Notícias


Aglutinação para vencer a concorrência

Cristiano Vieira

Pesquisas recentes têm mostrado que processos de fusão ou de aquisição refletem estratégias para garantir melhor posicionamento no mercado.

Conforme analistas, o processo de venda de uma empresa pode ser um “inferno” ou um “paraíso”. Companhias médias e grandes, que antes concentravam suas atividades nos seus países de origem, passaram a operar em novos mercados, especialmente em países emergentes, como o Brasil.

Os alvos são justamente as pequenas e médias empresas nacionais, particularmente aquelas de origem familiar e com reconhecimento em seu mercado de atuação.

Em face do processo de transformação em curso no Brasil e no mundo, uma companhia poderá se posicionar estrategicamente em duas condições: como vendedora ou como compradora. Muitas delas podem não estar preparadas, em especial aquelas de médio porte, visto que os processos de compra ou alienação não fazem parte da rotina das empresas. Portanto, é importante destacar que a probabilidade de sucesso é muito maior nas operações que, desde o início do processo, obedeçam a uma velha máxima do comércio: “um negócio para ser bom, tem de ser bom para as duas partes”.

Portanto, na hora de preparar uma companhia para o assédio da venda, o empresário deve criar valor para o negócio e para o empreendimento, pois os pontos críticos que podem levar ao fracasso poderão ser estrategicamente contornados. Em outras palavras, são imprescindíveis estratégia, conhecimento, organização e profissionalização da negociação.

A empresa que se posicionar como compradora deverá preparar um plano de negócio no qual será contemplada toda a estratégia de aquisição e serão definidos os objetivos e os passos para atingi-los. Uma correta avaliação do negócio é fundamental nesse caso (muitas vezes, empresários e analistas ansiosos tendem a sobrevalorizar os benefícios do negócio) e o profundo levantamento das contingências efetivas e potenciais, traçando um raio-X das finanças da corporação, o conhecido due diligence. “Fusões e aquisições são estratégias para avançar também sobre a concorrência, isto é um panorama mundial. Ou você cresce, ou você fica para trás”, avalia Antônio Caggiano, executivo da consultoria Deloitte, que divulgou recentemente uma pesquisa na qual 59% das empresas ouvidas já realizaram operações de fusão e aquisição para acirrar a concorrência.

O estudo revela ainda que as operações efetuadas nos últimos cinco anos no Brasil têm como característica predominante a aquisição da totalidade do capital da empresa-alvo. Este foi o caso de dois terços (66%) das organizações que conduziram esse tipo de ação. Outros 16% tiveram como meta adquirir participação majoritária nas empresas, enquanto que, em 14%, a operação previa a divisão do controle acionário. A aquisição de parcelas minoritárias ficou restrita a 4%.

A maior parte (56%) das companhias adquiridas no mesmo período eram de controle familiar e 18% constituíam subsidiárias de multinacionais estrangeiras. Somente 8% tinham capital aberto com ações negociadas na Bolsa de Valores. Essa situação reflete, na visão de Antônio Caggiano, as características do universo empresarial brasileiro, marcado pela maior participação de empresas familiares. Ainda em relação ao perfil das empresas-alvo, Caggiano destaca, como uma grande oportunidade às empresas nacionais interessadas em reforçar sua posição no mercado, o potencial das operações envolvendo subsidiárias de organizações estrangeiras.

A aquisição de empresas no exterior ainda é uma possibilidade remota para muitas corporações, com apenas 11% do extrato pesquisado indicando esta direção. Entre aquelas que não pensam em aquisições fora do Brasil, 41% delas informam que ainda prevêem chances de crescimento no País. Outras 30% pretendem ter presença no exterior, porém, com estrutura própria e não por meio de aquisições. “Uma empresa com presença lá fora necessita de dois conjuntos de informações financeiras, para atender às demandas dos órgãos reguladores locais. Hoje é menos complicado, uma vez que a padronização das normas contábeis tem avançado muito”, esclarece Caggiano.

Cenário nacional mostra aumento nas transações

O mercado brasileiro experimentou um aumento expressivo no volume de operações de fusão e aquisição em 2005, que cresceu 40% em relação a 2004, somando 317 transações. A liderança coube ao segmento de serviços financeiros, com 54 negócios, seguido de informática e tecnologia, com 41 operações. As empresas de comércio varejista e atacadista também passaram por um ano de consolidação, com a realização de 22 transações.
Este incremento foi beneficiado pela estabilidade da economia, refletida nos baixos índices de inflação e do risco-país, que se encontra no menor patamar dos últimos anos. Com a expectativa de aumento no ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2006 e de queda nas taxas de juros, as operações de fusão e aquisição tendem a continuar crescendo nos próximos anos, em linha com o observado no mercado mundial.

No setor financeiro, as principais operações envolveram a aquisição de financeiras e carteiras de crédito ao consumidor e crédito consignado, além de investimentos de maior porte. Outros setores, como o de tecnologia, têm experimentado uma nova onda de valorização nas bolsas de valores, estimulando investimentos em empresas dessa área.

Os investidores internacionais também tiveram participação importante no volume de transações efetuadas em 2005, em diversos setores, como o de varejo, embalagens, bebidas e educação. Esse movimento pode também ser verificado pelo volume de Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil ao longo do ano passado, que atingiu US$ 15,2 bilhões.

Apesar de representar uma queda em relação a 2004 (US$ 18,2 bilhões), analistas consideram que, se fosse excluído o efeito da maior transação registrada naquele ano – entre Ambev e Interbrew, que totalizou cerca de US$ 5 bilhões -, o resultado de 2005 seria 17% superior ao de 2004.
Esse fluxo de investimentos deve continuar crescendo nos próximos anos, porém, em patamar ainda inferior ao observado nos anos de 1998 a 2001, que foram fortemente influenciados pelas privatizações.

Reinaldo Grasson, da Deloitte, avalia que a disseminação das boas práticas de governança tem contribuído para a valorização das companhias nacionais. “Elas são essenciais, caso contrário a empresa não consiga mais competir no mercado. Quem pretende abrir capital ou captar recursos no exterior tem que desenvolver mecanismos de transparência na gestão”, ressalta Grasson.

Avaliação dos riscos é essencial para transações

Conforme Jorge Sawaya, diretor da PricewaterhouseCoopers e especialista em fusões, o conceito básico de qualquer due diligence (DD) é auxiliar o comprador, quer seja ele estratégico ou financeiro, em seu processo de uma aquisição parcial ou total de uma companhia. “Comprador estratégico é aquele que opera no ramo ou em atividade correlata ou, ainda, possua algum interesse que o motiva a analisar a empresa-alvo com o objetivo de manter as atividades”, explica Sawaya.

Já o comprador financeiro identifica a oportunidade e investe na empresa para, em algum momento, se desfazer do investimento.

Entre seus objetivos, a DD busca verificar o estado financeiro da companhia, analisando aspectos contábil, fiscal, trabalhista e previdenciário, para identificar os riscos na transação. “Existe também a DD comercial, que estuda a empresa do ponto de vista estratégico, como sua posição no mercado e quais seus concorrentes”, conta Sawaya.

Segundo o executivo, um aspecto importante são as exigências dos órgãos reguladores de outros países, como a SEC dos Estados Unidos, equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil. A SEC impõe severas exigências quanto às informações disponibilizadas no mercado. Se a empresa-alvo, por exemplo, possuir contingências que não possam ser resolvidas logo, os administradores e acionistas respondem por qualquer ato que esteja em desacordo com a legislação, dificultando a transação do ponto de vista operacional.

Gilberto Bagaiolo e Luís Fernando Giacobbo, ambos auditores da PwC, analisam os tipos de interesse em fusões e aquisições. Para os executivos, um comprador ou então um coordenador de um pool de investidores, com condições de alavancar financiamentos, tem interesse em fechar negócio. “O investidor estratégico não busca necessariamente o fruto da transação, mas sim os resultados a longo prazo como um todo”, esclarece Bagaiolo, que atua na área contábil.

O retorno do investimento, neste caso, vem através do desenvolvimento do próprio negócio, pensando, eventualmente, em uma futura negociação. “Por exemplo, alguns investidores preferem comprar uma companhia para depois segmentá-la e vender as partes”, avalia Giacobbo, auditor da área tributária. Segundo ele, em determinadas circunstâncias, o valor dos segmentos é mais vantajoso que a corporação como um todo.