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Brasil paga juros mais elevados do que os países com mesmo rating

O mercado internacional está exigindo do Brasil juros mais elevados do que os cobrados de países com mesmo rating. “O mercado discorda das agências de avaliação de crédito porque o investidor vê risco”, afirmou a presidente da Standard & Poors (S&P), Regina Nunes, ontem, no seminário “Reavaliando o risco-Brasil”, promovido pelo Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pelo jornal Valor Econômico.

Durante muito tempo, as agências de rating foram acusadas de avaliarem o Brasil de modo mais conservador do que o mercado. Há dois meses, porém, a S&P e Fitch elevaram de estável para positiva a perspectiva do rating soberano, mantendo a nota “BB-” a três degraus do esperado grau de investimento (“investment grade”); e a Moodys alinhou-se às demais, elevando a nota de classificação do país de “B1” para “Ba3”.

Segundo Regina, “países com o rating BB- como o Brasil estão pagando 270 pontos-base acima dos títulos do Tesouro americano. Já o Brasil está pagando 337 pontos-base”. Ontem, esse preço, medido pelo índice Embi+ do JP Morgan Chase, estava ainda mais elevado, a 345 pontos-base, ou cerca de 75 pontos-base acima do esperado.

O rating do Brasil acaba afetando até mesmo empresas melhor avaliadas. A Vale do Rio Doce, por exemplo, obteve o “investment grade” das agências como a Moodys e a S&P, superando o teto soberano. Mas, ela tem alguns índices de desempenho melhores do que concorrentes que receberam notas mais elevadas por serem de países também melhor classificados, afirmou o diretor de finanças corporativas da empresa, Guilherme Cavalcanti, presente ao seminário.

Com a mexicana Cemex aconteceu o mesmo, lembrou: a empresa reduziu em 80 pontos-base seu custo de captação ao obter o “investment grade”, mas ganhou mais 280 pontos-base quando o México conseguiu o mesmo.

A presidente da S&P relacionou entre os motivos da desconfiança do investidor a carga fiscal ainda elevada e uma de suas consequências, a informalidade da economia, e o juro real alto.

O secretário do Tesouro, Joaquim Levy, defendeu o ajuste brasileiro. Com um discurso afiado após sucessivos encontros com investidores estrangeiros para atrair recursos para o país – no início do mês faz mais uma apresentação, desta vez, na Ásia – Levy ressaltou os grandes avanços no ajuste externo. “A dívida deixou de ter sensibilidade ao câmbio. A Rússia ganhou destaque ao afirmar que, no próximo ano, vai pagar metade da dívida com o Clube de Paris. O Brasil vai promover uma faxina geral e pagar toda a dívida com o Clube de Paris, disse.

Além disso, vai reduzir a rolagem da dívida externa a 70% dos vencimentos em 2006 e 2007.

O secretário do Tesouro chamou a atenção para a maior distribuição de renda, que considerou “elemento de estabilidade”.

Do lado fiscal, Levy rebateu as críticas de que o ajuste foi feito às custas do aumento da carga fiscal. Segundo Levy, isso ocorreu apenas em um primeiro momento. “Após 2003, a carga tributária estabilizou”, disse, e houve avanço na contenção dos gastos.

“As despesas correntes não precisam ser cortadas mas sim disciplinadas, de modo a não crescerem mais do que a economia. Isso está na LDO”, explicou.

Está havendo também uma importante contribuição dos estados e municípios, equivalente a 1,1 ponto do superávit primário de 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB) obtido em setembro. Levy afirmou que, mantidas as atuais condições, a relação entre a dívida líquida do setor público e o PIB vai cair para 40% em 2010, levando em conta as projeções do mercado para a Selic, um crescimento da economia entre 3,5% e 4% e um superávit primário de 4,25%. Esse indicador superou 60% em 2002 e está em 51,3%.