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Governo federal ameaça taxar exportações de álcool

Mauro Zanatta, Fernando Lopes e Mônica Scaramuzzo De Brasília e São Paulo

Uma tensa reunião entre governo e usineiros tentou ontem resolver o impasse em torno do aumento dos preços do álcool nas usinas. No início do ano, os empresários se comprometeram a cobrar até R$ 1,05 pelo litro do combustível, mas esse teto já superou R$ 1,07 nas usinas. Em tom de retaliação, o governo ameaçou reduzir de 25% para 20% o percentual de mistura de álcool anidro na gasolina e falou em taxar as exportações para reduzir as vendas de álcool e mesmo de açúcar. A União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica), que representou os usineiros, defendeu-se com a tese do desabastecimento em caso da adoção de medidas artificiais para manter o valor de R$ 1,05.

Comandado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o encontro foi marcado por um tom exasperado, segundo apurou o Valor. Cobrados pelo aumento da exportação de álcool, os usineiros responderam não ter controle sobre as leis de mercado e que o governo não poderia intervir no setor diante de uma “curva ascendente passageira” nos preços do combustível. Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Unica relativizou as ameaças do governo, mas admitiu que a entidade não tem como pressionar mais seus associados devido às boas condições dos mercados de açúcar e álcool.

“Não vejo como ameaças, mas como um desejo do governo de evitar uma escalada de preços do álcool. Conseguimos respeitar o limite fixado pelo governo por cerca de 40 dias, o que pode ser considerado um sucesso. Tentamos convencer nossos associados, mas as condições de mercado prevalecem”, disse ao Valor. Segundo ele, o principal desafio do setor não é segurar os preços do álcool, mas evitar a falta do produto no mercado interno. Por isso as usinas deverão mesmo antecipar a colheita da cana para elevar a oferta mais rapidamente, o que pode até funcionar como “válvula de contenção” das cotações.

Segundo o Ministério da Agricultura, as exportações de álcool em janeiro superaram em 93% as vendas do mesmo mês de 2005. Os embarques saltaram de US$ 29,8 milhões para US$ 57,6 milhões, segundo os dados da Secex. Algumas usinas têm fechado vendas ao exterior por até R$ 1,15 o litro. Em 2005, as vendas já tinham aumentado 53%, para US$ 774,4 milhões.

As conversas foram classificadas como “ruins” por alguns participantes da reunião, no Palácio do Planalto. A imagem dos usineiros, já atingida por episódios anteriores parecidos com este, ficou ainda pior para a cúpula do governo. Avalista do acordo com o setor privado, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, também saiu desgastado.

Apesar de se mostrarem preocupados com um eventual desabastecimento, os usineiros não deram garantia de que conseguirão produzir cerca de 850 milhões de litros entre março e abril para evitar escassez no Centro-Sul. O setor sustentou que o consumo do combustível não caiu com os aumentos de preços de dezembro e janeiro. O governo hesita em lançar mão da formação de estoques estratégicos de álcool, que custariam R$ 300 milhões ao ano em manutenção e carregamento da produção.

Para o empresário José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente do Grupo J. Pessoa, um dos maiores do país, o setor não tem condições de manter os preços “artificialmente” em R$ 1,05 em razão da oferta justa na entressafra. Segundo ele, todos os sindicatos regionais que representam as indústrias de açúcar e álcool do Centro-Sul se reúnem hoje para discutir a antecipação da safra de cana e como será o cronograma de produção de álcool de março a maio.

Em comunicado enviado à imprensa na sexta-feira, a Unica informou que a pesquisa semanal Cepea/Esalq, que indica preços do álcool acima do teto acordado entre o setor e o governo (de R$ 1,05), “confirma a enorme pressão exercida pelo mercado”. Analistas observaram, entretanto, que as usinas também anteciparam os contratos de exportação, o que ajudou a impulsionar os preços. No comunicado, a Unica informou que “está convencida de que todos os esforços devem ser despendidos na antecipação de safra para garantir oferta adicional de 850 milhões de litros, o que contribuirá para um alívio da pressão e conseqüente reequilíbrio dos preços”.

Os preços do álcool nas usinas têm registrado aumentos sucessivos nas últimas semanas, como mostra levantamento semanal do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP). O litro do anidro fechou a R$ 1,07279, na sexta-feira, em São Paulo, com aumento de 2,5% sobre a semana anterior. O litro do hidratado, a R$ 1,07213, com elevação de 3,3% sobre a semana anterior.

Os preços do álcool combustível ao consumidor também registraram nova alta, pela quarta semana consecutiva, segundo levantamento semanal realizado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A cotação média no país fechou a R$ 1,761 entre os dias 12 e 18 de fevereiro, com elevação de 1,03% sobre a semana anterior. A região Norte do país foi a que registrou a maior cotação no período, de R$ 2,119. A região Sudeste maior pólo produtor do país – tem a menor cotação, de R$ 1,593.