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Crise é oportunidade para o empreendedor de alto impacto

Portal Fenacon

 

 

 

Para a Endeavor Brasil, conhecimento é a palavra-chave para formar uma cultura que favoreça a criação de negócios inovadores, com potencial para crescer e gerar mais empregos

Henrique Julião

São Paulo – Empreendedores bem preparados são mais capazes de criar negócios inovadores, enfrentar crises e gerar empregos – e, assim, ajudar a economia a girar. É essa premissa que faz a Endeavor Brasil considerar como propício o atual cenário econômico vivido pelo País.

“A crise, para muitos empreendedores, gera grandes momentos de oportunidades”, diz Juliano Seabra, diretor-geral no Brasil da organização global de fomento ao empreendedorismo. Para a Endeavor, o empreendedor de alto impacto – aquele que amplia seu corpo de colaboradores a taxas anuais superiores a 20% durante três anos consecutivos – sofre menos em um momento econômico instável do que a média dos empregadores brasileiros. “Ele é mais capacitado, não está andando de lado”, disse Seabra em entrevista ao DCI.

Seabra vê uma movimentação positiva mesmo em áreas como a construção civil e a indústria automobilística, que já vêm reduzindo o ritmo de produção e vendas desde o ano passado. “As empresas estão começando a estudar outros modelos de trabalho para compensar essa desaceleração”, diz. “O tipo de suporte que damos tem que dialogar com esse momento um pouco mais difícil. Temos que ajudar o empreendedor a enxergar como sair de um eventual problema. Muita gente acaba pedindo mentoria, ou informações mais focadas no lado financeiro, porque é normalmente na crise que as finanças acabam se desarrumando um pouco. Mas isso faz parte do processo natural de empreender. Você não vai ser empreendedor só no dia bom”, argumenta.

Foco do trabalho da organização, que já opera há 15 anos no Brasil, os empreendedores de alto impacto correspondem a menos de 1% do total de empresas ativas no Brasil, segundo estudo feito em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São 35.206 empresas, responsáveis por 60% da carga líquida de novos empregos do País – cerca de 3,3 milhões de postos de trabalho gerados no período de 2010 a 2012.

“A grande performance que empurra e sustenta o desempenho econômico brasileiro vem de um grupo muito restrito. Nosso sonho é que esse número se multiplique”, diz Seabra, destacando que 90% das empresas de alto impacto são pequenas e médias. “No auge da crise de 2008, havia cerca de 90 mil empresas de alto crescimento nos Estados Unidos. Hoje, são 150 mil. Nosso objetivo é fazer com que o Brasil tenha 100 mil.”

É para possibilitar tal salto que a Endeavor investe na capacitação de empreendedores. “Fechamos 2014 com quase 3 milhões de pessoas visitando nosso portal para consumir conteúdo. Um empreendedor bom é aquele bem preparado, e isso só acontece se disseminarmos conhecimento”, defende.

Além desse trabalho para um público amplo, a organização oferece acompanhamento para um grupo fechado de empreendedores, escolhidos em um criterioso processo de seleção (veja ao lado alguns exemplos). São cerca de 130 empresários, à frente de 74 companhias, que recebem mentoria de grandes lideranças – a última sessão, no fim de fevereiro, foi comandada pelo investidor e empresário João Paulo Lemann, sócio na AB InBev, no Burger King e em outros negócios.

 
Ação em parceria

Esse é o programa mais visível da Endeavor. Mas o instituto também desenvolve iniciativas de capacitação em conjunto com instituições como o Sebrae e o Senai. “São iniciativas que ainda estão muito de fora para dentro: entidades fora do sistema educacional que promovem a educação empreendedora.”

Uma dessas iniciativas é o InovAtiva Brasil, um programa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) que capacita e conecta startups, com apoio da Endeavor e do Senai. “Entramos com o processo de mentoria. São empresas pequenas, mas com muito potencial de inovação envolvido”, explica Seabra.

Ele defende maior participação do poder público na formação de uma cultura empreendedora no Brasil. “Enquanto não se entender que o empreendedorismo deveria ser olhado na escola, ele dificilmente se espalhará de uma forma acelerada. Nas universidades, está na idade da pedra”, afirma ele. Ainda que a inclusão da matéria na grade das instituições de ensino tenha chegado a entrar em pauta no Congresso Nacional, os projetos a respeito disso “não andaram”, avalia.

Ao lado da pouca capacitação, o ambiente de negócios complicado limita o desenvolvimento de um ecossistema empreendedor mais forte no Brasil. “Todos os processos que envolvem burocracia e impostos são muito onerosos. Seguram o potencial do País. A maior dicotomia é sermos a 7ª economia do mundo e o 120º ambiente de negócios”, diz.

 
Iniciativas

Seabra cita o vaivém na política de desoneração da folha de pagamentos como exemplo de decisões do governo que acabam causando insegurança jurídica e travam o planejamento por parte dos empresários.

No entanto, ele reconhece os esforços da Secretaria da Micro e Pequena Empresa (SMPE) em criar mecanismos legais mais ágeis, como o que deverá facilitar a transição do Simples para o regime tributário de lucro presumido quando uma microempresa amplia o volume de negócios e o seu faturamento.

De qualquer forma, defende o diretor-geral da Endeavor, o ambiente de negócios complicado não pode ser usado como desculpa pelo empresário para não inovar. “Por mais que você vá se envolver com sócios, funcionários, fornecedores, empreender ainda é um ato individual. A responsabilidade é exclusiva do indivíduo. Tem 35 mil caras que, com ambiente de negócios ruim, bola quadrada e regra malfeita, ainda conseguem marcar gol. Como eles estariam se nosso ambiente fosse mais leve? Essa é a provocação que fazemos.”

Endeavor tem “olheiros” para identificar empreendedor com mais potencial
Saiba mais na íntegra da entrevista com o presidente da organização no Brasil, Juliano Seabra

Henrique Julião

Nesta entrevista exclusiva para o DCI, o presidente da Endeavor Brasil, Juliano Seabra, fala sobre o trabalho da organização, que conta até com “olheiros” para identificar empreendedores com potencial de alto crescimento, e conta como funciona a colaboração com outras instituilções para construir no país uma cultura empreendedora. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Quais os possíveis efeitos de um cenário econômico como o atual sobre o empreendedorismo? O momento difícil da economia muda, de alguma forma, os planos da Endeavor?

Na verdade, não. A gente trabalha com empreendedores que têm uma característica muito especial: é alguém muito mais inovador do que a média dos empregadores aqui no Brasil, com uma disposição, um foco em alto crescimento muito maior. Ele sofre menos do que a média dos empregadores em momentos de crise porque é mais capacitado, está mais preparado, mais focado em gerar impacto, não está andando de lado. Empregadores que estavam indo bem só porque o momento econômico estava positivo devem sofrer um pouco mais. O tipo de empreendedor que a gente trabalha é o tipo que consegue encontrar oportunidades seja no momento de bonança, seja no momento de crise. A crise, para muitos dos empreendedores, gera grandes momento de oportunidades. Obviamente que empresas de setores que já estão um pouco mais desacelerados vão sofrer um pouco mais. Aquelas ligadas ao setor de construção civil ou que de alguma maneira são fornecedores da indústria automobilística, por exemplo, vão sentir algum nível de desaceleração no ano, mas mesmo elas estão começando a se diversificar, ir para outras indústrias, estudar outros modelos de trabalho para compensar essa possível desaceleração. O ano pode ser bom ou ruim do ponto de vista macroeconômico, mas para os empreendedores não tem muita mudança. O tipo de serviço e de suporte que a gente acaba dando tem que dialogar com esse momento um pouco mais difícil, temos que ajudar o empreendedor a enxergar como ele vai sair de um eventual problema de crise. Muita gente acaba pedindo mentoria, ou informações mais focadas no lado financeiro, porque é normalmente no momento de crise que as finanças acabam se desarrumando um pouco, mas eu acho que faz parte do processo natural para ser empreendedor. Você não vai ser empreendedor só no dia bom.

Como vocês observam o crescimento do empreendedorismo de necessidade em detrimento do empreendedorismo por oportunidade?

Primeiro acho que é importante destacar que o empreendedorismo por oportunidade, em geral, tem crescido muito no Brasil. Se você olhar para trás, para os indicadores de 2001, por exemplo, que é quando começou a série histórica que mediu esse tipo de empreendedorismo no Brasil, verá que não foi em 2014, 2015 que a coisa começou a virar. Objetivamente você tem muito mais empreendedores por oportunidade do que por necessidade. Agora, tem alguns setores, como o de serviços, em que é mais natural que haja o empreendedor por necessidade. A barreira de entrada é baixa, se você está em um momento em que foi demitido e não consegue se recolar, você consegue colocar uma empresa de maneira muito mais fácil do que uma indústria, do que algo que demande investimento em inovação. Então é natural, de alguma maneira, que isso aconteça. Mas é superimportante destacar que mudou muito o perfil do empreendedor brasileiro nos últimos 15 anos. Ele já não é mais aquele cara que empreende porque não tem outra opção de carreira, ele empreende porque considera o empreendedorismo como opção concreta de carreira. Significa que todo mundo é assim? Certamente não. Tem um monte de gente que ainda empreende no Brasil porque vê nisso a tábua de salvação para sustentar a família, para tentar subir na vida. Mas hoje a imensa maioria do empreendedorismo no Brasil já é por oportunidade. Existem variações naturais se a economia desacelera, mas até hoje, até o último dado, não há nada de muito relevante. Varia dentro de uma margem confortável. Não tem nenhuma crise no mundo do empreendedorismo.

Segundo pesquisa Ibope/Endeavor, o número de empreendedores de fato ainda é baixo perto do número de pessoas que pensam em abrir um próprio negócio. Como mudar isso?

Tem muitas organizações que trabalham para melhorar o ambiente para o empreendedor no Brasil. A Endeavor tem seu papel, o Sebrae tem seu papel. Isso foi uma coisa que se fortaleceu muito nos últimos anos, mas o resultado dessa pesquisa que a gente fez com o Ibope chama muito mais atenção pelo fato de que há muita gente disposta e muito pouca gente efetivamente correndo atrás. É nesse espaço de não-ação que a gente deveria atacar. Tem muita gente que quer ser empreendedor mas não dá o primeiro passo. Eu brinco que todo mundo tem um parente na família que você só encontra no Natal e que tem uma ideia de negócios que ele repete todo ano e que nunca sai no lugar. A gente ainda tem no Brasil, embora tenha aumentado muito o interesse por empreender, muito pouca gente botando para fazer de verdade. Isso é um superdesafio que não envolve só as entidades de apoio. O que nos tange é capacitar esse empreendedor, levar conhecimento, dar uma injeçãozinha de adrenalina, uma inspirada. Mas tem uma coisa que é responsabilidade única e exclusiva do indivíduo. Empreender é um ato individual, por mais que você vá se envolver com outras pessoas, com sócios, funcionários, clientes, fornecedores. Na linha do que precisa ser feito, de um lado é preciso mostrar que existe uma cultura empreendedora que precisa dar um passo adiante, ou seja, mostrar que não é só ter vontade, precisa ir para campo, quebrar a cara para ver se esse negócio vai funcionar. Do outro, é preciso um ambiente de negócios mais favorável. Acabou de sair na semana passada [no início de março] a iniciativa do governo federal de permitir a baixa automática de empresas desvinculadas às dívidas, o que significa que você vai conseguir fechar uma empresa na prática. Isso já é um enorme passo para você construir uma cultura empreendedora de fato. 4% ou 5% dos brasileiros são donos de um negócio. Você pode aumentar muito esse número se permitir que elas tentem, não deem certo e comecem de novo em uma outra atividade empreendedora sem as amarras burocráticas que a gente ainda tem no Brasil. O governo deve pensar que o cidadão tem que se sentir convidado a empreender, que os bancos têm que pensar que esse empreendedor vai ter demandas diferentes ao longo da vida e, portanto, que ele vai ter que criar mecanismos diferentes para se relacionar com esse cara. Você vai ter que ter acesso a programas específicos de incentivo a inovação para que consigamos ter uma cultura empreendedora espalhada pela sociedade, o que a gente não tem no Brasil.

E educação empreendedora? Falou-se bastante disso há um tempo, até sobre a inclusão da matéria na grade das escolas. Como anda esse projeto?

Como projeto formal, não há um grande debate. Tem dois ou três projetos parecidos no Congresso Nacional e nada andou. O que temos visto é que cada vez mais instituições de ensino, seja em nível superior, médio ou fundamental, começam a olhar a questão da formação empreendedora. Tem entidades que fazem um papel muito chave, especialmente olhando para o ensino fundamental e médio. Tem a Junior Achievement, uma organização internacional muito forte no Brasil, que já capacitou alguns milhares de jovens com programas que eles chamam de miniempresas, que são mecanismos de formação de empreendedores na prática, na escola. Existem parcerias, por exemplo, entre a Endeavor e o Sebrae, onde a gente leva conteúdo nosso de capacitação para universidades brasileiras. Há um programa chamado Bota pra Fazer, que, com apoio do Sebrae, já deve ter chegado a 20, 25 mil alunos no Brasil. Então você tem programas de educação empreendedora que estão se expandindo. Tem programas que estão mais ligados à linha do Pronatec, o Sebrae tem um convênio com o Ministério da Educação para o Pronatec Empreendedor, um programa de educação empreendedora nas linhas específicas do Pronatec. Mas isso ainda acontece muito porque tem entidades que estão fora do sistema educacional e que promovem a educação empreendedora. Enquanto você não tiver uma discussão um pouco mais profunda sobre empreendedorismo, que sirva para entender que empreendedorismo como uma competência para a vida deveria ser olhado na escola, dificilmente você vai ter isso se espalhando de uma forma acelerada no Brasil. O que há são inciativas que ainda são muito de fora para dentro do sistema educacional. E muitos heróis professores de empreendedorismo espalhados pelo Brasil fazendo um pedacinho desse papel, seja na escola, seja na universidade.

Quais são os programas de capacitação que a Endeavor tem colocado em prática?

Vale contar um pouco o que a Endeavor faz. A Endeavor tem um programa de atuação que apoia um grupo fechado de empreendedores, chamados Empreendedores Endeavor. Hoje são 130 empreendedores, que estão à frente de 73, 74 empresas. Essas empresas recebem mentorias de grandes lideranças empresariais brasileiras. Mentores voluntários como Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira, Pedro Passos, Fábio Barbosa. Teve um evento com o Lemann há pouco tempo, há um mês. A partir do aprendizado que a gente tem com essa interação entre mentores e empreendedores é que construímos um conteúdo prático. Afinal, nós estamos falando de empreendedorismo, e empreendedorismo e teoria são mundos um pouco distantes. Esse conteúdo prático é disponibilizado no nosso principal canal, que é o portal da Endeavor, o Endeavor.com.br. Fechamos 2014 com quase 3 milhões de pessoas visitando o portal para consumir conteúdo de empreendedorismo. É vídeo, é e-book, é artigo, curso a distância, uma variedade de formas de consumo desse conteúdo. Esse mecanismo de formação de empreendedorismo a partir de aprendizados práticos causa um impacto enorme na sociedade. No fundo a gente tenta criar no Brasil a lógica de que um empreendedor bom é um empreendedor bem preparado. Isso só acontece se conseguirmos disseminar conhecimento. Esse é o primeiro pedaço do nosso trabalho, o mais importante e visível. Mas temos uma série de outros programas que são ou programas menores ou focados em um tipo de público específico. Por exemplo, a Endeavor é parceira do InovAtiva, que é um programa do MDIC para capacitar e monitorar empresas ainda pequenas, mas com potencial de inovação envolvido. A gente entra com o processo de mentoria, é um modelo que pode multiplicar impacto. Temos um piloto rodando em Santa Catarina e no Paraná com 70 empresas que são as mais avançadas atendidas pelo Sebrae nesses estados. Queremos levar cultura de mentoria para essas empresas, porque, se elas conseguirem encontrar uma porta de saída para deixarem de ser micro ou pequenas para se tornarem médias, pensarem em ser grande um dia, vamos gerar muito mais impacto. Estamos apoiando 50 empresas apoiadas pela Apex que têm um grau de internacionalização muito alto, mas que precisam pensar melhor a lógica de negócios. Estamos apoiando 40 empresas em Minas Gerais que estão vindo da Rede Mineira de Inovação, que são as incubadoras do estado, sempre graduadas ou graduandas com alto potencial inovador: é uma parceria entre a Endeavor e o Sebrae-MG. O que fazemos é rodar o motorzinho de mentoria na prática com os empreendedores. Para ter uma empresa como Empreendedor Endeavor, que são empresas de porte médio, algumas até de grande porte, que estão crescendo aceleradamente, gerando emprego, impactando muito seu setor, é preciso ter um conjunto de empresas no seu país que sejam capazes. Todos esses programas que eu mencionei estão embaixo de um guarda-chuva “promessas”: são empresas que têm muito potencial, que ainda não estão prontas para receber apoio continuado da Endeavor mas que acompanhamos durante um período pré-estabelecido. No caso, cerca de seis meses, com parceiros que nos ajudam a encontrar essas empresas e a financiar esses programas. Isso tem gerado um impacto maravilhoso. Você consegue multiplicar a quantidade de exemplos no Brasil. No Bota Pra Fazer, que é um programa focado exclusivamente nos universitários, a gente capacita professores pra serem melhores professores de empreendedorismo e a capacitar diretamente os alunos. Temos dados que mostram que as empresas de alto crescimento vêm com mais frequência de pessoas com uma formação melhor. Se pegarmos esses universitários que ainda não se formaram e já darmos uma dose de empreendedorismo na veia, formaremos uma geração com potencial de ser empreendedores melhores quando começarem.

Como funciona o processo de seleção Endeavor? É a partir dos programas que você citou?

Também. Temos um desejo de que cada vez mais empresas venham desses programas de aceleração, mas hoje a maioria ainda não vem. Eles são muito novos. A grande maioria das empresas que a Endeavor seleciona chega por indicação. Temos uma rede de mentores, de “olheiros”, que são caras que estão no dia a dia, investidores, especialistas em determinados segmentos. Fica muito fácil para algumas dessas pessoas indicarem uma empresa que eles acharam bacana. Também conversamos com grandes empresários para conhecer quem são os fornecedores que estão se destacando dentro da cadeia, tentamos cruzar uma série de informações, tanto de pessoa física quanto jurídica. Presença de casos na imprensa é uma outra fonte, feiras setoriais também. Tentamos combinar isso com o programa de promessas, para tentar encontrar as empresas com mais potencial. É difícil. A gente aprova, por ano, de 10 a 15 empresas. A meta desse ano é aprovar 13. Para isso, precisamos olhar umas duas mil, mais ou menos, para depois trazer 300 a 400 para serem entrevistadas. Na primeira entrevista aprovamos cerca de 100 e depois, com essas, fazemos o processo formal, que dura muito tempo, de seis a oito meses. Há uma série de entrevistas com pessoas diferentes da rede de mentores da Endeavor, baterias de painéis de apresentação, testes de ética, avaliação financeira. Temos que ter a certeza que estamos escolhendo um exemplo para receber nosso selo. Se eu trabalho num modelo de disseminação de histórias, tenho que ter certeza que minha história é não só inspiradora, mas que também pare de pé do ponto de vista da ética, dos valores, do ponto de vista da trajetória empresarial de cada empreendedor. Sabemos que cada um dos empreendedores que apoiamos tem potencial para ser exemplo para uma pessoa que vai ouvir essa história, seja porque a sua trajetória é parecida, seja pelo tipo de negócio, seja pela região. Tentamos ter histórias que consigam tocar cada uma das pessoas que queiram empreender no Brasil e temos que ter um pouco de cuidado com isso.

Ser uma empresa de alto impacto é um dos requisitos para ser escolhido como Empreendedor Endeavor?

Sim. O grande foco da Endeavor é multiplicar as empresas de alto impacto no Brasil. Hoje são 35 mil empresas chamadas de empresas de alto impacto, é um número do IBGE que a Endeavor produz junto todo ano. Essas 35 mil empresas são responsáveis pela criação de quase 60% de toda a carga líquida de novos empregos da economia brasileira. A grande performance que empurra e sustenta o desempenho econômico do Brasil vem de um grupo muito restrito de empresas, menos de 1%, e que não são empresas grandes. 90% desses 35 mil são pequenas e médias. Nosso sonho é que esse número se multiplique. O benchmarking que a gente utiliza aqui é olhar para uma economia madura, como a americana. Como funciona na economia americana? No auge da crise em 2008, 2009, no pior momento, havia cerca de 90 mil empresas de alto crescimento. Hoje já deve estar em 150 mil. Nosso desafio como causa, não como organização, porque a causa é maior que a Endeavor, é saber o que precisamos fazer para que o Brasil tenha 100 mil empresas de alto crescimento. Uma economia sólida, inovadora, que pense globalmente, que gere impacto além das fronteiras do Brasil, que traga novos produtos e serviços, que seja disruptiva com a indústria que já existe. Para isso precisamos de um tipo muito específico de empreendedor, o cara de alto impacto. Se queremos impacto, temos que ir em quem tem mais potencial e dar toda força, toda energia para que esse cara cumpra seu objetivo. Mas sem deixar de lado o fato de que não chegaremos em 100 mil empresas só com as que estão aí. A gente precisa que mais pessoas empreendam com qualidade, pensando grande, em inovação. Por isso o trabalho da Endeavor se estende pra um público maior. Ao capacitar 3 milhões de pessoas online por ano, o que estamos tentando fazer é mostrar para cada um que acessa nosso portal que, no fundo, quem vai botar o limite é você. Estamos em um momento muito peculiar no Brasil, em 15 anos conseguimos fazer que as pessoas entendam que empreender tem a ver com botar para fazer, tirar do papel, construir algo de concreto. Mas agora estamos indo para uma segunda fase, não só da história da Endeavor, mas do movimento empreendedor brasileiro, que é parar de discutir só o começo. É o momento de falar em ir mais longe, de inovar mais, empregar mais pessoas, ir para outro país, concorrer globalmente. Isso ainda não chegou no Brasil. Tem esses heróis, empresas que já conseguiram chegar em um patamar maior, mas acreditamos que no país há potencial para muito mais. Queremos mostrar que alto impacto não tem nada a ver com você ser mais ou menos elite e sim com ter um potencial tremendo de impactar pessoas com sua habilidade, com seu conhecimento, sua energia, seu sonho e fazer com que isso se transforme em um negócio que resolva o problema de muitas pessoas. Esse é o momento em que a gente está, começar a ver o empreendedorismo como algo que vai gerar um impacto transformacional na sociedade.

O ambiente não anda favorável para o empreendedorismo de alto impacto…

Para nenhum empreendedorismo, nem de baixo impacto. A gente tem muita coisa para melhorar. Temos uma cultura de não olhar para o empreendedor como agente importante no desenvolvimento econômico. Isso faz com que todos os processos que envolvam burocracia, impostos etc. sejam muito complicados e onerosos para o empreendedor. Às vezes não é nem tanto pela taxa ou pela alíquota. O pior é ir dormir e acordar pensando no processo que ele tem que cumprir sem conseguir fazer um planejamento mínimo de médio e longo prazo. Um exemplo simples é essa questão da desoneração da folha, que está indo e voltando. Não importa se a alíquota é 1%, 2%, zero, 2,5% ou 3%, mas como é que alguém consegue fazer previsão do seu negócio se a coisa muda a cada meio ano? Essa instabilidade de normas, essa insegurança jurídica é que tira o sono do empreendedor. Junta isso com um ambiente de negócios muito burocrático, com um sistema educacional que não forma boas pessoas para trabalhar e que faz com que o empreendedor tenha que concorrer para captar mão de obra de boa qualidade com empresas grandes que pagam salários muito altos. A conta não fecha. Enquanto não formar gente boa, enquanto não tiver um ambiente mais leve do ponto de vista da burocracia, enquanto não tiver um mecanismo tributário mais leve de transição não dá. Hoje a gente tem o Simples, o (ministro-chefe da Secretária da Pequena e Micro Empresa) Afif tem reiteradamente se mostrado a favor de uma regra de transição para que o empreendedor saia do Simples sem cair numa coisa muito complexa, que hoje impacta a vida do empreendedor. Se você não promover essas mudanças no Brasil, empreender vai continuar sendo uma coisa muito mais difícil que a média. Você tem um lado que é do empreendedor que está lá tentando montar seu negócio, muitas vezes o empreendedor de primeira geração, que nunca empreendeu antes. Se ele ainda tem que ser dragado por toda a dificuldade adicional do ambiente de negócios brasileiro, não vai avançar. A maior dicotomia que temos é ser a 7ª economia do mundo é o 120º ambiente de negócios. Não tem o menor sentido essa desigualdade tão grande, que segura o potencial do país de ser uma economia melhor, saudável, de gerar mais empregos, inovação. O ambiente de negócios é um problema, é uma âncora, mas não pode ser usado como desculpa. Tem 35 mil caras que com ambiente de negócios ruim, com juiz ladrão, com bola quadrada, regra mal feita e campo esburacado conseguem driblar e marcar gol. Como esses caras estariam performando se o ambiente fosse mais leve, se eles não tivessem que se preocupar tanto? Essa é a provocação que fazemos. E quantos que estão crescendo entre 10% e 20% poderiam estar crescendo entre 30% e 40%, mas estão com o freio de mão puxado por conta do ambiente de negócios? O ambiente de negócios mais leve gera um empreendedor naturalmente mais focado no que importa: desenvolver o produto, vender, expandir mercado, encontrar gente boa.

Quais ações tomadas em países como o Chile poderiam ser replicadas no Brasil para gerar um efeito a curto prazo?

O Chile entendeu que o empreendedorismo inovador fazia parte da equação para o país se tornar mais desenvolvido. O Chile tentou de tudo: diminuiu a burocracia, criou programas de inovação para atrair talentos internacionais, criou programas específicos de fomento à inovação, se abriu como sociedade para o tema. Não é só um programinha isolado dentro do governo. Teve um movimento concreto que impactou a sociedade. Lá existem programas ligados ao Ministério da Educação, à Corfo (Corporación de Fomento de la Producción), ao próprio governo federal, que promove uma educação empreendedora forte. Nunca é uma coisa só. É mais fácil, obviamente, manobrar no Chile do que em um país do tamanho, complexidade e desigualdade do Brasil, mas a experiência do Chile, se ela não pode ser um exemplo para o país inteiro, poderia ser exemplo para os estados. Isso não está acontecendo nem em estados. O empreendedorismo no Brasil não está na agenda como no Chile, na Colômbia, ficando só entre os vizinhos. Na Colômbia há uma agenda em todos os níveis de governo: no central, nas províncias, nas cidades. Medellín tem uma história incrível de transformação depois de todo o problema de tráfico, baseada em empreendedorismo e inovação. Há uma consciência muito clara. No final do ano passado a gente soltou um estudo de cidades empreendedoras, que compara índice de empreendedorismo em cidades brasileiras. Florianópolis se destacou nesse estudo, mas se percebe que lá existe uma cultura há 20, 30 anos. Não é uma canetada que vai resolver. Precisamos da sociedade, dos empreendedores, dos investidores, das universidades, de muita gente. O empreendedorismo nas universidades brasileiras ainda está na idade da pedra. Não tem essa preocupação de entender que em algum momento da sua vida como profissional você pode ser obrigado ou decidir que é o dono do seu próprio nariz. Isso não deveria ser uma responsabilidade só do sujeito.

DCI-SP