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Juro assustador

Taxas do crédito pessoal e do cheque especial sobem e alcançam o maior nível em cinco anos
 

 
Vicente Nunes
Da equipe do Correio
Tomar dinheiro emprestado junto aos bancos está cada vez mais caro. Pesquisa divulgada ontem pela Fundação Procon de São Paulo mostrou que as taxas de juros do crédito pessoal e do cheque especial atingiram o maior patamar dos últimos cinco anos no país, exigindo cada vez mais cautela dos consumidores na hora de se endividarem. Na média, os juros do crédito pessoal atingiram 5,69% ao mês, taxa sem precedentes desde setembro de 2003, quando estavam em 5,73%.

O custo dessa modalidade de financiamento está em alta desde janeiro último, portanto, bem antes do processo de aumento da taxa básica (Selic), iniciado em abril. No cheque especial, os juros saltaram, na média, para 8,97% ao mês (ou 180,3% ao ano), o nível mais elevado desde agosto de 2003 (9,17%). Foram pesquisadas 10 instituições, que detêm mais de 80% da clientela: Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú, Nossa Caixa, Real, Safra, Santander e Unibanco.

Segundo Cristina Rafael Martinussi, técnica do Procon responsável pela coleta de informações, o nível de endividamento dos brasileiros é preocupante. “E o que torna o quadro mais grave é que as pessoas estão recorrendo com vontade a uma das modalidade de crédito mais caras do mercado, o cheque especial, transformado em segundo salário por muita gente”, afirmou.

Destino
“Desse jeito não tem escapatória. Em algum momento, isso vai se transformar em inadimplência”, acrescentou. O ideal, na avaliação de Cristina, é que as pessoas só façam dívidas quando realmente for necessário, pois a tendência dos juros é de alta e há o risco de a renda encolher além do programado por causa da disparada da inflação.

Para Cristina, os brasileiros precisam se organizar e fazer o crédito saudável. Isso significa recorrer às linhas mais baratas, como o empréstimo consignado, com desconto em folha de pagamento. Não sendo possível, a dica é recorrer ao crédito pessoal, que está ficando cada vez mais caro, mas ainda é melhor do que entrar no cheque especial. “Entre o crédito pessoal e o cheque especial, a diferença chega a três pontos percentuais por mês. É muito”, destacou.

O problema é que as pessoas se acomodam com as facilidades oferecidas pelos bancos para o cheque especial. A linha fica disponível para ser usada a qualquer momento, tornando-se um atrativo para aqueles que não querem passar pelos trâmites de análise das demais linhas, como a comprovação de renda. “O preço dessa facilidade são os juros mais altos do mercado”, complementou a técnica do Procon.

Péssimo defeito
Para tentar mudar esse quadro, o Procon de São Paulo tem oferecido cursos e palestras aos consumidores que estão endividados e aos que desejam equilibrar o orçamento doméstico. “Em um dos cursos, Como Sair do Vermelho, quase 100% dos participantes estão devendo muito dinheiro aos credores.

O nosso trabalho, então, é ajudar essas pessoas a reduzirem os débitos da forma menos traumática possível”, assinalou a técnica Cristina Rafael Martinussi.

Mas não se trata de uma tarefa fácil, pois tanto os bancos quanto as lojas têm incentivado o endividamento, estimulando um defeito dos brasileiros, o de não olharem para os elevados juros que estão pagando, mas, sim, fazerem rápidas contas para saber se as prestações dos empréstimos ou dos crediários cabem no bolso.

Pela Pesquisa do Procon paulista, dos 10 bancos pesquisados em agosto, três aumentaram a taxa do empréstimo pessoal: Bradesco, cujos juros passaram de 5,87% para 5,93% ao mês entre julho e agosto; Itaú, onde a taxa saltou de 6,58% para 6,64% ao mês; e HSBC, que elevou o custo de 4,81% para 4,82% mensais.

No cheque especial, as maiores altas foram registradas nos bancos Safra, de 11,79% para 12,30% ao mês; Real, de 8,90% para 9,28% mensais; e Bradesco, de 8,39% para 8,58% ao mês. É importante destacar que, em todos os casos, as taxas coletadas se referem aos juros máximos cobrados dos clientes não preferenciais, que não têm, por exemplo, nenhum tipo de aplicação financeira no banco como contrapartida.

 
 
Desse jeito não tem escapatória. Em algum momento, isso vai se transformar em inadimplência

 

Cristina Rafael Martinussi, técnica do Procon-SP

 

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–>Mantega satisfeito
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Edna Simão
Da equipe do Correio

A desaceleração dos preços das commodities (produtos cotados no mercado internacional) deve sustentar a continuidade da queda da inflação, fazendo-a caminhar mais “rapidamente” para o centro da meta (4,5%) no futuro. Essa, pelo menos, é a avaliação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que se diz satisfeito com o arrefecimento dos índices no atacado e no varejo.

“Mas isso não significa que nós devemos agora descuidar dessa questão. O governo continuará empenhado em controlar a inflação porque ela pode voltar, pode se difundir a partir daquilo que já aconteceu no passado”, afirmou Mantega, após reunião do Conselho de Administração da Petrobras, realizada ontem em Brasília. No encontro, que contou com a presença da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, dentre outros assuntos, foi apresentado o resultado do segundo trimestre da companhia de petróleo.

Na avaliação de Mantega, o atual patamar do superávit primário (4,3% do Produto Interno Bruto) é “bom”. Mas deixou claro que, se for necessário, o número poderá ser elevado. “O superávit primário é uma excelente arma para combater a inflação porque ele diminui o gasto do Estado e o dispêndio público e ajuda a segurar a demanda agregada”, explicou o ministro.
 

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–>Inflação deve ficar abaixo do teto
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Pela segunda semana consecutiva, os quase 100 analistas ouvidos pelo Banco Central reduziram as estimativas de inflação para este ano e para os próximos 12 meses. Mas os números não deram conforto ao BC, que esperava uma mexida, mesmo que pequena, nas expectativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2009, há um mês estacionadas em 5%. O objetivo da instituição é que as projeções caiam para 4,5%, o centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Independentemente da frustração, o economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, acredita que a trajetória da inflação é de queda. “Nas próximas semanas, veremos tanto as previsões para este ano quanto as de 2009 recuando, ainda que lentamente”, afirmou. “É possível que as estimativas para o IPCA de 2008 fiquem bem próximas dos 6%”, destacou. Se confirmada essa projeção, será uma queda e tanto. Na pesquisa divulgada ontem, as expectativas ficaram em 6,45% ante os 6,54% da semana anterior. Foi a primeira vez, em uma quinzena, que as estimativas ficaram abaixo do teto da meta perseguida pelo BC, de 6,5%.

A possibilidade de estouro da meta este ano ficou mais remota. “Isso só acontecerá se houver uma mudança forte na trajetória dos preços dos alimentos, que estão em franco processo de baixa”, disse o professor Heron do Carmo, da Universidade de São Paulo (USP). Ele destacou que a trajetória de queda dos alimentos se evidenciou no IPCA de julho, que cravou 0,53%, o piso das expectativas do mercado. Esse movimento está sendo sustentado pela queda das commodities no mercado internacional. Todos os derivados do trigo, da soja e do milho estão ficando mais baratos.

Para Elson Teles, no entanto, nada muda na política de juros conduzida pela BC. “Continuamos apostando em uma alta de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) em setembro”, disse, fechando o ano em 14,75% com mais duas altas. Na opinião de Heron do Carmo, a alta da Selic desde abril, de 11,2% para 13%, já será suficiente para manter a inflação nos eixos. “Vejo, no máximo, mais uma alta de 0,5 ponto.”

IPC-S de Brasília
A inflação de Brasília medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) registrou alta de 0,47% na primeira semana deste mês, ficando 0,12 ponto percentual abaixo do registrado na coleta anterior. Seis das sete classes de despesas reduziram o ritmo dos aumentos de preços. Apenas os transportes apresentaram alta maior, de 0,10% para 0,22%. O grupo alimentação variou 0,62% contra 0,90% do índice passado. Para André Braz, da Fundação Getúlio Vargas, devem ficar mais baratos produtos como arroz, feijão, derivados do trigo e carnes bovinas. (VN e Luciana Navarro)

 

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