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A sobrevivência de quem adiciona valor ao negócio

Existe uma boa e uma má notícia para os cerca de 400 mil profissionais, 65 mil empresas e centenas de estudantes que formam o mercado de contabilidade no Brasil. A burocracia, tão nociva para a sociedade e que atinge diretamente o segmento, deve diminuir substancialmente. Em contrapartida, será necessário um esforço de adaptação, já que trabalhos “braçais” como a apuração de tributos e a escrituração de notas fiscais vão perder espaço.

O caminho mais provável para os profissionais da contabilidade é a prestação de serviços de consultoria, não só tributária, mas também de gestão. Boa parte dos 46% do total de micro e pequenos empreendimentos que morrem antes de completar um ano de vida, de acordo com o IBGE, tem esse fim justamente por falta de conhecimentos gerenciais dos sócios. Não que os tradicionais serviços prestados atualmente vão desaparecer, porém, o valor agregado deles será menor. “O contador que passa o dia calculando impostos e preenchendo guias vai morrer de fome em breve. Só vai sobreviver quem adicionar valor para o negócio do cliente ou empregador”, prevê o ex-presidente do Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo, Pedro Ernesto Fabri.

Diversos fatores, como novas tecnologias e mudança do perfil do trabalho, estão exigindo uma visão diferenciada por parte do contador no mercado de trabalho. Na opinião do presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRC-RS), Rogério Rokembach, o maior desafio para o profissional da contabilidade nos próximos anos é desenvolver seus conhecimentos em tecnologia da informação e atuar fortemente na gestão empresarial.

Um dos motivos para essa mudança, ao que tudo indica inevitável, é a informatização dos órgãos arrecadadores, como Receita Federal, secretarias de finanças (estaduais e municipais) e Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). A Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) é uma amostra de como deve ser o relacionamento dos contribuintes com o poder público daqui para frente. Com ela, as firmas que faturam acima de R$ 250 mil no ano passado não precisam mais imprimir talonários de notas nem calcular os valores dos impostos, já que a geração da guia de recolhimento é automática, via internet. Além disso, a NF-e não precisa ser lançada na Declaração Eletrônica de Serviços (DES), o que é uma preocupação a menos.

A Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas (Super Simples), aprovada no Congresso, também deve trazer alívio aos contadores, já que entre os benefícios previstos está a simplificação do processo de constituição de pessoas jurídicas. Em vez da atual peregrinação por diversos órgãos, bastará um único registro, o Cadastro Nacional Único, que será válido para todas as atividades. Se tudo caminhar como previsto, as filas, pesadelo dos profissionais contábeis, devem se transformar em vagas lembranças. Com o avanço da informatização, poucos procedimentos precisarão ser feitos pessoalmente, um cenário bem diferente do atual.

Mesmo com a melhoria dos serviços, principalmente os prestados pela Receita Federal, um dos principais entraves ainda hoje são as filas, que acabam elevando os custos dos escritórios. Há alguns anos, no entanto, a situação era insustentável, e só conseguia ser atendido quem chegasse de madrugada nos postos do órgão. De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas no Estado de São Paulo (Sescon-SP), Antonio Marangon, a situação está melhorando, mas alguns gargalos precisam ser resolvidos. “A emissão de alvarás de funcionamento pela prefeitura de São Paulo, além das Certidões Negativas de Débito (CNDs), são exemplos clássicos de como o poder público ainda tem muito a avançar.

A iniciativa privada acaba sendo prejudicada por conta de deficiências de determinados órgãos”.

Terceirizados terão de rever modelo de negócios

Solução adotada por quase 100% das micro e pequenas empresas, a terceirização dos serviços contábeis está prestes a passar por uma mudança significativa. Com o sucessivo avanço da informatização dos órgãos arrecadadores, além da perspectiva de desburocratização do processo de abertura e encerramento de firmas, os escritórios que hoje concentram suas receitas na cobrança de mensalidades terão de rever este modelo. A tendência, segundo especialistas, é que a cobrança por demanda ganhe espaço.

Muitos trabalhos burocráticos que até então eram feitos pelos contadores se tornaram desnecessários. Um exemplo desse movimento é a Nota Fiscal Eletrônica da prefeitura de São Paulo, que liberou os profissionais de uma série de tarefas. Por conta disso e de outras alterações que estão por vir, os clientes devem começar a exigir reduções nas taxas pagas mensalmente. “A evolução da automatização está tão rápida que, em poucos anos, a Receita Federal vai elaborar as declarações e enviá-las para os contribuintes apenas fazerem uma revisão”, acredita o presidente do Sescon-SP, Antonio Marangon. Segundo ele, a saída é a ênfase nos serviços de consultoria e a instituição da cobrança por horas.

Na opinião do presidente do Sescon-RS, Luiz Carlos Bohn, a prestação de serviços contábeis foi talvez uma das primeiras formas de terceirização. “Mas vivemos uma época em que a terceirização nessa área se torna cada vez mais importante por uma questão de especialização e de economia de escala. As grandes companhias estão dando os primeiros passos nesse sentido, e isso formará uma nova cultura”, prevê Bohn.

Outro foco dos contadores terceirizados será o aumento dos negócios com as médias e grandes empresas, que hoje, em sua maioria, contam com estruturas internas. De acordo com o gerente operacional da Pigatti Contabilidade, João Vital dos Santos Neto, cerca de 80% das organizações que possuem equipes próprias de contadores também recorrem, mesmo que eventualmente, a algum escritório, o que demonstra o potencial do mercado. No entanto, nem sempre os clientes conseguem tirar total proveito deste tipo de parceria. O problema não está na terceirização, mas na forma como é estabelecida. “Tanto os contadores quanto os empresários precisam enxergar a contabilidade como um instrumento de gestão e não apenas como uma forma de se controlar os tributos.”

Adesão a seguros ainda é baixa

Cometer erros não é o objetivo de ninguém, ainda mais dos contadores, que lidam com áreas extremamente sensíveis das organizações. Existem diversas opções no mercado segurador para os profissionais contábeis se protegerem de eventuais erros e omissões, mas a adesão ainda é baixa. Estima-se que apenas 5% da carteira global denominada “Responsabilidade Civil Profissional”, que nos primeiros oito meses deste ano gerou prêmios (receitas) de R$ 22,3 milhões, seja de apólices contratadas por profissionais da contabilidade. Isso ocorre porque a categoria ainda não foi vítima de muitas ações judiciais, diferentemente de outros profissionais, como médicos, advogados, arquitetos e engenheiros.

“O brasileiro tem o hábito de se proteger apenas após sofrer um dano. É uma questão cultural”, avalia o membro da comissão de riscos patrimoniais e responsabilidade civil da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg), Adilson Neri Pereira. Segundo ele, até mesmo a participação dos auditores é maior, já que muitos querem se proteger de eventuais problemas com acionistas. “No exterior, principalmente nos Estados Unidos, as apólices de responsabilidade profissional são consideradas de prateleira, pois o consumo é elevado. No Brasil, o produto ainda está engatinhando, mas isso deve mudar aos poucos.”
Com a entrada em vigor do Novo Código Civil, em 2003, a questão da responsabilidade ficou ainda mais em evidência. Além disso, o Código de Defesa do Consumidor também estabelece obrigações e punições para os prestadores de serviços. Mesmo não se tratando de uma relação de consumo, alguns juízes aceitam o uso do código nos conflitos entre pessoas jurídicas. Em geral, os seguros são usados para custear a defesa e até indenização determinada pela Justiça. Mas existem outras hipóteses, como os gastos com reparação de imagem. “Um contador que precisar publicar anúncios publicitários para reverter os danos provocados por um erro também estará coberto”, explica o gerente da área de produtos financeiros da Unibanco AIG, João Botelho.

De acordo com o executivo, grandes empresas já estão exigindo que seus fornecedores de serviços contábeis contratem um seguro. “O receio é de que o escritório não tenha patrimônio suficiente para responder. Hoje, esse tipo de apólice ainda é um diferencial no Brasil.” No Rio Grande do Sul, o Sescon-RS está trabalhando para facilitar a contratação do seguro de responsabilidade civil para o serviços dos profissionais contábeis, garante o presidente Luiz Carlos Bohn.

O mercado muda e os cursos acompanham

Atentas às diversas mudanças que estão ocorrendo na área de contabilidade, algumas instituições de ensino já promoveram alterações em suas grades curriculares para tentar corresponder às exigências do mercado de trabalho. Disciplinas como governança corporativa, legislação internacional e administração, por exemplo, estão ganhando espaço. “Incentivado, inclusive pelas faculdades, o contador de antigamente era um simples registrador de operações, além de responder pela apuração dos tributos e o cumprimento das obrigações acessórias. Mas isso está mudando”, afirma o coordenador do curso de Contabilidade da Trevisan Escola de Negócios, Sérgio Alexandre.

O mesmo fenômeno também pode ser percebido nas universidades públicas. Na opinião do professor do Departamento de Contabilidade e coordenador da Pós-Graduação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Álvaro Lima, é imprescindível que o profissional moderno tenha conhecimentos sobre questões como globalização, entre outras. “Hoje em dia é preciso saber ler e interpretar balanços de companhias de diversas partes do mundo.
E, para isso, é necessário conhecer as normas contábeis internacionais,” explica.

Para o presidente da Federação dos Contabilistas do Rio Grande do Sul, Delmar Luis Bruxel, a formação acadêmica é uma questão que tem causado muita preocupação, porque quase todas as universidades aplicam muita matéria teórica e pouca prática. “Temos evidências que acadêmicos, após concluir a universidade, vão para o mercado de trabalho e encontram dificuldades de conseguir colocação.”

Na opinião do dirigente, os cursos devem considerar que muitos jovens que estão nas universidades já estão atuando no ramo contábil, enquanto freqüentam a faculdade. “Também estamos conscientes de que, para um bom profissional, tão importante quanto a prática, é a necessidade de estar atualizado com a legislação”, completa Bruxel.

Atualmente, são cerca de 800 cursos superiores de Contabilidade no Brasil. “Todos os semestres, formam-se, em média, 30 alunos por instituição. Ou seja, de seis em seis meses são despejados no mercado cerca de 24 mil novos profissionais. Por isso o desenvolvimento individual é primordial”, acredita Alexandre, da Trevisan. Outra mudança importante, ocorrida nos últimos anos na área de educação, foi o fim do reconhecimento do curso técnico pelo Conselho Federal de Contabilidade.

Oportunidades crescem no setor público

Após a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000, as administrações tiveram de dar mais atenção às contas públicas, já que os governantes ficaram sujeitos a severas punições em caso de uso irresponsável dos recursos. Desde então, o profissional de contabilidade ganhou novo status. “O contador sempre foi importante, mas, com a lei, que transformou a má gestão em crime, os administradores públicos passaram a dar mais valor a um bom sistema contábil”, afirma o pesquisador e coordenador do curso de MBA em Controladoria na Gestão Pública da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuarias e Financeiras (Fipecafi),

Valmor Slomski.

Segundo o especialista, que já atuou como contador-geral da prefeitura de Chapecó (SC), o setor público ainda precisa implementar algumas melhorias, como o aumento dos salários, para conseguir atrair os principais talentos da contabilidade nacional. “Hoje, por exemplo, não podemos dizer que existe contabilidade pública e sim, o orçamento.”

A própria entidade que regula o segmento, o Conselho Federal de Contabilidade, ainda discute uma norma que possa definir claramente o que é contabilidade pública. De acordo com o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Álvaro Lima, o objetivo é criar uma lei para que ela seja aplicada em todos os níveis governamentais.

Na opinião de Slomski, também é preciso equacionar o preconceito que ainda impera entre alguns. “Muitas pessoas resistem à idéia de trabalhar no setor público por conta de algumas mazelas, como a corrupção.” Mesmo assim, a demanda do setor público por contadores está crescendo e, conseqüentemente, os profissionais estão olhando com mais atenção para as novas oportunidades. Uma amostra disso foram os recentes concursos promovidos por órgãos como a Receita Federal e as Procuradorias de Justiça.

O nível de organização contábil varia bastante dependendo da região do País. As prefeituras das capitais e os governos estaduais do Sul e do Sudeste estão mais avançados. Porém, mesmo em São Paulo, ainda existe muito a ser feito. “A área de controle patrimonial do governo paulista é repleta de problemas. Alguns imóveis, como a sede da Secretaria da Fazenda, estão com os valores totalmente defasados”, alerta o acadêmico da Fipecafi. Para corrigir essas distorções é necessária uma maior valorização dos contadores-gerais dos estados e dos municípios. “Nem mesmo nas universidades públicas há uma preocupação com o tema, já que são poucos os incentivos para que os alunos se interessem.”