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As empresas estão salvando o País

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Entrevista com o ex-diretor de recursos humanos do Chase Manhattan, Alfredo Assumpção

Hugo Cilo

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“A Microsoft recruta de 25% a 30% de seus talentos no mercado todo ano”. Empresa renova seu pessoal para manter a criatividade

O recente crescimento da economia brasileira e a enxurrada de investimentos estrangeiros transformaram o País num oásis para jovens talentos. A declaração soaria como retórica se não partisse de um dos mais influentes headhunters do mundo, citado em ranking da revista Business Week. CEO da Fesa – especializada em garimpar mão-de-obra altamente qualificada para grandes empresas –, Alfredo Assumpção, ex-diretor de recursos humanos do Chase Manhattan, não esconde o entusiasmo quando fala da guinada brasileira no mundo corporativo. “O Brasil é a bola da vez. Não vejo nada que possa nos atrapalhar nesse momento.” Em entrevista à DINHEIRO, Assumpção traça um cenário otimista para o mercado de trabalho e fala do desafio das empresas de encontrar profissionais num mercado em que, segundo ele, sobram vagas porque há um apagão de talentos.

Dinheiro – Por que o Brasil passou de um mercado pouco sedutor profissionalmente para um lugar cobiçado pelos executivos do mundo todo?

Alfredo Assumpção – Basicamente, pelo potencial de ascensão. O Brasil cresceu, conquistou o status de investment grade e tem recebido muito investimento direto. Se empresas vêm para cá, cresce a demanda por executivos. Os maiores mercados, principalmente Estados Unidos e Europa, vivem um momento de incertezas. Lá fora, os países já cresceram o que tinham que crescer. Assim, o País tornou-se um excelente lugar para se trabalhar. O Brasil é a bola da vez.

Dinheiro – O Brasil estava pre- Entrevista / Alfredo Assumpção parado para essa mudança?

Assumpção – Não. Sob o ponto de vista de qualificação, há uma defasagem muito grande. Isso ocorre porque durante muito tempo só se falava em apagões de infra-estrutura, de eletricidade, de aeroportos, de portos, de estradas. Discutia-se de tudo. Ninguém falava de pessoas, de talentos. Agora há escassez de líderes. Sobram vagas.

Dinheiro – Onde foi que o Brasil errou para enfrentar hoje um apagão de talentos?

Assumpção – O Brasil existe como uma democracia há 25 anos apenas. A mentalidade dos políticos emperrou a evolução do País. Hoje, a iniciativa privada entra no mundo da educação. Temos executivos muito bons treinando jovens talentos. Os bancos começaram a dar bolsas de estudo. As empresas estão salvando o País no sentido da formação profissional. Se esperarmos iniciativas políticas, vai tudo para o buraco.

Dinheiro – Como as empresas têm administrado essa questão?

Assumpção – Aquelas que não encontram profissionais prontos no mercado decidiram formar internamente. Muitos estão se aposentando. O problema está na reposição desse pessoal. A economia mundial cresceu uma década seguida, em média, 5% a 6%. Isso não aconteceu aqui. Agora, a tendência é de que o ritmo continue em crescimento aqui e fique estável no Exterior.

Dinheiro – O executivo brasileiro está em condições de disputar mercado com os profissionais estrangeiros?

Assumpção – O executivo brasileiro hoje eu já considero um dos melhores do mundo. Primeiro, porque aprendeu a se formar. Segundo, o povo brasileiro é miscigenado. Não tem credo, não tem cor, não tem nenhuma barreira cultural. Assim, pode trabalhar em Israel, nos países árabes, no Japão, na China, na Europa, nos Estados Unidos. Qualquer lugar que o brasileiro vá, ele se adapta e é bem-vindo. Não é à toa que existem cinco milhões de brasileiros vivendo no Exterior, de serventes de obras a executivos de empresas, incluindo jogadores de futebol.

Dinheiro – Esse é o maior diferencial?

Assumpção – Existe uma demanda por brasileiros no mundo inteiro. Empresas em busca desse talento brasileiro, dessa criatividade. Estive recentemente no Chase Manhattan, onde trabalhei, e descobri que hoje tem apenas um norte-americano trabalhando no Brasil. Na minha época, eram 22. Hoje, tem mais de 30 brasileiros trabalhando para o Chase em várias partes do mundo. O grande talento é aquele que tem mobilidade, que pode ser transferido para qualquer lugar. O brasileiro tem essa característica.

Dinheiro – A falta de talentos tem inflacionado os salários dos executivos?

Assumpção – É a lei da oferta e da procura. Se existem mais vagas do que profissionais, os que se destacam são muito bem pagos. Há 15 anos, um presidente de banco multinacional chegava ao Brasil ganhando US$ 400 mil anuais. Hoje ele ganha US$ 10 milhões. Eu ganhava no Chase, em 1992, US$ 60 mil por ano. Hoje, um executivo lá ganha US$ 2 milhões, em média. Outra explicação é o modo como as companhias têm tratado seus funcionários. Trinta anos atrás, quando se falava que o principal ativo de uma empresa eram os recursos humanos, diziam que era baboseira.

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Dinheiro – Por quê?

Assumpção – Quem não valoriza o funcionário, perde-o para a concorrência. Vai chegar gente oferecendo mais dinheiro. Assim como o recurso material e o recurso financeiro, recrutar e reter bons profissionais é um desafio. A empresa que não tiver essa visão vai quebrar, vai ser comprada ou vai se fundir. Porque vai perder talentos.

Dinheiro – Essa falta de talentos não é ruim para as empresas e não pode travar o crescimento do País?

Assumpção – Não diria ruim, mas exige mudança de conduta. Há cada vez mais jovens em cargos de liderança. Por um lado, isso é bom para o profissional, mas pode ser um risco às companhias. Minha filha, por exemplo, com apenas 22 anos, durante a faculdade começou a estagiar num grande banco multinacional e, antes de se formar, foi efetivada como analista de crédito, tomando conta de empresas no Chile, na Colômbia, e na Argentina. A menina é boa. Mas isso significa também que existe carência de mão-de-obra no mercado. Ela antecipou no mínimo três anos na carreira. Outras pessoas da turma dela também já estão colocadas, Isso é ótimo do ponto de vista do empregado, embora seja um perigo para as empresas.

Dinheiro – A promoção de jovens a cargos de responsabilidade é falta de opção?

Assumpção – Nem sempre. O Bill Gates fundou a Microsoft com 19 anos sem ter curso superior. Nesse contexto, é fundamental o recrutador ter condição de avaliar o potencial, saber se aquele profissional, independentemente da idade, vai longe. É como no mercado financeiro. Quando compro ações, aposto que elas vão valorizar. Quando eu contrato alguém, estou acreditando que aquela pessoa vai crescer.

Dinheiro – Será preciso importar mão-de-obra?

Assumpção – Acredito que sim. Ou importar ou repatriar. Atualmente, tem mais brasileiros lá fora do que estrangeiros aqui. Vai inverter. O brasileiro vai chegar a custar US$ 500 mil, incluindo salários e bônus. Vou conseguir trazer americano por R$ 450 mil. A falta de talentos vai se agravar se continuarmos a crescer no ritmo atual.

Dinheiro – Quais são as estratégias para atrair bons profissionais e mantê-los na empresa?

Assumpção – O grande diretor de recursos humanos tem que ser o próprio presidente da empresa. Eu sempre faço uma comparação: quando você tem um cavalo de corrida, o que você faz com ele? Você o trata bem. Escova o cavalo, dá ração, dá banho, treina o animal, faz o cavalo correr e ganhar a corrida para lhe dar lucro. No caso do ser humano, você tem que deixar a pessoa feliz. Assim, ela vai produzir mais e dar retorno à empresa.

Dinheiro – E isso ainda não ocorre com a maioria das empresas?

Assumpção – Ainda não. Mas as empresas caminham para esse comportamento de uma forma muito forte. Algumas empresas já criaram a figura do diretor de aquisição de talentos.

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“O Chase tem um americano no Brasil e 30 brasileiros no Exterior”. Proporção de estrangeiros e brasileiros se inverteu

Dinheiro – As grandes empresas aprenderam a reter seus talentos?

Assumpção – Essa é uma questão muito discutida entre os grandes gestores. Não é fácil. Por exemplo: das 500 empresas listadas na Forbes, metade dizia que perderia até 30% dos talentos pelo motivo de demanda do mercado e 25% não sabia como repor esses talentos perdidos. Um caso diferente é a Microsoft. A companhia recruta de 25% a 30% de seus talentos por ano no mercado, porque precisa renovar o tempo todo o pessoal pensante. É a inteligência dela. Não basta apenas ter nome. Hoje o executivo sabe que é necessário, por isso quer ser valorizado. Ninguém quer mais estabilidade. Talento é aquele que faz a diferença. Não é um trabalhador qualquer.

Dinheiro – Sob esse ponto de vista, parece que o Brasil é o paraíso das oportunidades. E o desemprego?

Assumpção – Não diria paraíso, mas acredito que não há desemprego no País. Há vagas de sobra tanto para executivos quanto para funções de menor qualificação. Os índices de ocupação não refletem a realidade. São defasados porque não consideram o trabalho informal como deveriam. Se levarmos em conta o número de trabalhadores em busca de vagas e o número de oportunidades que existem por aí, podemos afirmar que temos pleno emprego.

Dinheiro – Não é ilusão achar que não existe desemprego no Brasil?

Assumpção – Procure uma empregada doméstica para sua casa. Não vai encontrar. Quando achar, será extremamente cara. Tente buscar um professor para universidade. Não acha. Sou especialista em contratar média e alta gerência, diretores, presidentes, gerentes. Na faixa de baixo, também há vagas. Estamos na fase das supercontratações.

Dinheiro – Quais são os setores que demandam mais talentos?

Assumpção – Não tenho como destacar um. O setor financeiro, que tem sofrido no resto do mundo, por aqui não tem problema. Todo mundo ganhando dinheiro. Empresa de consumo ganha dinheiro. Agronegócio ganha dinheiro. Infra-estrutura ganha dinheiro. Tudo. No varejo e atacado é a mesma coisa, assim como mineração e siderurgia. Não tem nenhum setor que não esteja crescendo. Não tem crise em nenhum setor. Tecnologia também sempre está aquecida.

Dinheiro – Qual setor deve demandar mais mão-de-obra nos próximos anos?

Assumpção – Infra-estrutura. Nesse ponto, o Brasil precisa começar do zero. Não tem nada aqui. Está tudo atrasado. Outro setor é o agronegócio. O mundo passa fome e nós somos os maiores produtores de alimentos. Não consigo ver nada para atrapalhar o Brasil, a não ser as besteiras do governo. Só estamos crescendo porque conseguimos nos livrar do governo, essa que é a verdade. No dia em que esse governo tiver um pouco de bomsenso e reduzir a carga tributária, esse país explode e fica entre as cinco maiores economias do mundo.