Notícias


EUA se preparam para explosão do álcool

Tatiana Bautzer De Washington

Exigências da legislação energética americana deverão elevar em 90% o consumo de álcool combustível no país nos próximos seis anos. Em 2006, pela primeira vez, será obrigatório que 2,78% do volume total de combustíveis consumidos nos Estados Unidos tenha fontes renováveis – o que aumentará o consumo de álcool para 4 bilhões de galões (1 galão equivale a 3,78 litros). Em 2012, o consumo atingirá 7,5 bilhões de galões.

De olho nesse incremento, as montadoras Ford e GM estão investindo em marketing de seus veículos bicombustível (movidos a gasolina ou álcool ou a mistura de ambos em qualquer proporção) – já vendidos nos EUA há algum tempo – e devem produzir 650 mil desses carros em 2006 para o mercado americano. Estima-se que a frota já existente de carros “flex fuel” no país alcance cerca de 5 milhões de veículos, mas a maior parte dos proprietários não sabe que pode utilizar o álcool.

Um grande obstáculo para a popularização do álcool carburante nos EUA é a falta de postos de serviço equipados para vender a mistura autorizada como combustível alternativo – 85% de álcool e 15% de gasolina. A mistura é chamada E85. Atualmente são apenas 600 postos equipados com bombas de álcool no país, duas vezes mais que no início do ano passado mas ainda pouco para uma rede de abastecimento que chega a 180 mil postos. O uso mais comum ainda é a mistura de até 10% de etanol na gasolina, para a redução de emissões de poluentes.

A Chevron (dona da marca Texaco) foi a primeira grande companhia de petróleo a colocar bombas com etanol em postos. Mas a iniciativa, decorrente de um acordo fechado no início do mês com GM, Estado da Califórnia e Pacific Ethanol, é restrita. O acordo prevê que o Estado compre o modelo Impala flex da GM e que a Chevron instale bombas em locais próximos à sede do Departamento de Transportes da Califórnia.

Maior exportador mundial de álcool – 2,6 bilhões de litros (quase 690 milhões de galões) em 2005 -, o Brasil assiste de mãos atadas à criação desse gigantesco mercado nos EUA. Na prática, a demanda estará reservada para a produção de álcool a partir de milho, apoiada em subsídios e tarifas de importação.

A única importação livre de tarifa é de países do Caribe e da América Central, limitada a um teto de 7% do consumo total americano. Compras de outras regiões pagam tarifa de 54 centavos de dólar por galão. Além desta proteção, o produtor local tem isenção tributária de 51 centavos de dólar por galão e créditos tributários estaduais (em média de 15 centavos) ou específicos para pequenos produtores (10 centavos). E há subsídios específicos para o milho, a partir do qual o etanol americano é produzido. Segundo o professor Tad Patzek, da Universidade de Berkeley (Califórnia), os produtores do grão dos EUA receberam US$ 37,4 bilhões em subsídios de 1995 e 2003.

A miríade de subsídios inviabiliza a competição para os exportadores brasileiros, apesar de o etanol nacional, produzido a partir da cana, custar 40% menos. Para fugir das barreiras, algumas empresas brasileiras investiram em unidades no Caribe. E a americana Cargill, com participação importante no agronegócio brasileiro, inclusive na exportação de álcool, é uma das poucas companhias que estão conseguindo importar o combustível do Brasil. A múlti usa uma fábrica em El Salvador com capacidade de desidratação de 60 milhões de galões, que são reexportados aos EUA na cota caribenha.

A unidade entrou em operação em agosto de 2005 na cidade de Acagutlo após forte pressão política contrária. Um dos senadores mais poderosos do Congresso, Charles Grassley, republicano do Estado agrícola de Iowa e presidente do Comitê de Finanças, chegou a propor uma legislação para reduzir a cota máxima de importação de etanol. O projeto não foi votado, mas desde então a Cargill começou a expandir a produção de álcool nos EUA.

“No momento temos capacidade de produção de 120 milhões de galões e vamos ampliar a fábrica no Estado de Nebraska, adicionando mais 110 milhões”, diz o porta-voz Bill Brady. A Cargill também fechou contratos com usinas independentes que terão capacidade total para 600 milhões de galões para supri-los com milho e distribuir o produto final – com o término da construção, a empresa terá capacidade para distribuir quase 1 bilhão de galões. Não há planos para expansão no Caribe.

Com incentivos e proteção, a capacidade de produção nos EUA começa a disparar. Já há pouco mais de 100 usinas de etanol no país e outras 30 estão em construção. Mas o presidente da Coalizão para Veículos Movidos a Etanol dos EUA, Philip Lambert, admite que o consumo em larga escala no futuro desafiará a produção de álcool de milho. Mas os americanos deverão tirar o posto do Brasil de maior produtor de álcool do mundo no curto prazo, já que o ritmo de investimentos nos EUA está mais acelerado. Na safra 2005/06, os brasileiros deverão produzir 16 bilhões de litros, mesmo nível previsto para os EUA este ano (ver gráfico).

“Hoje o milho é a melhor alternativa disponível. Mas claramente a longo prazo o álcool deve ser produzido a partir de celulose, cana ou outros vegetais, e acredito que haja grande oportunidade na produção a partir de resíduos e lixo urbano”, diz. A coalizão foi fundada em 1985, a partir da parceria entre associação de governadores e plantadores de milho dos EUA. Hoje, inclui montadoras como Ford, Chrysler e GM.

Lambert diz que a maior dificuldade para o desenvolvimento do mercado é ampliar a rede de postos que oferecem álcool. “Os EUA estão na mesma posição que o Brasil na década de 1970, com os altos preços do petróleo afetando a economia. O problema é criar a infra-estrutura de distribuição. As empresas petrolíferas resistem muito, acham que o negócio principal é o petróleo, não fornecer combustível ao consumidor”.

A coalizão oferece crédito a pequenos distribuidores para cobrir os custos da instalação de novas bombas ou a conversão para de bombas existentes para álcool. Ao mesmo tempo, faz lobby para que o governo institua algum tipo de regra que obrigue investimentos para a oferta do produto, como ocorreu na implantação do Proálcool no Brasil. Empresas que têm bombas com álcool no Brasil, como Esso e Shell, não oferecem o produto nos EUA.

A Ford estima que mais de 70% dos proprietários dos 5 milhões de veículos com motores bicombustível nos EUA não sabem que podem usar o álcool. A empresa produzirá 250 mil veículos flexíveis em 2006 para o mercado americano, e fechou recentemente acordo com a produtora de álcool VeraSun Energy para informar o consumidor e estimular a oferta em postos. Segundo a assessoria da Ford nos EUA, até agora foram abertos quatro postos no Estado de Iowa pela VeraSun. O álcool foi citado pelo presidente da montadora, Bill Ford, em um discurso recente no salão de Detroit como alternativa para reduzir a dependência dos EUA do petróleo do Oriente Médio.