Notícias


Investir em dólar é tentador, mas só é vantajoso se crise atingir o presidente

Por Lilian Ferreira

Em tempos de juros altos, balança comercial indo bem, inflação controlada e dólar cada vez mais barato, quem tem um dinheiro sobrando logo pensa em aplicar no câmbio.

O que para leigos é uma boa oportunidade divide opiniões entre os especialistas. Para o coordenador da área de Fundos de Investimento da Fipe (Fundação Instituto de pesquisas econômicas) e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Siegfried Bender, estamos num momento tentador. Já o analista de mercado da corretora Souza Barros, Hideaki Iha, diz que o dólar nunca foi um bom investimento, já que o mercado especulativo tem alto risco e a moeda oscila muito. Vale lembrar que é proibido o uso de moeda estrangeira como meio de pagamento ou reserva de valor, como uma poupança.

As perspectivas são de que a taxa de câmbio da moeda americana não diminua mais. “Acho que abaixo de R$ 2,30 não cai. Sempre há a possibilidade, mas hoje a de não cair é maior. Quando o Banco Central entra e atua no câmbio, como aconteceu semana passada, é uma dica de que este pode ser o piso”, afirma Iha. O BC atuou comprando dólares, o que fez o valor da moeda subir.

O professor de economia não esperava uma queda tão acentuada na cotação da moeda: “Quando estava em R$ 2,40 eu achava que não cairia mais”, mas acredita que o dólar deva permanecer nesse nível, R$ 2,30, R$ 2,40, durante um bom tempo. “Enquanto os juros não caírem significativamente não vai ter muita saída, não”, diz.

O analista acredita que a tendência é a correção do câmbio, com um ajuste até o final do ano em R$ 2,55, R$ 2,60. Claro, com um aumento gradual, não subirá da noite para o dia. Até chegar nesse patamar, a moeda deve variar de acordo com a crise política, os depoimentos nas CPIs e os pronunciamentos do governo.

“Isso se não houver nenhuma denúncia contra o presidente, porque aí a moeda sobe”, diz Iha, acrescentando ainda que esta seria a única ocasião lucrativa de investir em dólar. Para ele a oportunidade é boa para quem vai viajar para o exterior ou tem dívidas em dólar. Esta pode ser renegociada e paga de uma só vez, aproveitando o dólar baixo, ou o devedor pode guardar a moeda para efetuar os pagamentos.

Por outro lado, Bender ressalta que o dólar está num valor extremamente convidativo em termos históricos, mas lembra que quem investir na moeda pode perder rentabilidade diante de outro fundo financeiro qualquer. “Sempre é melhor passar pro dólar antes que os juros caiam significativamente. Quando os juros caírem um pouco mais, provavelmente o dólar vai se valorizar”, afirma.

Vale lembrar que a cotação que costumamos ver é a do mercado naquele momento. Nem sempre as casas de câmbio ou os bancos vão cobrar o mesmo valor na hora da compra. O Banco Central recomenda que a pessoa faça uma pesquisa para descobrir os melhores preços, já que não há um valor fixo determinado para a taxa.

Quando uma pessoa física compra dólares, pressupõe-se que vá usá-los para custear viagem de turismo ao exterior. O BC exige apenas que o comprador seja identificado com RG e CPF, já que controla a movimentação de moeda estrangeira no país. Mas as instituições autorizadas a comercializar moedas estrangeiras normalmente checam se a pessoa realmente pretende viajar e têm o direito de não vender a moeda. Eles fazem esta fiscalização porque são responsáveis pelo dinheiro que entra, ou seja, a procedência do dinheiro local (se não é proveniente de lavagem de dinheiro, por exemplo), e pela utilização da moeda estrangeira. Quem possui moeda estrangeira deve declarar no Imposto de Renda, sendo que a transição de compra e venda não precisa ser declarada.

Segundo Iha, o investidor teria que comprar dólar no mercado paralelo. Neste caso, geralmente, o dólar é vendido a preços maiores que o do mercado e o preço de compra é muito superior ao de venda. Assim A moeda teria que subir muito para proporcionar lucro. “Ele corre o risco de comprar por R$2,68 e ter que vender por R$2,60”.

Se investir em dólares ou moedas estrangeiras não é consenso, aplicações de curto prazo são as preferidas. “Eu tenho certa reserva com fundos de longo prazo como previdência privada. Já os fundos de curto prazo estão indo muito bem, são garantidos”, afirma Bender. Iha concorda e destaca o CDB (Crédito de Depósito Bancário) como o mais estável.

“Os investimentos em fundos de aplicação financeira que estão com os papéis do governo ainda dão ótima rentabilidade e provavelmente ainda vão dar nos próximos dois ou três meses, pelo menos. A taxa de juros ainda vai estar relativamente elevada, mas é bom ficar sempre atento”, destaca Bender.

O preço do dólar está muito convidativo, muito barato, mas uma hora ele vai reagir. O investidor tem que perceber os sinais de mudanças na economia para agir na hora certa.