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Cresce no país a demanda por um novo perfil de controllers

Valor Online

Por Luiza Dalmazo, de São Paulo

 aquecimento da economia brasileira, a rigidez das novas regulamentações contábeis e também a adoção de práticas de governança corporativa estão fazendo com que o controller, profissional até então com pouca visibilidade nas companhias, ganhe um novo status. Uma prova da sua crescente importância nas corporações é que hoje 90% das áreas de negócios o consultam antes de tomar suas decisões, segundo pesquisa que ouviu 100 das maiores empresas do país, realizada por Márcio Luiz Borinelli, para tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP).

Os salários também acompanham a ascensão desses profissionais aos territórios mais estratégicas das empresas. A Fesa Global Recruiters, especializada no recrutamento de executivos, diz que a remuneração dos controllers cresceu 30% entre 2007 e 2008 e a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) relata salários variando entre R$ 12 mil e R$ 15 mil.
Quem atua na área reconhece as transformações ocorridas recentemente. "A função dos controllers mudou radicalmente", diz Marcus Severini, diretor de controladoria da Vale. Eles basicamente continuam produzindo relatórios, mas além de olhar para dentro da organização, tiveram que ampliar seus horizontes. Hoje, eles também precisam observar a concorrência, participar de processos de produção, analisar os cenários econômicos e políticos do mercado nacional e estrangeiro e até desenvolver oportunidades. Com 27 anos de experiência na área de controladoria e há quatro como diretor, Severini, 50 anos, afirma que sua rotina mudou. Hoje ela inclui ajudar a empresa a se adequar a leis brasileiras e internacionais, garantir o sucesso de projetos de abrangência internacional, dar suporte à captação de recursos, lidar com diferentes culturas, entre outras obrigações.
"A visibilidade de quem atua no cargo tem aumentado muito, pois trata-se de um profissional que conhece finanças, entende a fundo os processos da organização, os produtos, os planejamentos e sabe fazer bons relatórios", resume o vice-presidente da Anefac, Sidney Matos.

Entretanto, há outros fatores determinantes para que os controllers ganhem notoriedade. O primeiro é a rigidez dos processos. Depois dos escândalos financeiros da Worldcom e Enron – que resultaram na criação da lei Sarbanes-Oxley -, o acompanhamento numérico dos processos tornou-se mais próximo e detalhado. As novas regulamentações exigiram um controle maior dos resultados e das movimentações financeiras das empresas com capital aberto nas bolsas americanas, com implicações que comprometem pessoalmente CFOs e CEOs.

Do lado brasileiro, a lei 11.638, conhecida como lei das S.A., somada a um momento de crescimento da economia nacional – o que levou a um boom de empresas abrindo capital na bolsa de valores nos últimos dois anos -, também criou novas atribuições para os controllers. Eles passaram a cuidar do levantamento das informações da parte societária. "As exigências legais demandam habilidades contábeis e destacam ainda mais a parte estratégica do trabalho desses profissionais", avalia Denys Monteiro, sócio da Fesa Global Recruiters.
A pesquisa de Borinelli comprova as alterações no perfil da profissão: 70% dos entrevistados são responsáveis pela contabilidade societária e 88% daqueles que atuam na área cuidam também da contabilidade gerencial (para apoio a tomada de decisão interna). Como a importância da profissão aumentou, por conseqüência também subiu a demanda por pessoas que desempenhem a função – ingredientes que inevitavelmente fazem crescer a faixa salarial dos controllers.
Paulo Coutinho, sócio da empresa de recrutamento MindSearch, conta que recentemente selecionou para a área de marketing de uma empresa do setor de consumo – departamento com orçamento anual de 300 milhões de reais -, um controller com salário de diretor: R$ 25 mil, mais benefícios. O executivo diz que a alta compensação financeira já não é rara em grandes empresas, por causa do acúmulo de responsabilidades. "Eles assumem tarefas da linha de frente das companhias e fornecem informações de apoio a decisões estratégicas", afirma Coutinho. As novas atribuições mostram que esses profissionais deixaram para trás trabalhos de consolidação de números, mais dirigidos à contabilidade.
André Felizardo, de 37 anos, é outro exemplo do novo perfil de quem atua na área. O atual controller da Eaton, especializada em equipamentos hidráulicos, de aeronáutica, componentes elétricos e outros, trabalha há 18 anos com controladoria e acompanhou as mudanças na profissão. "Antes o contador era como um médico legista, avaliava números da empresa que faziam parte do passado, enquanto hoje a tarefa é parecida com a do pediatra, que tenta prever problemas do futuro", compara. Felizardo era gerente de contabilidade até dezembro de 2006, quando concluiu o MBA Controller da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) e participou de um processo interno para se tornar controller. Quando conseguiu a vaga, ele sabia que suas responsabilidades na área haviam aumentado. "Eu preciso saber da situação do mercado interno e externo, da condição dos países dos quais importamos componentes para os nossos produtos", explica. Se ocorrer uma catástrofe natural ou uma instabilidade social, é dever do controller acompanhar, como aconteceu recentemente, numa greve dos funcionários do porto de Vitória (ES), que atingiu diretamente as vendas da Eaton.
Além da visão global de mercado, é preciso conhecer bem todas as áreas da empresa, desde o planejamento até o fluxo de caixa. "O trabalho do controller hoje é de suporte à decisão e por isso é dinâmico e demanda capacidade de consolidação de conhecimentos e dados", afirma Matos, da Anefac. Segundo o executivo, as companhias ganham com o olhar amplo desse profissional, que pode assumir funções de maior responsabilidade no futuro, mais próximas do topo. "Aconteceu comigo", revela. Em 2005 Matos foi contratado na JCB, fabricante de máquinas para construção civil, como controller e, em março de 2008, passou a responder pela gerência-geral da companhia no Brasil.
Felizardo, da Eaton, também teve seus ganhos, apesar de ter passado a trabalhar 14 horas por dia. "Meu salário subiu 100% de março de 2007 para cá", conta. Ele acredita que houve também um rejuvenescimento de seus companheiros de trabalho. Felizardo já teve um dos seus sete colegas (de outras plantas) com apenas 26 anos de idade na controladoria. O executivo observa que a idade média dos controllers caiu de 45 para 35 anos na última década.
Quem está na área percebe as novas oportunidade na carreira. A 30ª turma de MBA Controller que começou nessa semana, na Fipecafi, tem este ano 22 inscritos, o que representa um aumento de 32,7% em relação à turma de agosto de 2007, que, por sua vez, ficou 27% acima do total de matriculados no mesmo período de 2006. Como reforça Welignton Rocha, professor da faculdade de economia da USP e diretor da Fipecafi, o origem da formação desses profissionais também está se diversificando. A tese de Borinelli mostrou que 40% dos controllers eram formados em administração ou engenharia. Na turma de MBA dessa semana, 13,6% são formados em direito. A graduação, portanto, não é o elemento mais importante para quem quer seguir a profissão. O principal é ter condições de garantir a eficiência do processo de gestão, o significa saber um pouco de tudo o que acontece. "As pessoas riem de mim, mas os controllers viraram especialistas em generalidades", diz Severini, da Vale.