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Eles vêm para ensinar e acabam ficando por aqui

De São Paulo

 

 

Desafios profissionais e pessoais, além da simpatia pela cultura brasileira são os principais motivos citados por estrangeiros que deixaram seus países de origem para vir participar deste momento de crescimento e mudanças no Brasil. Um país que deixa de ser citado como "o país do futuro" para ocupar manchetes como no último dia 23, quando o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em discurso na Assembléia Geral da ONU, em Nova York, pediu para expandir o grupo G-8, que reúne os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia, com a inclusão de cinco países, entre eles o Brasil.
Davilym Dourado / Valor

Ramon Jubels, da KPMG: "País começa a fortalecer o mercado de capitais"

 

"Sabia que este momento iria chegar para o Brasil e queria fazer parte desta mudança", diz Ramon Jubels, sócio líder de IFRS da KPMG. Ele deixou o escritório da Holanda em 2002 para coordenar os clientes europeus que estavam no Brasil. A exigência da implementação do IFRS para as empresas abertas até 2010 fez Jubels decidir que fica no Brasil por tempo indeterminado. "Como pessoa, acho a cultura extremamente interessante. A forma como foi traçado o caminho do crescimento da economia, a inclusão social. Sou de um país onde muita coisa já foi feita. Uma realidade bem diferente da brasileira, que apesar de ter evoluído de forma rápida, ainda tem grandes desafios", diz.

 

 

Profissionalmente, Jubels sente ainda mais que este é o momento oportuno para estar no Brasil. "O país começa a se inserir na globalização, a fortalecer o mercado de capitais, investe em práticas de governança corporativa e agora em IFRS para ter balanços comparáveis. Obviamente é uma realidade nova e quero fazer parte desta mudança."

 

 

Bruce Mescher, sócio da área de auditoria da Deloitte, está no Brasil há sete anos. Optou por deixar o escritório de Chicago, EUA, para trabalhar em um país emergente. Com experiência no padrão contábil americano conhecido como US Gaap, com algumas similaridades com o IFRS, Mescher desembarcou no país tanto para ensinar como para aprender novos conceitos internacionais. Quando chegou, o conceito de práticas de governança corporativa estava apenas no começo. "Mas foi impressionante a evolução das empresas brasileiras neste período", frisa.

 

 

Agora, um especialista também em IFRS, Mescher corre contra o tempo para ajudar as empresas brasileiras a implementarem um novo padrão contábil num curto espaço de tempo. "Há muitos desafios trazidos pelo crescimento da economia, fortalecimento do mercado acionário e conseqüente mudanças contábeis", acrescenta o americano que há dois anos tomou a decisão de ficar, por conta da dinâmica que domina o mercado brasileiro.

 

 

Segundo ele, estar no Brasil neste momento é muito gratificante, profissionalmente. "Participar desta mudança é uma experiência que levarei para toda a vida", diz. Pessoalmente, Mescher sempre gostou de conhecer e estudar pessoas, o que o levou a achar o Brasil um país em potencial para se conhecer. Gostou tanto que casou com uma brasileira e tem dois filhos. "Se me perguntasse há dez anos, jamais imaginaria que viria e que gostaria tanto. É muito fácil se adaptar, pois os brasileiros são receptivos", diz.

 

 

O sócio francês da Ernst & Young, Georges Santos, está no Brasil desde maio de 2006. Assim como Jubels e Mescher, Santos veio buscar desafios diante da estabilidade contábil a que estava habituado nos nove anos em que trabalhou na filial francesa. "Tinha necessidade de fazer coisas em um ambiente diferente", conta. A previsão era voltar em abril de 2009. "Agora não sei mais. Há muito para se fazer no escritório do Brasil e há pouco tempo para as empresas se adaptarem. O que torna o desafio ainda maior", diz.

 

 

Filho de pai português, Santos acabou optando pelo Brasil entre os Brics (sigla para Brasil, Rússia, Índia e China), pela familiaridade com a língua e pela certeza de que no médio prazo haveria convergência do padrão contábil local às normas internacionais com as quais trabalhava há anos. "Quando cheguei ninguém falava em IFRS, o que me deu tempo suficiente para melhorar o idioma."

 

 

Profissionalmente, ele destaca a complexidade dos assuntos tratados pelo escritório local e também o aprendizado com setores diferenciados, como cana de açúcar. Casado e pai de três filhos, a principal queixa de Santos em relação ao Brasil é com a burocracia. "Não imaginava que fosse tão grande", queixa-se ele. (D.B.)