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Lan houses crescem e levam internet às favelas brasileiras

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As lan houses surgiram na Coréia do Sul, em meados dos anos 90, como locais onde as pessoas se reuniam para jogar em rede. Foi com esse perfil que chegaram ao Brasil, dois anos depois

Talita Moreira, André Borges e Heloisa Magalhães

A sala escura e abafada fica abarrotada de jovens. O espaço – um quartinho erguido na laje de um mini-mercado – é pequeno e o calor, insuportável. Mas quem se importa? A garotada que se espreme ali está além das fronteiras estreitas demarcadas pelas paredes.

Olhos vidrados nos computadores, os adolescentes passeiam pelo universo sem limites da internet. Na lan house do cearense Antônio Rodrigues Filho, meninos e meninas da favela de Heliópolis, a maior de São Paulo, ganham o mundo por R$ 1 a hora.

Aberto no fim do ano passado, o centro de acesso à internet tornou-se em poucos meses a principal fonte de renda do comerciante, também dono do mercado Girassol e de uma loja de artigos fotográficos. "Chamei para ser sócio um amigo que conhecia essas coisas de internet, diminuí o estoque do mercadinho e coloquei lá uns computadores", afirma Rodrigues Filho, que é conhecido na vizinhança como Sonrisal e pretende se candidatar a vereador em 2016. Embora nunca tenha aprendido a usar um PC e tampouco saiba ler e escrever, enxergou no anseio da comunidade em navegar pela web uma oportunidade de negócio.

Histórias como a de Sonrisal são cada vez mais comuns. Num movimento silencioso que se intensificou desde o ano passado, as lan houses – outrora restritas aos bairros nobres das grandes cidades – estão proliferando nas favelas brasileiras e tornando a web mais próxima de quem não tem acesso à internet.

Não há dados precisos sobre esse fenômeno tão recente quanto informal. Em Heliópolis, onde vivem 125 mil pessoas, calcula-se que o número atual ultrapasse facilmente 30 lojas. Na Rocinha, maior favela do Rio e da América Latina, as estimativas vão de 80 a mais de cem unidades. A também carioca Cidade de Deus tem pelo menos 50.

O barateamento dos computadores e dos serviços de internet é crucial nesse processo. Com o dólar em queda, o aumento da a oferta de crédito e a redução da carga fiscal incidente sobre os equipamentos, as vendas explodiram nos últimos anos. A previsão da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) é de que sejam comercializados no Brasil cerca de 10,1 milhões de máquinas em 2007, volume 23% superior ao do ano passado.

Ainda que de forma menos acentuada, o preço das conexões de banda larga também está em declínio. O valor dos pacotes com velocidade entre 512 quilobits por segundo (kbps) e 1 megabit por segundo (Mbps) diminuiu 27,2% no período de 12 meses encerrado em junho, mostra levantamento feito pela empresa de pesquisas IDC. E não raramente são essas conexões mais lentas (e baratas) que os donos das lan houses contratam e dividem entre diversos micros.

"As lan houses são um efeito colateral inesperado do programa Computador para Todos, do governo federal", avalia o professor Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio. O grupo tem feito um trabalho de campo em favelas do Rio para estudar esse processo.

Nas últimas semanas, o Valor percorreu as favelas da Rocinha, no Rio, e de Heliópolis e do Jaguaré, na capital paulista. Deparou-se com lan houses quase sempre cheias, lojas recém-inauguradas e outras tantas em fase de expansão.

Em breve, o depósito do mercadinho de Sonrisal vai perder mais alguns metros quadrados para o mundo da internet. "Hoje tenho 14 computadores. Vou reformar aqui e colocar mais 24", afirma o comerciante, quase 30 anos depois de ter deixado o sertão do Ceará com o único objetivo de juntar dinheiro para comprar uma câmera fotográfica Rolleyflex.

O cantor de forró Miguel Silva e um primo de sua esposa, o estudante Luciano Santos, de apenas 17 anos, aproveitaram os fundos de uma papelaria da família e abriram neste ano uma lan house na favela do Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo. Começaram com seis computadores, agora já têm dez e só não compram mais porque não têm onde colocá-las. "Vêm umas 70 pessoas por dia aqui. Tem gente que paga adiantado para o mês todo", diz Santos, que fez curso de informática no Senai e vai prestar vestibular para engenharia civil.

Jovens como Santos estão por trás de muitas dessas lan houses. "Tiro entre R$ 950 e R$ 1,2 mil por mês, mais do que ganhava na fábrica", diz Marcos Marciel, de 21 anos, que trabalhava como prensista numa metalúrgica antes de abrir a Helipa, há dois meses, numa ruazinha estreita de Heliópolis.

Aos 20 anos, Bruno Borges, da Rocinha, tem uma lan house com 13 computadores, e está instalando a segunda, que terá oito máquinas. O pai deu dinheiro para ele montar e administrar o negócio, que complementa a renda proveniente de seu trabalho como vendedor numa loja de artigos esportivos do Leblon.

Trajetória não muito diferente é de Davison, de 25 anos, que faz questão de se apresentar apenas pelo primeiro nome. Com o conhecimento em informática aprendido na escola, ajudou sua família e um sócio a montar uma lan house na Rocinha em 2000. Ele e o pai acabaram comprando a parte do sócio e agora ampliam o negócio.

A demanda é forte. Cobrando geralmente entre R$ 1 e R$ 2 por hora, as "lans" estão sempre cheias – têm clientela cativa -, a despeito da presença de telecentros municipais e estaduais que oferecem uso gratuito nas periferias. Centros de acesso pago são a principal forma de conexão dos brasileiros das classes D e E à rede mundial de computadores: representam 48,08% do total, segundo dados do Comitê Gestor da Internet (CGI).

As lan houses surgiram na Coréia do Sul, em meados dos anos 90, como locais onde as pessoas se reuniam para jogar em rede. Foi com esse perfil que chegaram ao Brasil, dois anos depois. À medida que a internet disseminou-se entre os mais ricos, o mercado ganhou novas características. Esses estabelecimentos migraram para a periferia e lá os jogos cederam espaço para a navegação na web, oferecendo oportunidades de trabalho, conhecimento e diversão.

O lazer de alguns é fonte de renda para outros. A cabeleireira Raimunda Bandeira Carvalho, de Heliópolis, cismou com os hábitos do filho Rafael, de 17 anos, que não largava mais o computador. Em abril, foi até uma loja da Casas Bahia e comprou no crediário os seis micros que instalou de improviso na entrada de seu salão de beleza. "Tem noites em que a fila de espera chega a três horas", conta Rafael, que cuida do negócio.

O resultado disso é que aos poucos os hábitos da comunidade vão mudando. Desempregada há meses, Marluci Veríssimo da Silva, de 49 anos, se cansou de ouvir falar "nessa tal internet" e agora está disposta a fazer um curso que lhe ensine a usar o computador. "Não sei nada disso, mas tenho que aprender. A gente tem que atender o mundo das exigências."