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Demissão de Rachid reforça PT na Receita

Segundo homem de Guido Mantega na Fazenda, Nelson Machado deve controlar órgão com a saída do ex-secretário

Pego de surpresa pela demissão, Rachid havia se enfraquecido com denúncias contra seus assessores na Receita

 

 

Lula Marques/Folha Imagem
 

 

Guido Mantega e a nova secretária da Receita, Lina Vieira, no Ministério da Fazenda

LEANDRA PERES
VALDO CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Depois de cinco anos e sete meses de governo Lula, a Receita Federal ficará sob controle petista. O ministro Guido Mantega (Fazenda) deu posse ontem a Lina Vieira, funcionária de carreira do órgão, indicada para o posto pelo secretário-executivo Nelson Machado.

Segundo homem do Ministério da Fazenda, o petista Machado é apontado como o assessor escolhido pelo chefe para controlar a Receita Federal, tida como muito autônoma durante o período de Jorge Rachid à frente do órgão.

Desde o início do governo Lula, petistas tentavam derrubar Rachid, último remanescente da equipe do ex-ministro Antonio Palocci e classificado de tucano por ter sido uma indicação de Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal no governo FHC.

Uma das munições usadas para enfraquecer Rachid era sua proximidade com um grupo de assessores da Receita acusados de negociar com empresas mudanças de legislação tributária -já demitidos.

Mantega já havia tentado afastar Rachid pelo menos duas vezes, mas foi dissuadido pelo presidente Lula pelo fato de ele comandar uma área considerada estratégica: a arrecadação federal, que saltou de R$ 35,7 bilhões em janeiro de 2003, em valores atualizados, para R$ 54,4 bilhões no mês passado.

Na última tentativa, aliás, o ministro quis indicar Nelson Machado para o posto, diante da fusão da Receita Federal com a Receita Previdenciária. Machado, ex-ministro da Previdência, acabou sendo indicado para a secretaria executiva da Fazenda.

Agora, com o processo de fusão das duas receitas concluído, o governo avalia que não há mais risco na troca de comando, que ficará com Lina Vieira, técnica do órgão e ex-secretária de Tributação do Rio Grande do Norte.

Segundo a Folha apurou, Rachid foi pego de surpresa pela demissão. Ao longo da quarta-feira, despachou normalmente e não deu nenhum sinal de que deixaria o cargo. No início da noite, foi chamado ao gabinete do ministro e informado de sua saída. A essa altura, o decreto de nomeação da nova secretária já havia sido até enviado ao "Diário Oficial" da União, e a decisão, informada a outros assessores do ministério.

A amigos Rachid disse que já esperava a troca dado o desgaste interno. Nos últimos meses, Machado vinha despachando diretamente com os secretários-adjuntos de Rachid e se reunindo com representantes de sindicatos de servidores da Receita Federal para tratar de assuntos do órgão.

A desenvoltura com que Rachid negociava com parlamentares também vinha incomodando a cúpula da Fazenda. Durante as conversas para prorrogação da CPMF, por exemplo, lideranças da oposição preferiam tratar diretamente com Rachid, em vez do ministro Guido Mantega.

Aliados de Rachid comentavam ontem temer que sua saída leve a um aparelhamento do órgão pelo PT. O Ministério da Fazenda contesta essa avaliação e diz que a troca foi técnica e faz parte do processo de renovação da equipe.

Não houve nenhum esforço por parte do Ministério da Fazenda em cumprir o ritual quase protocolar nas trocas de cargos. A única manifestação do ministro Guido Mantega foi uma nota em que se referiu aos "excelentes serviços prestados ao país por Jorge Rachid, há muitos anos dirigindo a instituição". A cerimônia de posse da nova secretária, Lina Maria Vieira, foi fechada à imprensa, e só permitida a entrada de fotógrafos. O ex-secretário sai em férias a partir de hoje e não haverá período de transição.