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Crise de confiança chega à economia brasileira

Fonte: Redação Terra

Marina Mello
Direto de Brasília

A crise financeira internacional ainda não surtiu forte efeito nos números da economia brasileira. O crédito, por exemplo, que é grande preocupação do governo, subiu em setembro e atingiu o maior percentual do Produto Interno Bruto (PIB), em 14 anos, divulgou nesta semana o Banco Central. Contudo, entre os empresários o sentimento de incerteza cresce e muito mais do que fatos concretos, como a falta de liquidez, essa insegurança pode frear o crescimento econômico brasileiro dos próximos meses.

A crise de confiança pode ser comprovada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em números divulgados esta semana pela pesquisa de sondagem industrial. O índice utilizado para medir a expectativa de demanda no setor caiu de 61,2 pontos em julho para 53,5 pontos em outubro.

Já a expectativa do empresário da indústria brasileira em relação à economia do País durante os próximos seis meses, também medido pela CNI, passou para pessimismo pela primeira vez desde julho de 2005.

Para Renato da Fonseca, economista da entidade, a crise de confiança tem efeitos de “bola de neve” já que quando o empresário fica pessimista ele deixa de investir, deixa de comprar matéria-prima e de contratar novos profissionais, situações que afetam o crescimento da economia.

“Ao criar essa crise de confiança, você gera uma retração no consumo, uma retração no investimento, e à medida que essa a crise vai espalhando-se na economia, você tem uma retração do crescimento. Aí começa a afetar a confiança, ou seja, o medo do desemprego começa a afetar, as pessoas começam a reduzir o consumo, e é uma bola de neve. (…) O empresário já está com a confiança muito baixa. Quando você está com receio do que vai acontecer, você não vai investir, investimento é risco, é uma aposta no futuro e se você acha que o futuro é incerto, você não investe”, explicou.

Na visão de Fonseca, existe uma forte tendência desta crise de confiança ficar mais forte, o que deverá afetar o crescimento da economia.

“Certamente a tendência é piorar, porque a queda na demanda acaba acontecendo de verdade. Se as empresas param de investir, param de comprar e reduzem o ritmo de contratação de pessoas, você tem menos renda entrando na economia, e com isso, o ritmo de crescimento cai e as empresas dizem: olha só, eu estava certo, está caindo o crescimento”, afirma.

A crise no Brasil
Por enquanto, economistas apontam a falta de liquidez no mercado como a única conseqüência nítida da crise internacional no Brasil.

O economista da LCA Fernando Sampaio explica que o problema só afetou diretamente, por enquanto, as empresas que realizaram operações financeiras “muito arriscadas” relacionadas a câmbio, como Sadia, Aracruz e Votorantim.

Sampaio ressalta que as medidas tomadas pelo governo brasileiro ainda não surtiram efeito desejado.

“Não é justo dizer que o governo não fez nada, ele soltou um caminhão de medidas, mas aparentemente não foi suficiente, porque a crise vem com muita velocidade. Tem uma guerra em curso, principalmente no mercado cambial, e a impressão que se tem é de que essas medidas não foram suficientes”, avalia.

Apesar de o governo ter sido criticado por manter uma postura otimista em relação à crise, Sampaio avalia que este é o papel de qualquer Estado diante de situações problemáticas.

“Qualquer governo tem a responsabilidade de zelar pelas expectativas. Remar contra o pessimismo é papel do governo em qualquer lugar”, afirmou.

Mesmo avaliando que a situação não é das melhores, principalmente para empresas que têm suas vendas baseadas em crédito – como a idústria automobilística, setor de construção etc – ele acredita que cabe ao empresário ter jogo de cintura para não deixar que o medo acabe tirando sua empresa do mercado.

“Acredito que existe motivo para cautela e não para pessimismo. Uma coisa é ficar com o pé atrás, outra coisa é tirar o time de campo. Existe forte razão para cautela, mas não para tirar o time de campo”.