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Crise freia ‘crescimento chinês’ do Nordeste

Folha de São Paulo

Depois de forte expansão, economia da região é afetada pelo esfriamento que atingiu o país a partir do 2º semestre de 2011

Em agosto, quando a atividade do Sudeste já acusava o golpe, o Nordeste crescia a uma taxa de quase 6% ao ano

MARIANA CARNEIRO
DE SÃO PAULO

Depois de experimentar taxas de crescimento semelhantes às chinesas, a economia da região Nordeste mostrou fadiga no fim do ano e acompanhou o esfriamento que tomou o país no segundo semestre de 2011.

Em agosto, quando sinais de enfraquecimento já abalavam a atividade do Sudeste, o Nordeste voava a uma taxa de expansão de quase 6% ao ano. Em dezembro, segundo dados do Banco Central, o crescimento da região recuou quase dois pontos percentuais, para 4,4%.

O resultado é superior à média nacional (2,7%), mais favorável do que o visto no Sudeste (4,1% até novembro), mas mostra que nem o "tigre nordestino" permaneceu imune ao desaquecimento.

Indicador de atividade elaborado pela equipe do banco Itaú -reunindo informações sobre vendas no varejo, produção industrial e emprego formal- mostra que a economia nordestina abandonou uma taxa de expansão de 7,2% no fim de 2010, para 2,5% no 4º trimestre de 2011.

Economistas do Banco Central atribuem o esfriamento no fim do ano "à moderação do consumo e do investimento".

O economista Aurélio Bicalho, do Itaú, afirma que o recuo é efeito tardio da pequena correção do salário mínimo. Em 2011, ele subiu apenas 0,37%, descontada a inflação.

"Neste ano, a lógica se inverte", afirma Bicalho. "O Nordeste voltará a crescer mais rápido."

Isso porque o salário mínimo subiu 7,5% (sem contar a inflação), para R$ 622. Como 3 em cada 5 trabalhadores nordestinos recebem até um salário mínimo, o efeito do reajuste do piso é amplificado. No Sudeste, só 1 em cada 5 trabalhadores recebe até um mínimo.

Em recente viagem ao Nordeste, a presidente Dilma Rousseff constatou que parte das obras da transposição do rio São Francisco está parada. Na ferrovia Transnordestina, no Ceará, segundo o presidente do sindicato dos trabalhadores da indústria de construção pesada, Raimundo Gomes, o ritmo das obras esfriou desde novembro.

A assessoria da CSN, responsável pela ferrovia, não confirma a informação e diz que há 10 mil trabalhadores nas obras atualmente.

Informações do Banco do Nordeste indicam que a região tem obras relevantes, como as refinarias da Petrobras no Maranhão e no Ceará, uma unidade da Fiat em Pernambuco e a duplicação da BR-101.

Mesmo assim, as capitais do Nordeste sustentam as mais altas taxas de desemprego do país e, no ano passado, a região registrou a maior queda na geração de empregos formais do Brasil.

Segundo dados do Banco do Nordeste, a colheita da cana na região não empregou como se esperava a partir de abril, resultado da menor produção das lavouras locais.

A economista Tânia Bacellar, da Universidade Federal de Pernambuco, observa ainda que a baixa qualificação dos trabalhadores leva à "importação" de contingente de outras regiões.

Ela afirma que o ganho de renda provocado pelos aumentos expressivos do salário mínimo desde 2005 (cerca de 50%, descontada a inflação), e do Bolsa Família ajudaram a fomentar pequenos centros de consumo, como o da região do Crato, no Ceará. Mas é preciso ir além.

"Estamos no rescaldo da ‘Era Lula’. A redistribuição de renda via aumento do salário mínimo e do Bolsa Família foi importante, mas seu efeito está ficando menor", avalia.

Para a economista, os investimentos públicos são um sopro à economia por meio da construção civil, mas o modelo deve ser repensado sob pena de a região assistir a uma nova onda de concentração no Sudeste.

Bacellar observa ainda que a indústria automotiva prevê duplicar a produção no Brasil até 2020 e 53 montadoras mostraram interesse em instalar novas fábricas, "mas só duas no Nordeste".