contribuiu pessoalmente para a sanção em 2007, Trevisan desconversa quando questionado. Reforça que houve interesse da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), pois a nova contabilidade agrega segurança aos empréstimos. Além disso, diz que as multinacionais brasileiras também estavam interessadas – caso da Gerdau, uma das únicas que adota o padrão internacional que baliza a lei.