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Cem países estão em vias de adotar o IFRS

Adriana Wilner, para o Valor, de São Paulo

 

 

Não faz muito tempo, o mundo financeiro reverenciava o padrão contábil americano como pilar da transparência corporativa. Mas a quebra da Enron e outras multinacionais mostraram a vulnerabilidade do US Gaap. Essas empresas encontraram muitas brechas no detalhado sistema dos EUA para pintar e bordar.

 

Em 2005, a União Européia resolveu adotar um modelo completamente distinto, o chamado IFRS (Padrões Internacionais de Demonstrações Financeiras). As normas contábeis IFRS são emitidas pelo International Accounting Standards Board (IASB), uma organização internacional sem fins lucrativos com base em Londres. O IASB conta, em seu sistema de governança, com especialistas do mundo todo, inclusive do Brasil.

 

 

Depois de ser abraçado por cerca de 7 mil empresas européias, o IFRS passou a receber adesões rapidamente pelo mundo. Cerca de cem países adotaram ou estão em vias de adotar o IFRS. E a previsão do IASB é que o número aumente para 150 nos próximos quatro anos.

 

 

O IFRS pegou por conta da sua facilidade de tradução global. O sistema americano é muito complexo, cheio de regras e exceções. Somente para a contabilização de receitas, o US Gaap contém mais de duzentas regras. Não é uma linguagem que pode se tornar universal. Com os mercados cada vez mais interligados, as empresas precisavam de um padrão único. Era muito custosa a tradução de normas contábeis de um país para outro. O IFRS não tem regras, mas princípios, como o que indica que os ativos e passivos devem ser contabilizados pelo valor presente. Em qualquer lugar do mundo, é possível entender o que isso quer dizer. Agora, como aplicar esse princípio – por exemplo, a que taxa fazer o desconto para o valor presente -, depende de cada situação. "A empresa tem que fazer uso do bom senso e depois precisa se justificar para o mercado, auditor e órgão regulador", diz Sérgio Romani, sócio no Brasil da Ernst & Young.

 

 

As empresas gostaram. É simples e dá flexibilidade. De acordo com a PricewaterhouseCoopers, enquanto a lei americana ocupa 25 mil páginas, o IFRS dá conta do recado em 2.500 páginas. "O IFRS é uma quebra de paradigma", diz Fabio Cajazeira, sócio da Price no Brasil. Entusiasta do IFRS, Cajazeira liderou um grupo da Price brasileira que, há dez anos, vem estudando o IFRS. Ele passou dois anos em Londres, entre 1999 e 2001. "Para mim, ficou claro que a convergência era inevitável", diz.

 

 

De acordo com estudo da Ernst & Young, nos países emergentes do grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), a adoção do padrão contábil internacional está adiantada. No Brasil, o IFRS começa a ser usado ainda neste ano. Na Rússia, em 2010. Na Índia, o processo deve estar concluído até 2011 e, na China, as normas contábeis estão em revisão para convergir com o IFRS. Na América Latina, o IFRS já é utilizado no Uruguai e no Peru e está em vias de adoção por Argentina, Chile, Colômbia e Equador.

 

 

Até os Estados Unidos, ao que parece, agora resolveram render-se ao modelo europeu. O órgão regulador e fiscalizador do mercado de capitais americano (SEC) abriu caminho, no fim de agosto, para que as empresas americanas migrem do US Gaap para o IFRS. O plano da SEC é que as multinacionais baseadas nos Estados Unidos migrem, voluntariamente, para o IFRS em 2010.