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Divergências no governo elevam o risco de apagão

Valor Online

Cristiano Romero

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a diretoria da Petrobras divergem sobre os rumos do setor elétrico. Essa disputa intestina no governo, que se arrasta desde o início do primeiro mandato do presidente Lula, é apontada como uma das razões para o aumento do risco de apagão. Nos últimos quatro anos, as discordâncias praticamente paralisaram a geração termelétrica, que seria supridora de energia em períodos de menor produção das hidrelétricas.
O quadro atormenta o presidente. Depois de comandar pessoalmente, no início de agosto, reunião emergencial do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), ele fez seguinte afirmação: "Saio daqui mais preocupado do que entrei".
As divergências começaram em 2003. Ao montar o ministério, Lula pôs Dilma Rousseff nas Minas e Energia, em vez de Luiz Pinguelli Rosa, seu aliado histórico, que acabou presidindo a Eletrobrás até maio de 2004. Outro aliado, o professor Ildo Sauer, da USP, foi nomeado diretor de Gás e Energia da Petrobras.
Críticos do sistema "liberal" adotado por FHC no setor elétrico, Pinguelli e Sauer queriam romper com o modelo anterior, que previa a criação de um "mercado livre" de energia no país – que teria causado prejuízo de R$ 5 bilhões às hidrelétricas estatais nos últimos quatro anos. Ao elaborar a nova estrutura para o setor energético, Dilma contrariou a dupla e não mudou o paradigma.
O maior ponto de atrito entre a ministra e a Petrobras está no gás. A estatal é obrigada a fornecer o combustível às temelétricas, uma operação que lhe causaria prejuízo anual superior a US$ 260 milhões. Em cinco anos, as perdas teriam chegado a US$ 1,5 bilhão. Nas conversas oficiais, diretores da Petrobras afirmam que o abastecimento está garantido. Mas constata-se que as usinas muitas vezes não funcionam por falta do insumo.
A crise criou condições para uma mudança na diretoria da estatal. Dilma quer no lugar de Sauer uma pessoa de sua confiança: Maria das Graças Foster, que cederá a presidência da BR Distribuidora a José Eduardo Dutra. A troca continua em estudo, mas o Valor apurou que não ocorrerá na reunião de hoje do Conselho da estatal, presidido por Dilma.