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Brasil vira maior comprador de dívida dos EUA com alta do real

Portal Exame

País investiu US$ 13,4 bilhões em notas do Tesouro americano, mais que qualquer outro país e quase o dobro das compras feitas pela China

Nova York e Brasília – O Brasil está se tornando o maior comprador mundial de títulos da dívida dos Estados Unidos mesmo após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, criticar as compras de Treasuries pelo Federal Reserve para estimular a economia americana.

Em abril, o País investiu US$ 13,4 bilhões em notas do Tesouro americano, mais que qualquer outro país e quase o dobro das compras feitas pela China, segundo dados compilados pelo Tesouro dos EUA. O Brasil elevou em 6,9 por cento o volume de títulos americanos em carteira, a maior expansão desde outubro de 2009, atingindo o recorde de US$ 207 bilhões. A China, maior detentora de Treasuries no mundo, e a Rússia estão reduzindo suas posições nesses titulos nos últimos seis meses.

As aplicações brasileiras em dívida americana disparam à medida que o Banco Central atua no mercado de câmbio para conter a alta de 44 por cento do real nos últimos dois anos e meio. O rendimento nos títulos de dois anos da dívida brasileira é mais de 12 pontos percentuais superior ao que pagam os papéis do governo americano com o mesmo prazo, o que atrai capital estrangeiro para o mercado local.

”Não há muito que se possa fazer com uma grande quantidade de dólares, a não ser comprar Treasuries”, disse Paul McNamara, que administra US$ 7,5 bilhões em ativos de mercados emergentes na GAM Investment Management Ltd. em Londres. “Apesar do Brasil estar preocupado com o enfraquecimento do dólar, o País olha para a situação com frieza – prefere pagar o preço e ter um certo nível de desenvolvimento industrial e emprego, sem se preocupar com a exposição.”

Reservas recorde

A diferença entre as taxas das Notas do Tesouro Nacional série F com vencimento em 2013 e as dos títulos americanos com prazo semelhante aumentou para 12,1 pontos percentuais, perto do maior prêmio desde dezembro de 2008, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Investidores que buscam oportunidades de rendimento mais alto que as taxas próximas de zero nos EUA e no Japão estão despejando dinheiro no Brasil, alimentando a alta do real. A entrada líquida de moeda estrangeira no Paí em transações comerciais e financeiras chegou a US$ 39,5 bilhões neste ano, superando o total de US$ 24 bilhões registrado em todo o ano passado, segundo o BC.

A autoridade monetária brasileira já comprou US$ 35,8 bilhões neste ano até meados de junho, mais que o dobro dos US$ 14 bilhões adquiridos no mesmo intervalo do ano passado, como parte dos esforços para evitar que o fluxo fortaleça ainda mais o real. As reservas brasileiras cresceram 16 por cento neste ano para o recorde de US$ 336 bilhões. Em 27 de abril, o dólar atingiu sua menor cotação desde agosto de 2008, a R$ 1,557.

"O Brasil tem mais reservas do que precisa”, disse Kevin Daly, que ajuda a administrar US$ 6,5 bilhões em fundos de mercados emergentes na Aberdeen Asset Management Plc, em entrevista por telefone de Londres. “Mas os fluxos são simplesmente enormes. O País tem que fazer algo para evitar que a moeda se valorize ainda mais. Essa é a realidade.”

A posição do País em Treasuries cresceu 11 por cento neste ano e dobrou desde junho de 2007. A China, maior credor dos EUA, comprou US$ 7,6 bilhões em dívida americana em abril, após reduzir suas posições por seis meses seguidos do valor recorde de US$ 1,18 trilhão para US$ 1,15 trilhão. A Rússia tem US$ 125 bilhões em Treasuries, contra US$ 176 bilhões que tinha em outubro.

Os dados de credores do Tesouro dos EUA agrupam todas as instituições de cada país que detenham seus títulos. O BC é o principal comprador no Brasil, com cerca de 90 por cento das posições do País, segundo Roberto Padovani, economista-chefe do Banco WestLB do Brasil SA.

Cerca de 82 por cento das reservas brasileiras estavam investidas em ativos denominados em dólar no fim de 2009, segundo o BC.

Tanto o Banco Central quanto o Ministério da Fazenda se recusaram a fazer comentários para essa matéria, de acordo com notas enviadas por por e-mail.

Real ‘caro’

Em 4 de janeiro, Mantega disse a jornalistas que os EUA estão tentando “derreter o dólar” com as compras de títulos do Tesouro americano para manter baixos os juros e incentivar o crescimento da maior economia do mundo.

“É de certa forma irônico, mas eles não têm muitas alternativas”, disse Jonathan Binder, diretor de investimentos da Consilium Investment Management de Fort Lauderdale, no estado americano da Flórida, em entrevista por telefone. “O Brasil tem feito intervenções no mercado de câmbio e, como resultado, acabou com muitos dólares e Treasuries. O País está olhando da perspectiva de que o real é agora a moeda mais cara do mundo.”

O real está 49 por cento mais caro que seu valor justo, segundo o Índice Big Mac da revista britânica The Economist, que compara preços do principal sanduíche da McDonald’s Corp. Em todo o mundo.