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Em sabatina, Delfim defende juro menor e apuração sobre ditadura

Folha Online

YGOR SALLES
da Folha Online

O economista Antonio Delfim Netto, ex-ministro e ex-deputado federal, defendeu nesta terça-feira a queda dos juros para conter a valorização cambial, a apuração dos crimes cometidos na ditadura militar e o avanço das reformas –em especial a fiscal– para reduzir a carga tributária e os gastos de custeio e salários do governo.

As declarações foram dadas durante a a sabatina da Folha, realizada no Teatro do shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo.

Defensor do déficit nominal zero, Delfim diz que este status só pode ser obtido com trabalhos em várias frentes. As principais seriam a redução da taxa real (descontada a inflação) de juros –o Brasil possui a segunda maior do mundo, perdendo apenas para a Turquia– e a redução de gastos governamentais.

A redução dos juros ainda resolveria outro problema enxergado pelo economista: a supervalorização do dólar ante o real.

Câmbio

Para o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, o governo não pode fazer nada contra a valorização cambial, mas pode trabalhar contra a supervalorização. E a principal atitude seria reduzir a taxa de juros.

"Não vejo motivos para a nossa taxa de juros reais ser maior do que 3% ou 4%", disse Delfim, Atualmente a taxa de juros reais do país gira em torno de 8% –a Selic está em 11,5% ao ano. "A liberdade de movimento de capitais não faz o mesmo efeito do movimento comercial. E, mesmo assim, fazemos questão de ter um dos juros mais altos do mundo", lamentou.

Sobre a taxa de dólar ideal, Delfim não quis cravar um valor, mas informou que os juros reais causam uma valorização cambial que circula entre 10% e 15%.

Reformas

Para garantir o crescimento da economia, Delfim Netto defende o avanço de diversas reformas, como a fiscal, a previdenciária e a política.

Sobre a Previdência, o economista vê como principal problema o fato das regras para o setor público serem distintas em relação ao setor privado. "Tem que colocar todo mundo no mesmo regime de previdência", disse.

A reforma fiscal, por sua vez, é necessária para eliminar outro problema para o avanço do crescimento do país: a alta carga tributária e o baixo volume de investimentos. "No governo do Itamar [Franco, presidente entre 1991 e 1993], a carga tributária era de 26% do PIB (Produto Interno Bruto) e o investimento era de 4%. Hoje a carga é de 36% e o investimento só de 2%", reclamou.

Além do gasto previdenciário, Delfim lembra que os gastos de custeio e salários precisam ser contidos. O que, segundo ele, não é de interesse nem do Congresso. "O Congresso também não ajuda. Uma das poucas iniciativas para redução do gasto público foi feito no PAC, com a limitação da despesa com salários em 1,5% mais inflação. Até agora não votaram e ainda querem passar para PIB mais 2%. Não adianta nada, disse. "Ou o governo elimina gastos de custeio. Mas é difícil o governo ter coragem para isso."

Por fim, o economista lamentou que a reforma política não avançou como o desejado. "Seria uma coisa fantástica se tivéssemos feito o voto distrital [na Assembléia Constituinte]", disse. "Na França, por exemplo, o cara que trai a mulher [o partido] nunca mais é eleito."

O grande problema da reforma política que está em curso no Congresso, segundo Delfim, é o seu desvirtuamento. "Quando eu olho esta reforma, a única coisa que parece claro é o interesse em aprovar o financiamento eleitoral público", disse.

Comércio exterior

Questionado sobre a condução do comércio exterior brasileiro –que privilegiou o multilateralismo em detrimento da relação com os Estados Unidos–, Delfim acredita que ela foi correta. Porém, criticou o fato do Mercosul não ter avançado.

"O mundo está se dividindo em blocos. A América do Norte, por exemplo, tem 56% do comércio entre eles. Na União Européia, mesmo não havendo dados precisos, está em cerca de 70%. Na Ásia, mesmo não tendo um bloco econômico, os acordos bilaterais garantem também 70% do comércio entre eles. Já o Mercosul é só 15%", disse o economista.

Porém, Delfim defendeu a postura brasileira sobre a Alca. "Para ela não ter avançado, é porque tinha algum problema mesmo", disse.

Crise do subprime

Delfim Netto não se mostrou surpreso com a atual crise encadeada pelos problemas nos créditos de alto risco ("subprime") imobiliário nos Estados Unidos.

Delfim acredita que a crise do subprime não afetará gravemente a economia real. "A crise ainda não atingiu o brasil. A não ser que se espalhe e reduza o ritmo de crescimento do mundo. Mas eu não vejo razão para achar que isso vai ocorrer", disse.

Congresso

Ex-deputado federal, Delfim reclamou do grande número de MPs (Medidas Provisórias) editadas pelo governo. Para ele, este é um dos principais motivos pelo qual o Legislativo não tem uma atuação a contento da população.

"As MPs entopem o Congresso. A cada vez que você quer melhorar, você piora. O exemplo é que, em um dia que existem 15 MPs travando a pauta e existe boa vontade, são todas votadas. Só que, quando acaba, já tem mais", disse.

Para agilizar o trâmite Legislativo, o economista defende uma mudança no rito de elaboração do Orçamento. "A mais significativa seria a criação de uma comissão com membros do governo e do Legislativo para definir a receita. Desta forma, se trabalharia para que as emendas coubessem dentro dela, ao invés de ficar esticando as estimativas de receitas", explicou.

Ditadura

O economista defendeu ainda que as informações e crimes do livro Direito à Memória e à Verdade, que conta detalhes da ditadura militar no Brasil, devem ser investigadas.

"É claro que não podemos ser solidários com o que ocorreu nos porões da ditadura. Uma vida vale mais do que qualquer coisa", disse o economista. "Não há como ser contra o livro." A obra será lançada nesta quarta-feira pelo presidente Lula.

Porém, Delfim lembra que as denúncias incluídas no documento devem ser investigadas antes de se apontar culpados pelas torturas e mortes. Nem tudo o que está escrito deve estar correto, disse.

O economista negou que, na condição de ministro do governo militar, tinha informações sobre o que ocorria nos porões da ditadura. "A equipe econômica não tinha informações sobre o que ocorria entre os ministérios militares. Nas reuniões ministeriais nem tocavam no assunto [das torturas]", afirmou. "Aliás, ainda é assim. É tudo compartimentado. As pessoas sabem só o que devem saber".

Sabatina

Delfim Netto foi sabatinado durante duas horas, com perguntas de quatro entrevistadores e também da platéia. Os sabatinadores do ex-ministro foram os colunistas da Folha Clóvis Rossi e Vinicius Torres Freire, o editor de Opinião Vinicius Mota e o repórter especial Fernando Canzian.

Delfim Netto foi o quinto a participar sabatinas da Folha neste ano. Antes dele, o jornal sabatinou o climatologista Carlos Nobre (março), o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer (abril), o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (maio), e o ministro da Saúde, José Carlos Temporão (junho).