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Fechamento de 72 mil pequenas lojas amplia abismo com as grandes redes

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Cerca de 66% dos 108,7 mil pontos de venda encerrados em 2016 foram de empresas com até 49 funcionários, reduzindo a fatia desses varejistas e indicando a elevação da concentração no setor

São Paulo – Dos 108,7 mil pontos de venda fechados no varejo no ano passado, 66,7% foram de micro e pequenas empresas (72,3 mil lojas). O resultado aumentou o abismo entre as maiores e menores, em termos de participação, e escancarou um desfecho que já vinha se desenhando: o de que o comércio sairá da crise com uma concentração muito superior a que tinha quando entrou.

“Os resultados do ano passado e de 2015 sem dúvida geraram uma concentração maior no setor”, afirma o economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) – entidade responsável pelo estudo -, Fabio Bentes.

Segundo a associação, a participação das micro e pequenas no total de lojas do ramo era de 98,7% ao final de 2015 – quando havia 3,9 milhões de unidades. A estimativa de Bentes é que com o resultado de 2016 a fatia tenha diminuído entre 0,7 a 1 ponto percentual. Em termos de faturamento, ele ressalta que a queda na participação deve ter sido ainda maior.

Ao final de 2014, conta, as micro e pequenas representavam 40% de todo o faturamento do varejo. Após os dois anos de recessão ele estima que esse percentual possa ter caído para 30%. “Com a crise é natural que as pequenas se saiam pior: elas têm menos capacidade de negociar, e não têm poder para roubar o cliente das grandes”, diz.

O analista da Unidade de Atendimento Setorial Comércio e Serviços do Sebrae Nacional, Ricardo Villela, também afirma que essas varejistas foram mais afetadas. “As micro e pequenas têm menos acesso ao crédito, e as possibilidades de redução das despesas e de racionalização operacional são menos flexíveis”, diz. Segundo ele, muitos dos fechamentos de micro e pequenas lojas vistos em 2016 ocorreram em empresas com poucos anos de vida, até em função do crescimento do empreendedorismo por necessidade. “Pessoas que perderam o emprego acabaram se aventurando no empreendedorismo, muitas vezes sem nenhuma experiência e sem terem se preparado adequadamente”.

Na visão do presidente do Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), Claudio Felisoni, o aumento da concentração é um movimento natural em momentos de recessão. “Toda crise acaba levando a movimentos de incorporações e fusões e a atividade saí mais concentrada do que era antes, até por conta dessa eliminação das empresas da base”, diz.

De acordo com o executivo, considerando a dimensão e duração da recessão atual o impacto será muito grande. “Vamos ter um reflexo significativo nos índices de concentração”, prevê Felisoni.

Outro ponto que deve impactar na participação das pequenas dentro do setor é que na hora da retomada as grandes sairão na frente. Para Bentes, da CNC, essas empresas devem dar sinais de recuperação mais rápido. “A tendência é que elas apresentem um saldo positivo de aberturas antes das micro e pequenas”, diz.

Felisoni, do Ibevar, concorda: “Não vamos ver um movimento rápido de retomada das aberturas de lojas, mas nesse processo as pequenas também terão maior dificuldade.”

Recuperação lenta

Nos últimos dois anos o varejo fechou com saldo negativo somado de 210,6 mil lojas. O valor é maior do que o total de aberturas visto desde 2010 até 2014 (quando o ramo abriu 202,7 mil pontos de venda). Diante dos dados, Bentes diz que deve demorar pelo menos quatro anos para o setor retomar ao patamar pré-crise. “Os últimos dois anos anularam todo a alta dos cinco anos que antecederam. Se a partir de 2018 o varejo tiver um avanço médio anual de 50 mil lojas, vamos demorar cerca de quatro anos para voltar ao número de unidades que tínhamos antes da recessão”, finaliza.

Pedro Arbex