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Durante crise, investidores apostam em mercados como Brasil

Fonte: The New York Times

Heather Timmons
Andrew E. Kramer
Julia Werdigier

Esqueçam Hong Kong, Pequim, Moscou e Bombaim. Os banqueiros, investidores e administradores de fundo de hedge mais intrépidos estão viajando mais longe para fazer negócios. Enquanto as crises do crédito imobiliário de risco (subprime) e a desaceleração econômica varrem Estados Unidos e Europa e o excesso de investimento na China e Índia ameaça criar bolhas de ativos, áreas por muito tempo ignoradas vêm experimentando crescimento incomparável.

Muitos desses focos de investimento são países ricos em petróleo ou minérios, como Gana, definidos por alguns investidores como "mercados de fronteira". Aliás, não faltam nomes para eles. Um analista do Merrill Lynch os chama de mercados "emergentes emergentes", e o Goldman Sachs os define como N-11, ou Next-11 (próximos 11) países em desenvolvimento.

Confira alguns deles:

África
Tutu Agyare tem tanta certeza de que é hora de investir na África, que deixou o cargo no banco que o empregava há 20 anos para fazê-lo. Ele trocou a diretoria européia de mercados emergentes do UBS, em Londres, pela Nubuke Investments, administradora que operará dois fundos que investirão apenas na África. A carteira da empresa sediada em Londres será de algumas centenas de milhões de dólares, e ela empregará uma dúzia de analistas. Agyare pretende iniciar operações em algumas semanas.

A África recebeu US$ 60,1 bilhões em fusões e aquisições anunciadas em 2007, de acordo com a Thomson Financial, 47% a mais do que em 2006. O investimento estrangeiro direto em países africanos chegou a US$ 35,6 bilhões em 2007, de acordo com o Conselho de Comércio e Desenvolvimento da ONU – 100% a mais do que em 2004.

Cazaquistão
O britânico Adel Kambar deixou seu posto executivo no Merrill Lynch de Londres no ano passado para trabalhar no escritório de um banco russo de investimento em Almaty, Cazaquistão. Em um momento convencional, não seria uma boa troca, já que sua transferência coincidiu com o desmonte dos créditos internacionais que vinham sustentando os bancos cazaques. Quando ele chegou ao país, o setor financeiro local enfrentava seca maior do que a do enlameado Mar de Aral.

Mas a riqueza petroleira do Cazaquistão ajudou a proteger o país contra o colapso do setor bancário no final do ano passado e agora, paradoxalmente, o novo emprego de Kambar talvez pareça mais seguro do que os de seus colegas em Nova York – se bem que ele continue a precisar de nervos de aço.

Arábia Saudita
Bassam Yammine, co-presidente executivo do Credit Suisse para o Oriente Médio, recentemente levou um colega do escritório londrino do banco em visita a um cliente na Arábia Saudita. Ele percebeu o desconforto do colega quando a reunião já passava dos 40 minutos e a conversa continuava a girar em torno da política e do clima. O colega parecia apavorado quando todos se levantaram para sair mas, no caminho da porta, Yammine trocou algumas palavras com o cliente e saiu do encontro com um cheque.

"Nessa parte do mundo, é assim que se faz negócios", disse Yammine, que divide seu tempo entre Riad, Dubai e viagens pela região. "Relacionamentos são um fator importante nas decisões dos clientes". Ele se orgulha dos que construiu, com a Saudi Telecom e algumas das companhias familiares sauditas. Yammine, 40 anos, nascido no Líbano, começou a cultivar esses contatos nos anos 90, quando criou o Lebanon Invest, o primeiro banco de investimento de sua terra natal.

Brasil
Patrice Etlin dedica seus dias ao comando do escritório da Advent International, uma empresa de capital privado, em São Paulo. Ele relaxa praticando esqui, saltando de helicóptero sobre pistas inexploradas. Em duas ocasiões, viu seu guia e seu irmão soterrados por avalanches. Nas duas ocasiões, saiu ileso e conseguiu socorro. "Escapei", ele diz, antes de acrescentar, rindo: "Estou em um negócio de risco".

Essas escapadas podem representar uma mensagem aos investidores: Etlin talvez goste de riscos, mas costuma sobreviver.

Ele abriu o escritório brasileiro da Advent em 1996, em meio a um boom inevitavelmente seguido de contração, com a crise russa, a crise asiática, a desvalorização brasileira e o colapso econômico da Argentina, seguidos pelo estouro da bolha da Internet e pelo 11 de setembro.

Etlin, meio brasileiro e meio francês, formado em engenharia eletrônica, sobreviveu ao que chama de "inverno nuclear", e agora está colhendo os benefícios. Seu primeiro e segundo fundos levantaram respectivamente US$ 235 milhões e US$ 265 milhões, em 1996 e 2001. O terceiro, no ano passado, conseguiu US$ 1,35 bilhão.

Os grupos de capital privado latino-americanos estão atraindo interesse entre os investidores em mercados emergentes. Eles levantaram US$ 4,4 bilhões, um recorde, em 2007, de acordo com a Latin American Venture Capital Association. As ofertas públicas iniciais na bolsa brasileira movimentaram o recorde de US$ 32 bilhões no ano passado.

A força que as empresas brasileiras, especialmente de metais, mineração e agricultura, adquiriram significa que elas estão tomando o controle de concorrentes estrangeiras. No mercado interno do País, onde a Advent é mais ativa, os negócios também florescem. A especialidade do grupo é assumir o controle de empresas familiares, de modo que os esforços de Etlin se dedicam a estabelecer relacionamentos e desenvolver confiança.

A abordagem metódica parece adequada a um homem que diz ter pensado em uma carreira como enxadrista profissional. Mas isso não significa que ele pense em dispensar a adrenalina da negociação. "Haverá volatilidade", ele diz. "Mas sei como contornar os riscos. Em longo prazo, o apetite pelo Brasil permanecerá".

Tradução: Paulo Migliacci ME