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Etanol provoca migração de pessoal entre setores e regiões

Valor Online

Samantha Maia e Marli Lima

Além de provocar a expansão da área plantada e atrair novos investimentos para a construção de usinas e fornecimento de implementos agrícolas, o "boom" do etanol nas regiões Sul e Sudeste do país trouxe um fenômeno novo para o setor sucroalcooleiro: está faltando mão-de-obra no campo. As empresas não conseguem preencher as vagas abertas, tanto para trabalhadores sem especialização, como cortadores de cana, como para profissionais em nível de gerência.
Para Gerci James Soares, gerente da Multirental Shark, locadora de equipamentos agrícolas de São Paulo, as usinas não conseguem aproveitar o potencial produtivo das máquinas, já que os profissionais disponíveis hoje com a qualificação exigida atendem só a 35% da necessidade do mercado. "A operação e manutenção de máquinas fica comprometida, já que a mão-de-obra não acompanhou a modernização das máquinas", diz.
Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), indicam que o setor está contratando principalmente destiladores, encarregados de moenda, operadores de caldeira e de máquinas em geral, soldadores, motoristas e tratoristas. Para atender à demanda, as usinas têm investido em programas de especialização, treinamento e recolocação da mão-de-obra contratada.
Segundo José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente de um dos maiores grupos sucroalcooleiros do país, o J. Pessoa, o aquecimento do setor começa a criar transtornos na hora de contratar um profissional capacitado. Para não sofrer esse problema, o programa de expansão dos negócios do grupo anda junto com o de formação de pessoal. "Nossas usinas têm formado muita gente, trabalhamos para a fixação do profissional, mas temos sentido assédio sobre nossos funcionários."
A Cosan, que controla 17 usinas em São Paulo, ainda não foi afetada pela falta de mão-de-obra, diz o diretor de recursos humanos da empresa Luiz Carlos Veguin. "No entanto, se forem confirmadas as expectativas de investimentos no setor, com certeza haverá problemas futuramente para contratação de pessoal qualificado." Na tentativa de se antecipar a esse gargalo, a Cosan tem investido na formação dos funcionários "Por exemplo, pegamos os melhores tratoristas e os treinamos para trabalhar como operadores de colheitadeira de cana."
No Paraná, a expansão da lavoura canavieira agravou a falta de mão-de-obra, qualificada e também braçal. O superintendente da Associação de Produtores de Álcool e Açúcar do Estado (Alcopar), José Adriano da Silva Dias, conta que a escassez de trabalhadores aumentou de 2006 para cá. "As empresas já traziam trabalhadores de outras cidades e aumentaram as buscas de pessoal no Nordeste."
Para cada hectare de cana é necessário um trabalhador. Hoje, 513 mil hectares estão sendo colhidos no Paraná, o que exige 102 mil trabalhadores, mas existem apenas 80 mil trabalhadores contratados no Estado. A diferença é coberta com pessoas de fora ou com mecanização.
O diretor administrativo e financeiro da Sabarálcool, Fábio Rezende, diz que há falta de cortadores de cana e tratoristas, entre outros profissionais. "Tive de trazer 830 cortadores da Bahia e de Minas", conta. Isso representa 40% do total necessário no canavial do grupo, que tem sede em Engenheiro Beltrão, município da região centro-oeste do Estado. Esse pessoal fica em alojamentos de março a dezembro e recebe salário bruto de cerca de R$ 750, que inclui o piso da categoria mais prêmio por produtividade.
A Sabarálcool tem 4,8 mil empregados. Pretende aumentar a produção em 20% ao ano, para chegar a 6 milhões de toneladas de cana em 2013 (em 2007 serão esmagadas 2,3 milhões de toneladas). Para driblar a falta de trabalhadores, a empresa criou, há cinco anos, uma escola de tratoristas. Em fevereiro, 47 pessoas concluíram o curso, que dura três meses.
Bernt Entschev, fundador do grupo de recrutamento e seleção que leva seu nome, contou que existem vagas para cargos específicos no interior do Paraná, como traders, em especial nas grandes cooperativas, mas falta pessoal qualificado e o salário não atrai pessoas dos grandes centros.
Paulo Pontes, diretor-executivo da empresa de seleção Michael Page, diz que o Estado de São Paulo tem projetos de construção, a curto de prazo, de mais de cem usinas de cana-de-açúcar, mas não conta com pessoal especializado. Entre as funções mais demandadas estão engenheiros de produção, manutenção e segurança e meio ambiente. "O mercado sucroalcooleiro, que por muito tempo não crescia, está prestes a sofrer um boom de investimentos, inclusive de grupos internacionais."
O escritório da Michael Page em Campinas, que concentra o recrutamento de pessoal para empresas localizadas no interior do Estado, possui 40 vagas de média gerência em agronegócio. "Já há dificuldade em contratar", constata Pontes. A saída tem sido buscar profissionais em outros mercados, como na construção pesada, por exemplo.
"Há um acordo entre as empresas sucroalcooleiras de não tirar mão-de-obra umas das outras, mas esse setor tem capacidade de pagar de 30% a 40% a mais que os outros por um profissional especializado", explica o diretor da Michael Page. "É possível uma pessoa sair de outro setor ganhando R$ 14 mil, para receber R$ 22 mil no agronegócio, você não tem esse jump em outro mercado."