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Lula cobra ambição de empresas brasileiras

Para presidente, indústria não aproveita vantagens que País oferece

Lu Aiko Otta

A política industrial, em discussão no governo, ganhou alguns contornos ontem, durante a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os principais ministros da área econômica com cerca de 100 grandes empresários brasileiros. O presidente afirmou que governo e empresários precisarão discutir seus próximos passos e definir qual é o perfil a ser perseguido para a economia brasileira nas próximas décadas e quais setores deverão ter destaque.

Ele citou como exemplos as indústrias automobilística, siderúrgica e de papel e celulose. Os três deveriam perseguir metas mais ambiciosas de presença no mercado global, avaliou o presidente. Segundo ele, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, chamarão os setores para discutir políticas de incentivo, desoneração tributária e investimentos.

Lula afirmou que a indústria automobilística não deveria se contentar em produzir 2,7 milhões de automóveis por ano. Ela tem condições de, além do atendimento ao mercado interno, transformar o Brasil em uma grande plataforma de exportação de carros para competirmos com os países exportadores, afirmou. A produção, disse, poderia atingir entre 5 milhões e 6 milhões de unidades.

No caso da indústria siderúrgica, Lula cobrou uma definição: A Vale do Rio Doce vai ter de pensar, junto com as empresas brasileiras, se vamos apenas ser exportadores de minérios ou se vamos exportar valor agregado. Ele chamou atenção para o fato de a produção de aço ter, no Brasil, taxas de crescimento semelhantes à da China. O País, porém, tem a vantagem comparativa de ser o maior produtor de minério de ferro do mundo, enquanto os chineses são importadores.

Outro potencial mal aproveitado, para Lula, é o de papel e celulose. Ele avaliou ser incompreensível que a indústria brasileira não seja a mais importante do mundo, dadas as vantagens comparativas do País: o clima, a dimensão territorial e a tecnologia. Só um pensamento pequeno é que faz com que a gente fique se arrastando e não ocupe um espaço que é nosso.

O fortalecimento de setores considerados estratégicos é parte da política industrial, segundo a área técnica do governo. Embora as medidas em estudo sejam do tipo horizontal, ou seja, beneficiam a todos os segmentos, alguns setores terão tratamento especial porque são considerados fundamentais para atingir as macrometas da política industrial.

Uma delas é o aumento da participação do Brasil no comércio internacional. Setores mais capacitados a contribuir para esse objetivo deverão receber impulso extra.

No governo Fernando Henrique, travou-se um forte debate sobre se a indústria deveria ter medidas de estímulo específicas para determinados setores ou se seria mais produtivo garantir um bom ambiente de negócios de uma forma geral. Ontem, Lula comemorou a ausência de um debate ideológico em torno do tema. Para ele, todo mundo chegou à conclusão de que a política é necessária.

Lula alertou os empresários para a necessidade de investir. Ele se disse assustado com o fato de a indústria já estar utilizando 87% da capacidade instalada. A falta de investimentos pode tornar a produção insuficiente para atender à demanda, provocando inflação. Lula ameaçou punir os setores que estejam pressionando a alta de preços.