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Brasil pode ter juro de um dígito em 2009, afirma Barclays

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Banco vê crescimento do PIB de só 0,9% neste ano e condições para queda agressiva da taxa Selic

Por Fernando Antunes

 

Portal EXAME  O banco britânico Barclays considera que a taxa de juros básica brasileira deve fechar 2009 em 10,25% ao ano, ou seja, 3,5 pontos percentuais abaixo do atual patamar. Em relatório que reviu as próprias estimativas apresentadas em meados de dezembro do ano passado, a instituição também afirmou que um corte para menos de 10% não pode ser descartado. Desde 1996, quando o BC começou a divulgar uma meta para a taxa Selic (o juro básico da economia brasileira), o menor patamar já alcançado foi de 11,25% ao ano, entre setembro de 2007 e abril de 2008.

Em sua análise, o banco afirma que a crise financeira internacional foi muito prejudicial para a produção industrial do país. Porém, propiciou uma menor pressão inflacionária. Esses dois ingredientes, segundo o Barclays, seriam suficientes para o Copom (Comitê de Política Monetária) mudar sua política fiscal conservadora e aplicar agressivas reduções nos juros, principalmente no primeiro semestre.

A previsão da instituição é que o BC reduza já na próxima reunião do Copom – marcada para a próxima semana – a taxa Selic em 0,75 ponto percentual. Esse mesmo índice de queda, segundo o banco, seria repetido nas reuniões de março, abril e junho, e apenas no encontro de julho a redução cairia para 0,5 ponto percentual. Caso essa previsão se confirme, a taxa de 10,25% ao ano nos juros básicos seria apenas mantida até o final do ano.

A análise do banco britânico para a taxa básica é mais agressiva que a média do mercado, segundo a última pesquisa Focus divulgada na segunda-feira (12) pelo BC. O levantamento com economistas estima que o Copom vá reduzir em 0,5 ponto percentual a taxa de juros na próxima reunião, e levaria para uma Selic de 11,75% ao ano até o fim de 2009.

O Barclays admite que derrubar a taxa Selic para patamares inéditos implica em riscos, mas lembra que a política monetária brasileira já atingiu maior maturidade e lembra que o México e o Chile – que usam uma política de juros parecida há mais tempo – já experimentam cortes nos juros mais agressivos em épocas de desaceleração econômica persistente.

Atividade econômica

Sobre o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para este ano, os analistas do Barclays estão mais pessimistas que o mercado e preveem expansão de apenas 0,9%. Já o Orçamento da União prevê crescimento do PIB em 4% para 2009, o Banco Central espera 3,2% e a média dos economistas, 2%.

O principal fator negativo destacado pelo Barclays trata da forte retração da atividade econômica no país no quarto trimestre do ano passado, tendo se agravado em dezembro. Em seu monitoramento, o banco acredita que a atividade econômica caiu 3,6% nos últimos três meses na comparação com igual período imediatamente anterior. A queda no consumo de bens duráveis (como veículos e eletrodomésticos) e o ajuste nos investimentos sugerem essa forte retração do PIB. E os dados mais recentes do setor manufatureiro, de papel para embalagens, de consumo de energia e de tráfego de veículos sugerem que uma recuperação mais firme só virá no segundo semestre deste ano.

Como aspecto positivo, o relatório destaca ainda que a inflação subiu abaixo do esperado nas últimas semanas por causa da redução da atividade econômica. Nem a forte desvalorização do real pressionou os preços. O banco aponta uma desaceleração mais acentuada nos alimentos – que foi um grande vilão em 2008. Mesmo que houvesse uma nova onda de pressão inflacionária, o Barclays lembra que os preços da gasolina no país ainda estão muito acima da média mundial e isso poderia ser utilizado pelo governo para controlar a taxa de inflação. A previsão é que o IPCA (principal índice de preços ao consumidor) feche este ano em 4,6%, ou praticamente no centro da meta do governo.

O argumento mais sólido contra uma forte redução dos juros, segundo o Barclays, é que a economia brasileira precisa se desacelerar para não colocar pressão sobre as contas externas. O Brasil já experimentou uma rápida desvalorização do dólar, com a moeda cotada acima de 2,30 reais nos últimos dias. Se a economia continuar aquecida, isso deverá levar a um aumento das importações que tenderia a colocar ainda mais pressão sobre a taxa de câmbio em um ambiente de queda dos preços das commodities, aversão estrangeira a investimento de maior risco como os títulos e ações brasileiras e aumento do déficit das contas externas. "Sem um ajuste da demanda doméstica e seu efeito sobre as importações, a necessidade de financiamento externo passaria a ser grande demais", diz o banco. Nesse cenário, o BC teria de conter a queda da taxa de juros para atrair capitais – e ficaria impossível chegar à Selic de um dígito.