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Agora é com os bancos

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Correio Braziliense

BC interrompe o processo de queda da taxa Selic, iniciado em janeiro. Os 8,75% devem ser mantidos até o fim de 2010. Governo espera que instituições financeiras barateiem o crédito às famílias e às empresas

  • Vânia Cristino

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Não foi surpresa para ninguém. O Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu ontem o ciclo de quedas da taxa básica de juros (Selic), iniciado em janeiro deste ano. Por unanimidade, a taxa foi mantida em 8,75% ao ano, patamar que o Banco Central (BC) considera adequado para que a economia continue crescendo sem pressionar a inflação. Desde o início do ano, a Selic encolheu cinco pontos percentuais. Esse corte, considerado expressivo pela maioria dos analistas, foi vital para que o país saísse rapidamente da recessão na qual mergulhou no fim de 2008, depois do estouro da bolha imobiliária americana.

A partir de agora, o governo espera que os bancos façam a sua parte: cortem o custo dos empréstimos aos consumidores e às empresas. Em análises feitas ao presidente Lula, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que as instituições repassaram parte da queda da Selic para a clientela. Mas ainda há espaço para mais reduções, o que ajudará a reforçar a demanda das famílias e a retomada dos investimentos produtivos. O governo espera que os bancos públicos liderem esse processo — de juros mais baixos e oferta maior de crédito. Mas tanto no Banco do Brasil quanto na Caixa Econômica Federal, a percepção é de que o espaço para novas baixas nas taxas chegou ao fim. Para que o movimento continue, será preciso que o Copom volte a derrubar a Selic. Por isso, nenhuma das duas instituições anunciou mudanças em suas tabelas ontem.

Quanto aos bancos privados, Meirelles acredita que há gorduras para queimar. Tanto que trabalham com juros bem acima dos cobrados pelo BB e pela Caixa na maior parte das operações. Enquanto a Selic encolheu 36,36% desde janeiro, passando de 13,75% para 8,75% ao ano, os juros médios cobrados pelos bancos das pessoas físicas encolheu 18,36%, de 55% para 44,9% anuais. De início, os bancos apontaram o aumento da inadimplência por causa da crise como justificativa para segurar a queda das taxas aos consumidores. Mas, há três meses, o índice de calote medido pelo BC está parado em 8,6%. O BC constatou ainda que, em algumas modalidades de financiamento, como o cartão de crédito, os juros subiram, passando de 600% ao ano. “Os bancos ainda não repassaram para os clientes tudo o que o Copom reduziu de juros”, disse Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios.

Eleições
Na nota à imprensa em que explicou o fim do ciclo de queda da Selic, o Copom ressaltou que a manutenção da taxa em 8,75% ao ano levou em conta, de um lado, o impacto do corte de juros já realizado, e, de outro, o fato de a indústria ainda estar operando com capacidade ociosa. “O Comitê avalia que esse patamar de taxa básica de juros é consistente com um cenário inflacionário benigno, contribuindo para assegurar a manutenção da inflação na trajetória de metas (4,5% ao ano)”. E é o que está se vendo. As projeções dos analistas apontam para inflação entre 4% e 4,5% neste e no próximo ano.

Para o professor Alcides Leite, o movimento de queda dos juros, agora, tem de ser comandado na ponta, pelos bancos. “Os bancos públicos estão liderando esse movimento e os bancos privados vão ter que correr atrás”, afirmou. “As instituições terão que diminuir a margem de lucro e expandir a base de clientes se não quiserem perder mercado. Hoje, os consumidores estão muito atentos, sabem identificar quando há exageros”, acrescentou.

A expectativa da maior parte dos analistas é de que a taxa Selic seja mantida até o fim de 2010. Não é praxe bancos centrais elevarem juros em anos de eleição. Mas a parte mais pessimista do mercado aponta que, com a retomada mais forte da economia, o Copom não terá como escapar de aumentar os juros para conter uma possível alta da inflação. Essa mesma ala diz que há riscos embutidos no cenário para 2010, inclusive políticos, como a saída de Henrique Meirelles do comando do BC para concorrer a um cargo político, muito provavelmente o governo de Goiás. Ele, inclusive, terá que se filiar a um partido político até o fim deste mês.

Para que esse ruído se dissipe ou diminua, a esperança é de que Meirelles seja substituído por um dos atuais diretores da instituição. O mais cotado é Alexandre Tombini (Organização e Normas), o favorito do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Mas também está no páreo Mário Mesquita (Política Econômica), considerado mais conservador.

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O número
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Diferença gritante
36,36%
Quanto baixou a taxa básica de juros desde janeiro

18,36%
Quanto caiu a taxa média cobrada pelos bancos das pessoas físicas

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–>R$ 44 bilhões para o BNDES
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A Câmara aprovou ontem o texto base da Medida Provisória 465, que repassa R$ 44 bilhões do Tesouro Nacional para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O dinheiro será usado para o financiamento de máquinas e equipamentos — como forma de aquecer o setor de bens e capitais. Mas a votação só será concluída na terça-feira, quando os deputados votam os destaques. Uma mudança feita no texto base pelo relator, Carlos Zarattini (PT-SP), abriu a possibilidade de se usar a linha de crédito para a aquisição de aeronaves, o que deve estimular as vendas da Embraer. Esse ponto, entretanto, está entre os destaques que ainda precisam ser analisados pelos deputados na semana que vem. A votação do texto base foi em caráter simbólico, quando não é preciso o voto de cada parlamentar, e só foi possível depois de um longo debate entre os líderes. Apesar disso, a oposição informa que não abriu mão da obstrução que faz desde a terça-feira devido à polêmica em torno do pré-sal. (Diego Moraes)
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Empresários criticam
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Apesar de esperada, a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (CNI) de interromper o ciclo de queda da taxa básica de juros (Selic), mantendo-a em 8,75% ao ano, mereceu críticas de empresários e trabalhadores. Segundo o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, foi um ato “inaceitável”. Para o industrial, a impressão que ficou foi a de que o Copom já vê a crise mundial como superada, o que é um equívoco. “Essa crença não condiz com a realidade. A indústria ainda sofre os efeitos recessivos que a crise provocou”, disse.

Na opinião do presidente da CNI, os cortes promovidos na Selic desde janeiro, totalizando cinco pontos percentuais, foram insuficientes para que a indústria pudesse retomar o ritmo de crescimento registrado no ano passado. A seu ver, a manutenção dos juros contribuirá para que a recuperação da produção seja mais vagarosa do que o desejado, trazendo enormes prejuízos para o país. A posição da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foi a mesma. Mas o presidente da entidade, Paulo Skaf, avisou que não dará trégua aos integrantes do Copom, liderados por Henrique Meirelles. “Continuaremos sendo repetitivos enquanto faltar visão à política monetária neste país”, destacou.

Do lado dos trabalhadores, o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, levantou o tom e acusou o BC de jogar contra a retomada do crescimento, que ainda está tímida, e a criação de empregos. “A decisão do Copom frustra os trabalhadores, que ansiavam por uma queda drástica na taxa básica de juros como estímulo para a economia neste fim de ano”, afirmou. Para ele, em vez de favorecer os que produzem e trabalham, a política de juros do BC “continua nitidamente voltada em prol dos especuladores”. Tanto os empresários quanto os trabalhadores acreditam, porém, que não restará alternativa ao BC senão voltar a reduzir a Selic até dezembro, devido à forte queda da inflação.

Sem Portinari
A interrupção da queda da Selic ocorreu em um cenário diferente do habitual. Depois de mais de uma década iluminando os integrantes do Copom, a tela Descobrimento do Brasil, de Cândido Portinari, não estava presente na sala de decisões. A obra, orçada em milhões de reais, foi retirada da sala do Comitê no mês passado para fazer parte da exposição com obras do pintor, na sede da instituição em Brasília. O painel, apontado como inspirador pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, foi substituído por outro, de Alfredo Volpi . (VC)

A indústria ainda sofre os efeitos recessivos que a crise provocou”

Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional da Indústria
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