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Moeda única do Mercosul pode sair em 4 anos, diz Lula

Em entrevista a estrangeiros, presidente também defendeu criação de BC do bloco

Marina Guimarães e Ariel Palácios

SANTIAGO – Em dia de extensa agenda em Santiago, que será finalizada com o embarque para Buenos Aires, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi destaque nos principais jornais do Chile e da Argentina. Em entrevista concedida aos três correspondentes argentinos e dois chilenos, no Palácio do Planalto, na quarta-feira, 25, o presidente defendeu a moeda única para o Mercosul, assim como um Banco Central do bloco.

"Eu trabalho com a idéia de que nos próximos quatro anos possamos construir uma moeda única do Mercosul. Estamos avançando na discussão com a Argentina para fazer nosso intercâmbio comercial com nossas próprias moedas. Devemos chegar a um Banco Central", como destacou o chileno El Mercurio.

O Banco do Sul, projeto do presidente venezuelano Hugo Chávez para criar uma megaentidade financeira na região, é visto com cautela por parte de Lula: "Será um banco do tipo do FMI, para ajudar os países em crise? Ou será um sócio para impulsionar o desenvolvimento, como é nosso BNDES, a Corporação Andina de Fomento, ou o BID? Qual será a participação de cada país?"

"Nós sugerimos uma reunião de ministros da Economia para discutir todos esses assuntos. O Brasil tem todo o interesse em participar do banco", afirmou.

Divergências

Lula também amenizou as perguntas sobre a tensa relação com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, com quem disputa a liderança regional, e da Bolívia, Evo Morales, com quem o Brasil negocia uma indenização para os prejuízos que a Petrobras sofreu com a nacionalização dos hidrocarbonetos.

"É preciso pôr as coisas em seu lugar. Primeiro, me parece excepcional que Bolívia tenha elegido um presidente como Evo Morales. Ninguém tem a cara da Bolívia como Evo. Há problemas secundários. É como no Brasil: não estava previsto que um metalúrgico chegaria ao poder. E eu causei desconfiança" , compara.

Ainda sobre o assunto, Lula continuou: "A nacionalização do gás não é uma coisa de Morales. É importante recordar que o plebiscito foi antes de seu governo e que foi o povo que o aprovou. Acho natural que o Evo queira nacionalizar o gás. Ele tem que reivindicar um preço justo", disse Lula.

O presidente não entrou em detalhes sobre sua posição em relação ao preço que a Bolívia deveria pagar à Petrobras pelas refinarias instaladas naquele país e que, supostamente, serão nacionalizadas a partir do dia primeiro de maio."Devemos facilitar nossa relação com a Bolívia e deixar de pensar que alguém é nosso inimigo", disse.

Chávez

"Passamos por momentos muito auspiciosos e não podemos permitir que nossas divergências do século 19 prejudiquem o futuro", completou o presidente levando à uma associação inevitável com o denominado "socialismo do século 19" de Hugo Chávez.

No La Tercera, outro jornal chileno, o destaque da entrevista de Lula foi sobre a liderança política regional e um elogio ao venezuelano: "Chávez tem sido um aliado excepcional, um sócio", estampou o título completando com: "Na América Latina não necessitamos de um líder, mas sim de uma relação muito forte entre Estados, de respeito mútuo". Segundo o presidente, "não existe nenhum problema com a Venezuela. Creio que Argentina e Chile tampouco têm problemas com a Venezuela".

"Chávez deu prioridade à América do Sul. Acho extraordinário que existe um governo, em um país com o potencial energético da Venezuela, que esteja olhando para a integração. O outro dia disse ao Chávez na reunião de Ilha Margarita que é como se estivéssemos em uma corrida de Fórmula 1 e o Chávez fosse um carro que vai a 300 quilômetros por hora, enquanto que os outros vão a 280.

Lula também avaliou as posições contrárias de Chávez ao biocombustível, referindo-se à recente reunião na Venezuela onde o assunto foi debatido: "eu entendo seus motivos políticos. É parte de um jogo. Muitas pessoas imaginavam que na Ilha Margarita ia haver uma guerra. E não houve".

Reeleição na Argentina

O Clarín, da Argentina preferiu focar seu título na política local, já que o país realizará eleições para presidente em outubro próximo. O presidente Néstor Kirchner "tem feito um bom governo para a Argentina", disse Lula completando que "sua continuidade é extremamente importante para a integração regional".

Lula também expressou sua "admiração" pela "vontade que o presidente Kirchner colocou para reconstruir a indústria argentina". O presidente afirmou que "a Argentina e o Brasil nunca tiveram antes uma relação tão intensa e produtiva como a de agora". O carisma e a simpatia do brasileiro durante a entrevista de uma hora e meia também foi motivo de destaque do Clarín.

O La Nación também falou sobre o apoio declarado de Lula à reeleição de Kirchner, embora o presidente argentino ainda não tenha anunciado se será candidato. O jornal preferiu, porém, abrir sua reportagem com o assunto preferido do presidente Lula: bioenergia. "Ninguém conversa hoje comigo se não é sobre biodiesel. A pessoa pode não estar interessada em falar de biodiesel, mas deve ter a segurança de que vou falar disso", avisou.

O jornal argentino ressaltou que o assunto será um dos pontos da agenda de Lula e Kirchner nesta sexta-feira, em Buenos Aires. Sobre os assuntos em discussão, Lula disse que "teremos uma conversação política, simplesmente uma conversação política. Vamos por nossa agenda em dia".