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EUA: crise econômica acaba com sonhos de imigrantes

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Fonte: The New York Times

Peter S. Goodman

Nos seus primeiros anos como morador dos Estados Unidos, Carlos Jacinto teve de suportar a vida comum aos trabalhadores imigrantes da Guatemala, colhendo frutas na Flórida e trabalhando em uma serraria de Washington. Por fim, ele conseguiu se radicar no norte do Estado da Geórgia, e construir uma vida típica da classe média americana.

As fábricas de carpetes que sustentam essa cidade estavam desesperadas por operários, a fim de atender à forte demanda gerada pelo boom nacional no setor de construção residencial. O salário que Jacinto conquistou ao longo dos últimos 10 anos bastou para que ele comprasse uma minivan e uma casinha de tijolos com quintal e uma balança para suas filhas. Era um grande avanço ante a casa em que passou a infância, na Guatemala, um barraco de madeira sem eletricidade ou encanamento. Mas, no mês passado, em meio à crise da economia dos Estados Unidos, Jacinto, 37 anos, foi demitido. Tudo que ele conquistou está subitamente em risco.

"Será que vou conseguiu manter em dia as prestações da casa?", ele perguntou. "Nunca acreditei que isso pudesse acontecer. Agora, não sabemos o que o futuro pode trazer".

A desaceleração econômica que está atingindo todo o território dos Estados Unidos custa especialmente caro aos hispânicos, um dos grupos que se beneficiou da expansão dos últimos anos. Essa história de firmes e amplos avanços agora se transformou em desemprego crescente, queda nos salários e casas perdidas.

O boom no setor de habitação americano gerou milhões de novos empregos para pessoas dispostas a aceitar tarefas fisicamente exaustivas, de trabalhos nas fábricas de pisos, carpetes e estofamentos a empregos em paisagismo, em serviços de instalação de tetos e em empresas de limpeza. Os latino-americanos passaram a ocupar porções cada vez maiores desses mercados, e conquistaram número considerável de empregos relativamente bem pagos no setor de construção.

Enquanto o grande influxo de imigrantes latinos se espalhava para além do ponto de entrada inicial, no sudoeste do país, e atingia as cidades de menor porte no sul e centro-oeste, muitos deles encontraram empregos realizando os trabalhos desagradáveis recusados por pessoas cujas perspectivas profissionais eram melhores.

Mas agora proporção significativa desses empregos está desaparecendo, e algumas das áreas que apresentavam mais rápido crescimento no país, entre as quais Estados nos quais vem acontecendo rápida expansão da população hispânica, como Flórida, Califórnia, Geórgia e Nevada, estão arcando com a maior parte das conseqüências da crise.

Para os cerca de 19 milhões de imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos, a desaceleração no mercado de trabalho representa perda severa de renda, e reduz a proporção deles que continua capaz de remeter dinheiro para seus países de origem na América Latina de quase 75%, dois anos atrás, para cerca de 50%, agora, de acordo com pesquisa divulgada no mês passado pelo Banco Inter-Americano de Desenvolvimento.

Os problemas econômicos agora ameaçam reverter um longo período de avanço em termos de posse da casa própria, entre os latino-americanos. O crescimento desse indicador foi alimentado por uma pesada dependência de hipotecas de risco, ou subprime – créditos concedidos a pessoas com histórias de crédito problemáticas, cuja tendência à inadimplência terminou comprovada posteriormente. Em 2006, 47% do crédito imobiliário para a aquisição de residências por hispânicos envolvia transações subprime, quase o dobro do índice vigente entre os brancos não hispânicos, de acordo com um estudo do Centro Conjunto de Estudos Políticos e Econômicos.

A Geórgia é um dos muitos Estados nos quais os hispânicos estão sentindo dificuldades, agora. Entre os hispânicos nascidos fora do país, a construção civil respondeu por 46% do crescimento no emprego, no período 2004-2006, de acordo com Rakesk Kochhar, economista do Pew Hispanic Center.

Agora, essa dinâmica está funcionando na direção oposta. "Os hispânicos têm seus empregos concentrados no setor que está liderando a desaceleração", disse Kochhar.

Nos últimos oito anos, José Serrano, um imigrante ilegal, dividia casas de aluguel com cinco ou seis outros homens enquanto trabalhava em projetos de construção que oferecem salários de até US$ 10 por hora. Ele enviava a maior parte do dinheiro ganho à Cidade do México, para sustentar sua mulher e seus três filhos.

Mas desde novembro ele não encontra trabalho regular. A cada manhã, ele se une a dezenas de outros homens que esperam em um estacionamento por empreiteiros que procuram pessoal avulso para trabalhos ocasionais.

Agora, ele não tem dinheiro para enviar à família. Vendeu seu carro, e percorre as vias expressas de Atlanta em uma bicicleta. Para pagar os US$ 150 mensais de sua parcela de aluguel, ele vem tomando dinheiro emprestado de amigos.

Outras pessoas em situação semelhante decidiram retornar ao México, ele diz, desencorajadas com a deterioração no mercado de trabalho e a recente intensificação das medidas de repressão aos migrantes ilegais. Caso as coisas demorem muito a melhorar, ele seguirá o mesmo caminho, ainda que não goste muito da idéia de ter de depender da família que ele emigrou para sustentar.

"Os sonhos desapareceram", disse Serrano. "A família conta com você para as necessidades básicas, e você se sente derrotado".

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