Notícias


Cresce presença de brasileiras na Argentina

Valor Online

Depois de grandes grupos, companhias intermediárias montam bases de produção no país vizinho

Daniel Rittner, Marta Watanabe e Murillo Camarotto

Muito além de gigantes da indústria ou do agronegócio – como Petrobras, Camargo Corrêa, Gerdau e JBS -, a chegada de empresas intermediárias fez aumentar fortemente a presença brasileira na Argentina desde 2002, quando o país vizinho ainda sentia os efeitos da pior crise econômica de sua história. De lá para cá, o número de companhias verde-amarelas que se instalaram no segundo maior mercado da América do Sul subiu de 60 para 250, segundo levantamento da consultoria Abeceb.

O movimento, que havia sido abortado com a recessão global, ganhou novo fôlego a partir da segunda metade de 2009. Desde então, empresas como a fabricante de baterias automotivas Moura, o laboratório Eurofarma e a Positivo Informática fincaram sua bandeira na Argentina.

Apesar da alta inflação, que alcança pelo quinto ano seguido o patamar de dois dígitos e tem provocado uma escalada dos custos, elas escolheram o país para dar início ao processo de internacionalização. Outras empresas que já operavam há mais tempo, como a fabricante de implementos rodoviários Randon, reforçaram suas apostas e aumentaram recentemente seus investimentos na Argentina.

Curiosamente, no entanto, foram os anúncios de dois pesos-pesados – a Vale, com a exploração de cloreto de potássio em uma mina na Província de Mendoza, e o Banco do Brasil, com a aquisição do Banco Patagônia – que puseram o Brasil em uma situação inédita. Pela primeira vez, em 2010, o país liderou o ranking de investimentos anunciados na Argentina, de acordo com a Abeceb. Foram US$ 5,3 bilhões. A China, com a compra de metade da petrolífera Pan American Energy (PAE), aparece a seguir, com US$ 5 bilhões.

Hoje, em sua primeira viagem internacional no cargo, a presidente Dilma Rousseff encontrará sua colega Cristina Kirchner, em Buenos Aires. Elas deverão assinar cerca de 15 declarações conjuntas e memorandos de entendimentos em áreas diversas como cooperação nuclear, biocombustíveis e habitação. Um dos pontos altos será a criação do Foro Empresarial Brasil-Argentina, com reuniões periódicas, à semelhança do conselho entre CEOs do Brasil e dos Estados Unidos. "Será um âmbito para discutir e fazer propostas ao processo de integração", definiu o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Ênio Cordeiro.

Algumas empresas, como a fabricante de baterias Moura, com sede em Pernambuco, enfrentaram tantas barreiras às suas exportações para a Argentina que resolveram escapar do problema instalando-se no país. Devido à instabilidade das regras no comércio bilateral de autopeças, a direção da Moura decidiu há pouco mais de um ano pela abertura de uma fábrica no município de Pilar, na Província de Buenos Aires. "Me venceram pelo cansaço", disse o presidente-executivo da empresa, Paulo Gomes de Sales. Ao custo de US$ 30 milhões, a unidade terá capacidade para 1 milhão de baterias por ano e deverá ser inaugurada no próximo mês de novembro.

A Eurofarma, quinta maior indústria farmacêutica do Brasil, também começou pela Argentina seu processo de internacionalização. Com o objetivo de estar presente em 90% do mercado latino-americano até 2015, a empresa adquiriu o controle do laboratório argentino Quesada, em agosto de 2009. A transação marcou a retomada dos investimentos brasileiros depois da recessão global, iniciada no ano anterior. Sem divulgar o valor do negócio, a Eurofarma comprou 95% da Quesada, que tem foco nas áreas de cardiologia e gastroenterologia, com cerca de 60 funcionários. Depois, anunciou ainda aquisições de laboratórios no Uruguai e no Chile.

O menor custo tributário, o aço a um preço mais baixo e o peso argentino desvalorizado em relação ao dólar criaram cenário ideal para a Randon Implementos fazer da fábrica instalada em Rosário, na Província de Santa Fé, uma plataforma de exportação para países da América do Sul, como Uruguai, Chile e Paraguai. A fábrica opera desde 2005, mas foi somente no ano passado que ela passou a fazer exportações. "Foi uma mudança estratégica", diz Norberto Fabris, diretor-executivo da Randon.

Foi em 2010, segundo Fabris, que a fábrica em Rosário, embalada pelo crescimento econômico brasileiro e dos vizinhos sul-americanos, deixou de ter capacidade ociosa e, além de produzir para o mercado argentino e exportar para o Cone Sul, vendeu caixas de semirreboques basculantes para o Brasil. Em Rosário, a Randon produz atualmente reboques e semirreboques graneleiros, de carga geral e basculante. Das linhas da fábrica argentina saem três dos quatro itens mais vendidos pela empresa aos demais países da América do Sul, região que representa 60% das exportações.

A ideia da empresa é expandir a produção na Argentina. Investimentos totais de US$ 8 milhões começaram a ser desembolsados no ano passado e prolongam-se até o ano que vem para aumentar a capacidade produtiva na Argentina em 67%. Segundo o executivo, a expansão resultará em maior fabricação local de componentes atualmente importados do Brasil. Apesar da estreia da fábrica em Rosário no mercado internacional, afirma Fabris, a unidade mantida em Caxias do Sul (RS), berço da empresa, deve ainda continuar a ser o maior ponto de embarque da companhia. "Temos um portfólio muito grande e há itens inviáveis de serem fabricados na Argentina, como as carretas frigoríficas, por exemplo", conta.

Apesar dos negócios crescentes, vários executivos ouvidos pelo Valor reclamaram do aumento de custos no país e dos reajustes salariais, que têm rondado o patamar de 30% – índice próximo ao da inflação anual.