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Mercado desafia Mantega com apostas na valorização do real

Portal Exame

Número de apostas na valorização do real subiu em 36.820 na semana, o maior aumento desde o período encerrado em 21 de setembro

Investidores internacionais fazem apostas no ritmo mais rápido em quatro meses na valorização do real, no mesmo momento em que o Banco Central volta a subir o juro básico após uma pausa de seis meses.

O número de apostas na valorização do real subiu em 36.820 na semana até o dia 18 de janeiro, o maior aumento desde o período encerrado em 21 de setembro. Elas estão agora em 31.681, segundo dados da BM&FBovespa SA em São Paulo. Em 11 de janeiro, o número de apostas na queda do real frente o dólar superava o de apostas de alta em 5.139, a maior quantia em seis meses.

A retomada na confiança de investidores estrangeiros no real sinaliza que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pode ter dificuldade para frear a alta do real, que já dura dois anos, em meio ao início de um ciclo de aperto monetário para conter a inflação. O presidente do BC, Alexandre Tombini, elevou a Selic ontem em 0,5 ponto percentual, aumentando o retorno para quem compra títulos de renda fixa no País, que tem a maior taxa de juros reais entre os países do G-20.

“O Banco Central e o governo têm objetivos diferentes”, disse Paul Biszko, estrategista de mercados emergentes do Royal Bank of Canada, em Toronto, numa entrevista por telefone. “Eles estão numa situação difícil. O Brasil continua inundado por fluxos diversificados de capital. Tudo o que eles podem fazer é desacelerar o ritmo da valorização.”

O real subiu em seis dos últimos sete dias e se fortaleceu 39 por cento desde o início de 2008 contra o dólar, o segundo maior ganho entre as 16 moedas mais importantes acompanhadas pela Bloomberg, atrás apenas do dólar australiano.

Lucro dos exportadores

A disparada da moeda brasileira reduz o lucro dos exportadores ao tornar seus produtos mais caros em dólar. A valorização também ajudou a aumentar o déficit anual em transações correntes do País para um recorde de US$ 49 bilhões.

Na tentativa de segurar o real, o governo triplicou o Imposto sobre Operações Financeiras nas compras de títulos de dívida brasileira por estrangeiros no mercado local, adotou um depósito compulsório sobre posições vendidas em dólar e autorizou o Fundo Soberano a comprar dólares no mercado futuro.

Na semana passada, o BC voltou a fazer apostas contra o real no mercado futuro, por meio do leilão de US$ 1 bilhão em contratos de swap cambial reverso. Mantega disse a jornalistas em 14 de janeiro que poderia tomar mais medidas se necessário.

Nenhuma das medidas até agora foi suficiente para enfraquecer o real, disse Roberto Melzi, estrategista do Barclays Capital em Nova York.

Fluxos ‘maciços’

“Os fluxos que estão entrando são maciços”, disse Malzi. “De maneira geral, há um limite” sobre o que pode ser feito, disse.

Investidores vieram em bando para o País em busca de retornos maiores, em meio a juros próximos de zero nos Estados Unidos, Japão e União Europeia. Os estrangeiros aplicaram US$ 62 bilhões em ações e títulos de renda fixa brasileiros nos primeiros 11 meses do ano passado, contra US$ 46 bilhões em 2009, segundo dados do BC.

Em sua primeira reunião de política monetária como presidente do BC, Tombini elevou a Selic para 11,25 por cento. A decisão do Comitê de Política Monetária ficou de acordo com a previsão mediana numa sondagem da Bloomberg com 51 economistas. As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro mostram que os operadores esperam que a Selic suba mais 200 pontos-base para 13,25 por cento até o fim do ano, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. Em 3 de janeiro, esses contratos sinalizavam expectativas de aumento da taxa para 12,75 por cento.

Outras nações em desenvolvimento também aumentaram esforços para limitar a valorização de suas moedas. O banco central do Chile tem um programa de US$ 12 bilhões para comprar dólares no mercado à vista. No mês passado, Coreia do Sul e Taiwan apertaram os controles de capital para ajudar a segurar a entrada de recursos externos.