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Cinema brasileiro começa a virar um bom negócio

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Portal Exame

Produtores lucram ao criar novos modelos de financiamento e escolher temas mais populares para os filmes

Beatriz Olivon, de EXAME.com

São Paulo- Somente o cinema poderia unir dois filmes tão opostos quanto Nosso Lar, cheio de mensagens de paz e fraternidade, e Tropa de Elite 2, um verdadeiro pancadão sobre o lado escuro da polícia carioca e seus vínculos com políticos corruptos e traficantes. E o que os aproxima é algo bem mais prático: são os dois maiores sucessos do cinema nacional em 2010, e recorreram a fontes inovadoras de recursos para se bancar. Um sinal de que, após mais de uma década do chamado renascimento, o cinema brasileiro dá mostras de que começa a virar um bom negócio, com direito a lucro e tudo.

Até 28 de novembro, Tropa de Elite 2 havia arrecadado, nas bilheterias, 96,9 milhões de reais. O filme atraiu, até aquele dia, 10,3 milhões de espectadores. A película que retrata o Capitão Nascimento em uma nada monótona vida de burocrata pode se tornar, em breve, o filme nacional mais visto de todos os tempos. O recordista de público atual é Dona Flor e Seus Dois Maridos, que levou 10,7 milhões de pessoas aos cinemas em 1976.

E o Capitão Nascimento não está dificultando a vida apenas da bandidagem carioca – os concorrentes também não têm sossego. Para se ter uma ideia, o filme estrangeiro mais visto do ano, até aqui, é Shrek para Sempre, com 70 milhões de reais de renda e 7,3 milhões de espectadores, segundo a Ancine (Agência Nacional de Cinema). Nosso Lar vem em seguida na lista dos maiores filmes brasileiros do ano. Sua renda somava 36 milhões de reais, com 4 milhões de espectadores.

"O cinema no Brasil está vivendo sua melhor fase nos últimos 20 anos", afirma Paulo Sérgio Almeida, diretor da Filme B, uma consultoria especializada no setor. O bom momento não se limita apenas à volta do público. Em relação à bilheteria, essa é também a melhor fase da história, segundo Almeida. Esse ano, o consultor calcula que, pela primeira vez, será rompida a barreira de um bilhão de reais de arrecadação do mercado cinematográfico em geral, e de 200 milhões de reais de arrecadação do cinema nacional.

Na verdade, este já é um ano recorde. Até agora, a renda dos filmes brasileiros soma cerca de 180 milhões de reais. O valor já supera a marca anterior, de 134 milhões de reais, obtidos em 2003, segundo a Filme B.

Filmes fora-da-lei

Há um certo consenso de que a retomada do cinema nacional começou há cerca de 15 anos, com produções como Carlota Joaquina, Princesa do Brasil. Mas o que chama a atenção em Nosso Lar e Tropa de Elite 2 é o seu modelo de financiamento, que se afastou dos meios tradicionais de captação de recursos e apostou na parceria com investidores privados, que entraram como co-produtores – algo banal em Hollywood, mas praticamente inédito por aqui.

Até hoje,a principal fonte de recursos são a Lei do Audiovisual e a Lei Rouanet. A primeira criou um mecanismo de investimento regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O ponto é que muitas empresas olham para ela apenas como uma chance de abater impostos. Já a Lei Rouanet não incentiva, propriamente, o investimento, mas sim o patrocínio (em troca de retorno de marketing) ou a doação

Já os Funcines – Fundos de Financiamento a Indústria Cinematográfica – também são regulados pela CVM. A empresa participa de uma carteira de investimentos. As cotas de investimento são negociadas por meio dos certificados audiovisuais, que representam uma fatia da obra. Os papéis têm emissão e registro obrigatório na CVM. Pelos certificados, o investidor tem direito à participação no resultado comercial do filme.

Por isso, outra coisa que aproxima Tropa de Elite 2 de Nosso Lar é que ambos passaram ao largo desses mecanismos tradicionais e apostaram no capital privado. Os recursos vieram de produtores associados, em troca de participação nos resultados de bilheteria. No caso do Nosso Lar, um grupo de cinco pessoas fez investimentos no filme, segundo Iafa Britz, produtora do Nosso Lar, coordenadora de produção de Se Eu Fosse Você 2 e fundadora da Migdal Filmes. Já entre os produtores de Tropa de Elite, está o ator Wagner Moura, que incorpora o Capitão Nascimento.

"Uma coisa que tem aparecido mais no mercado são investidores que não usam a lei de incentivo", disse Britz. Esse tipo de financiamento direto já ocorreu no Brasil em outras épocas, "nos anos 60, 70, quando a economia do cinema era outra", segundo Almeida, da Filme B.

Novo passo

O modelo de renúncia fiscal foi importante para viabilizar o ciclo da retomada, mas o cinema brasileiro deve se tornar cada vez menos dependente de recursos de renúncia fiscal, segundo Manoel Rangel, diretor-presidente da Ancine.

"No Brasil, a primeira grande experiência fora das leis foi a do Tropa de Elite", diz Almeida, da Filme B. A película inovou ao fazer sua própria distribuição, ao invés de fazer um contrato com uma distribuidora para isso. "Agora a idéia é produzir juntando produção e distribuição, assim o produtor/distribuidor acaba ficando com o rendimento de cerca de 50% do produto. Mercado tem, mas não são todos os filmes que podem fazer isso", disse Almeida.

Tropa de Elite 2 e Nosso Lar puderam adotar essa ação por suas particularidades. O Nosso Lar já contava com um público garantido (os que praticam ou simpatizam com o espiritismo). Já Tropa de Elite 2 vinha de uma experiência negativa do vazamento do filme e consequente falta de resultado econômico, "o falso sucesso", segundo Almeida.

"O Tropa de Elite 2 criou o modelo de cinema como negócio", segundo Maurício Andrade Ramos, diretor geral da produtora Videofilmes O produtor do filme conseguiu motivar investidores e, com isso, quase criar uma regra de mercado, "uma possibilidade de lucro real para investimentos", diz Ramos. Se este modelo será a base de uma nova – e lucrativa – etapa do cinema brasileiro, somente os próximos episódios dirão.

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